A menina, a tragédia e os cuidados.

Uma menina dois anos foi encontrada morta na borda da piscina de uma chácara na Estrada do Taquacetuba, no bairro Taquacetuba, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), por volta das 21h30 de quarta-feira (22).

Segundo a polícia, a família sentiu a falta da criança por volta das 18h e ligou para o telefone de emergência da PM –o 190. Ela foi encontrada na piscina pelo caseiro.

Difícil mensurar o tamanho da tragédia, ou a intensidade da dor dos familiares… É um acontecimento que estará para sempre gravado a fogo nos que ali estavam presentes. Assombrando sonhos, atormentando pensamentos, turvando o futuro.

Não pensem que quero “condenar” quem quer que seja, mesmo porque a pena mais dura possível já foi aplicada a todos, indistintamente. Nenhum juízo de valor externo poderia impor condenação mais impiedosa.

É como pai que não consigo deixar de pensar na dor da família. E como pai que não posso deixar de notar que algo de muito errado aconteceu para que a tragédia se consumasse. Isso não é apontar dedos, mas apenas indagar: desde que horas uma criança de dois (DOIS!) anos estava “sumida”? Quanto tempo ela ficou “sumida”, antes que os adultos notassem?

Sei lá se sou um monstro por pensar esse tipo de coisa enquanto a família, eternamente de luto, ainda sofre a pior dor do mundo. Mas, num repente, percebi que isso não me saía mais da cabeça.

É algo que me remete àquela famosa frase do Tio Ben, que resumiu toda a história da filosofia ocidental: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades.”

_____

Íntegra da notícia aqui.

Receitinha #4: risoto de linguiça ao vinho.

Mais um risotim esperto, que tal? Essa receita é do mais alto garbo e fidalguia, mas não deixa de ser muito fácil de fazer. Prestenção!

INGREDIENTES

- Oito “punhados” de arroz arbóreo (cada um tem um jeito de medir a quantidade. Eu uso o tal “punhado”, que é uma mão quase cheia. Calculo dois desses pra cada comensal).

- Meia cebola.

- Uma colher de sopa de margarina.

- Dois tabletes de caldo de galinha (ou de legumes. Ou de bacon. Vai do gosto…).

- Um copo de vinho branco seco.

- Quatro ou cinco linguiças (depende do tamanho de cada uma…).

PREPARO

Comecem os trabalhos cedo! Sério, não vai deixar pra cima da hora, porque precisa de algum tempinho – e logo aos amigos entenderão por quê.

Coloquem cerca de um litro de água numa panela e levem ao fogo. Enquanto esperam que ela ferva, cortem a cebola em cubinhos. Depois, joguem os dois tabletes de caldo na panela de água e, depois de dissolvidos, coloquem as linguiças dentro da água para que cozinhem.

Quando as linguiças estiverem cozidas, retirem da água, desliguem o fogo e reservem o caldo. Em seguida, fatiem as linguiças em rodelas marromêno finas, coloquem-nas num recipiente, submerjam elas com o vinho e deixem lá por uma horinha, que é pra ficarem “curtindo” e ganhando aquele sabor.

Depois desse tempo, liguem novamente o fogo daquela panela onde está o caldo em que foram cozidas as linguiçãs, joguem o clássico fio de azeite na panela onde o risoto será preparado e, quando ele estiver quente, coloquem as cebolas picadas. Quando elas estiverem naquele esquema, parecendo “translúcidas”, acrescentem o arroz, mexendo muito para que todo ele incorpore o azeite e a cebola. Em seguida, acrescentem as linguiças que ficaram “apurando” no vinho e, logo depois, o próprio vinho em que elas estavam mergulhadas. Lembrem de sempre mexer muito a mistura, ok? Não vão me fazer  vergonha de deixar a parada queimar, caraio!

Quando o vinho tiver secado, hora de começar a acrescentar o caldo da panela ao lado. Vão colocando uma concha de caldo de cada vez, sempre mexendo muito até que o líquido evapore. Então, acrescentem mais uma concha e assim por diante, até que o risoto atinja aquele famoso ponto al dente (que é quando ele já está cozido, mas ainda meio durinho). Quanto estiver assim, deliguem o fogo, tasquem a margarina por cima e cubram a panela com a tampa. Cinco minutinhos depois, abram a panela e mexam mais uma vez. Pronto!

Duas rodelas de linguiça e umas lasquinhas de parmesão, pra dar aquela decorada no prato, que aqui ninguém é pedreiro pra comer de qualquer jeito!

O porquê de eu ser contra a lei da Ficha Limpa.

Você, leitor deste blog [assustado e de olhos esbugalhados]: “Como assim é contra a lei?!”

Pois é, sou contra a lei.

Você, leitor deste blog [assustado, de olhos esbugalhados e com a boca aberta]: “Contra a aplicação imediata dela, já para as eleições passadas. É isso?!”

Não, meus caros. Sou contra a lei em si. Sim, eu sei que isso me torna antipático aos olhos da maioria das pessoas, mas fazer o quê? Não, eu não dou a mínima para a aprovação dos outros. Eu penso o que penso porque… bem… acredito no que penso! Não formo opiniões na esperança de conquistar os aplausos deste ou daquele grupo, mas na esperança de estar em paz com minha consciência e meus valores.

Sou contra a lei da Ficha Limpa por questão de princípio: em matéria de política, sou um liberal. Isso significa que minha concepção de democracia pressupõe, inclusive, o inalienável direito que as pessoas têm de… votar mal*. Sim, meus caros. Isso também faz parte do jogo político, afinal ele não é, nunca foi e nunca será perfeito.

Não me entendam mal: eu quero uma política mais “limpa” tanto quanto cada entusiasmado defensor da Ficha Limpa. Também folgaria em saber que Malufs, Barbalhos e Genoínos não ganhariam mais cargos eletivos no país em que vivo. A diferença é que, a meu ver, a constante depuração da classe política de um país deve ser resultado de escolhas livres da sociedade. É o povo que deve, por si só, entender que não é saudável votar num Maluf da vida, não ser proibido de fazê-lo por imposição de outrem. Em outras palavras, eu espero que meu filho aprenda que não deve bater nos coleguinhas, não que ande por aí com as mãos amarradas às costas, para que não tenha chance de agredir ninguém…

Hoje, a Ficha Limpa significa, na prática, que o Estado diz quem pode e quem não pode participar do jogo democrático. É por uma “boa causa”, todos concordamos. O problema é que em nome de “boas causas” foram cometidas as maiores atrocidades da história humana. Todo fascismo um dia nasceu prometendo combater iniquidades e caçar inimigos, não esqueçam disso.

Como qualquer um que acredite no indivíduo e no sistema de liberdades democráticas, sou ideologicamente contrário a um Estado paternalista e protetor. Eu pago meus impostos porque quero polícia na rua para impedir que vagabundo venha me assaltar, não para ter uma Super Nanny oficial me dizendo que Maluf é feio, bobo e malvado, e não pode ser votado. Ora, para quem eu dou meu voto é um problema meu (indivíduo), não um problema público (Estado)!

Acho temerário que um ente público, ao alcance de partidos políticos, grupos organizados de pressão e ao sabor de paixões emanadas da sociedade, possa dizer o que seria um bom ou um mau voto. Primeiro porque o “votar mal” é um conceito claramente subjetivo, como qualquer um com polegares opositores sabe. Eu, por exemplo, acho que a maioria dos brasileiros votou mal ao escolher Dilma, entendem? Mas há ainda outro fator, ainda mais importante: a democracia é tão importante, que deve ser defendida de todos. Até do povo!

Hoje, comemora-se que a “mobilização” e a “pressão” da sociedade civil levaram à criação da Ficha Limpa. Mas e amanhã? O que impediria que essa mesma sociedade civil se mobilizasse e pressionasse o chefe do Executivo a – sei lá… – fechar o Congresso? Ou, então, que pressionasse o Legislativo a demitir os ministros da Suprema Corte?

Ora, existe uma Constituição exatamente para garantir que determinados princípios fundamentais para a garantia do processo civilizatório seja salvaguardados de tudo e de todos. Ou, para empregar uma expressão que causará arrepio em muitos, pode-se também dizer que a Carta Magna existe para conservar os dispositivos que fazem de nós uma sociedade de seres humanos – daí as famosas cláusulas pétreas.

Eu não consigo entender por que os italianos – um povo que já teve Cícero! – insistem em votar em Berlusconi, mas não acho que o Estado deva editar uma lei estabelecendo que o bufão, por ser quem é, não deve ser votado. Quero é que os cidadão percebam isso livremente. E, se não querem perceber, que vivam sendo governados por aquela piada ambulante.

Na mesma esteira, não entendo por qual motivo os americanos, que já tiveram Lincoln, T. Roosevelt e Reagan, tenham se deixado seduzir pela retórica de centro acadêmico esgrimada por Barack Obama. Mas espero que eles percebam o “erro” sozinho e o “corrijam” por meio do voto, sem qualquer interferência do Estado.

O debate mais importante em torno da Ficha Limpa, portanto, nunca sequer foi feito. Discute-se a vigência, a anterioridade, a segurança jurídica e a presunção de inocência, todas questões importantes e que devem, sim, ser analisadas. Contudo, há antes delas uma outra face da lei que quase ninguém debateu: que autoridade o Estado tem para tutelar o voto dos indivíduos? A meu ver, nenhuma.

Como já mencionei alhures, a democracia pressupõe, dentre outras mazelas, o direito que qualquer pessoa tem de votar mal. “Ora, mas que grande porcaria esse regime de governo, então!”, vocês podem dizer. É, eis uma verdade! Como já disse Churchill, a democracia é o pior regime, depois de todos os outros… Nós não vivemos numa democracia porque ela é – ou deveria ser – perfeita. Nós vivemos numa democracia porque as alternativas históricas a ela são os totalitarismos que levaram, invariavelmente, à morte, à miséria e ao terror.

Não é, pois, uma “eleição limpa garantida pelo Estado” que garante a democracia e a liberdade dos indivíduos. São os indivíduos livres que garantem a existência da democracia! E liberdade, meus caros, ou é um conceito absoluto, ou não é liberdade. Ela pressupõe, inclusive, o direito que cada um de nós tem de usá-la mal…

Quem acompanhou a sessão de ontem do STF viu que os cinco ministros que falarm em defesa da aplicação imediata da Ficha Limpa desfraldaram o mesmo argumento principal: a lei reflete o clamor popular por uma política mais ética e proba. Ora, como marchar contra isso?! É o que todos queremos!

O busílis repousa no modo como as coisas serão feitas. Por meio da Ficha Limpa, o conjunto dos indivíduos – que forma essa coisa abstrata chamada de “sociedade” – resolveu desistir de pensar por si mesmo, e escolher os candidatos mais éticos, mais honestos. Preferiu-se, como em tantas outras ocasiões, recorrer à tutela do Estado paternalista, a quem caberia analisar a “vida pregressa” dos candidatos e dizer aos inocentes cidadãos: “Olha aqui, menino! Esse sujeito é malvado. Você é ingênuo e não consegue entender isso por si mesmo, por isso me obedeça e não vote nele, tá? Se votar, não vou contar seu voto! Moleque tonto!”

Ah, comigo, não! Eu sei os males que decorrem de uma sociedade acostumada a “votar mal”. Basta ver os legados dos vários Malufs e Barbalhos, espalhados por todo o Brasil. O problema, é que os males decorrentes de uma sociedade que se deixa tutelar pelo Estado, desistindo de suas liberdades em nome daquilo que emana do poder público, são muito maiores e mais deletérios.

Não existe sociedade que tenha evoluído sem prezar, antes de qualquer outra coisa, por suas liberdades individuais. Isso significa aceitar que o direito de escolher – inclusive de escolher “mal” – é precioso demais para que seja entregue a um bando de burocratas estatais, subordinados a coletividades abstratas (partidos, lobistas, etc.).

Enfim, não me deixo enganar por quem, como o ministro Carlos Ayres Britto, afirma que “purificar o processo eleitoral é o melhor caminho para a liberdade“. Ora, como está grafado no alto deste blog, não existe caminho para a liberdade. A liberdade É o caminho!

_____
* Notem que empreguei várias vezes a expressão “votar mal”, sempre entre aspas. Fiz isso porque trata-se de um conceito subjetivo: o que é mau, pra mim, pode ser bom pra você.

_____

Esse texto foi originalmente publicado em 24/03/2011. Achei que merecia ser relembrado, agora que o STF parece disposto a decidir sobre a lei de uma vez por todas.

Desnecessário dizer que ratifico tudo o que escrevi outrora.

CategoriasSem categoria

Procurador da República faz defesa esplendorosa das liberdades individuais.

Li com grata satisfação o parecer do Procurador da República Ailton Benedito de Souza no processo movido pela União em face do Twitter. O Estado brasileiro achou por bem solicitar ao serviço de microblog que tirasse do ar alguns perfis contrário à chamada “Lei Seca”, que indicavam, inclusive, os locais onde a polícia montava seus postos de fiscalização.

Pois bem, chegado o momento do Ministério Público Federal se manifestar na condição de fiscal da lei (e, portanto, garantidor da Constituição e da democracia), o Procurador elaborou um verdadeiro libelo em defesa das liberdades individuais! Não se enganem: considerando a tradição brasileira de criar infinitas leis e de ditar normas de comportamento aos cidadãos, o parecer em questão é uma louvável novidade. Transcreverei abaixo apenas alguns trechos (e ousarei fazer, de quando em vez, alguns breves comentários), mas desde já os convido a ler na íntegra o documento. São 29 páginas que deveriam ser estudadas em todas as faculdades do país, para lembrar às pessoas que ou há a supremacia do indivíduo sobre os coletivismo “defendidos” pelo Estado, ou há a barbárie.

_____

(…) Cuida-se de ação civil pública, com pedido de liminar, proposta pela UNIÃO FEDERAL em desfavor do TWITTER, INC e outros, almejando bloqueio de contas do Twitter que difundem informações sobre os locais, dia e horários de blitzes policiais realizadas no Estado de Goiás. (…)

A história da humanidade conforma-se com a história da comunicação. O ser humano é, à medida que se comunica, que adquire conhecimentos dos repositórios antepassados, que os internaliza, que os transmite para os semelhantes das presentes e das futuras gerações. (…)

(…) na atual quadra histórica, a internet se constitui meio, instrumento material da linguagem e, por conseguinte, da maximização da comunicação humana. Apesar disso, entremostra-se a impressão de que a internet evolui mais rápida e inexorável do que poderiam desconfiar os mais otimistas e do que suportariam passivamente os Estados-governos (…) [O grifo é meu. Acho importante notar a observação feita pelo Procurador de que a internet (e sua capacidade de disseminar a comunicação) evolui numa velocidade não suportada pelos governos. É isso! O Estado existe apenas para limitar, por isso a sanha de alguns regimes em controlar a comunicação social. Não há supremacia do Estado se um povo se comunica livremente com agilidade, por isso a grita dos governos contra a internet.]

(…) Pois então, à luz dessas ideias, surge absolutamente irracional, desde a pressuposição de convivência em sociedade aberta, constituída sobre os alicerces de liberdade, que se divise alguma possibilidade de se impedir o livro fluxo de informações pela internet. Tentativas com esse desiderato mostram-se, em regra, não somente inúteis como também contraproducentes. Sobretudo, se o Estado-governo pretender impor tais limitações de forma genérica e abstrata, a fim de inibir a prática de crimes. (…) De ordinário, aquelas autoridades unicamente logram atingir os indivíduos e organizações que, de fato, estão no tráfego lícito de informações, que não se dedicam à criminalidade. (…) [O Procurador constata algo que deveria ser óbvio numa sociedade democrática, mas que no Brasil parece escapar às autoridades: o Estado, com a desculpa de caçar criminosos, tem tolhido liberdades aos cidadãos de bem. É válido lembrar que essa sempre foi uma estratégia típica dos países fascistas, como será mencionado no próprio parecer, a seguir.] (…) Atualmente, realidades mais aproximativas dessas alegorias orvellianas observam-se em países herdeiros do socialismo real: China, Cuba, Coréia do Norte etc. (…) [É isso! Simplesmente irretocável!]

(…) quem controlaria conteúdo das mensagens da internet? Novos censores? Visando tonar efetiva a pretensão, se fosse acolhida, necessitaria ser tão abrangente e profunda, que os “censores” precisariam vasculhar o conteúdo de todas aquelas redes sociais enumeradas alhures e infinitas outras, as mensagens do Twitter, todos os e-mails, todos os SMSs, BBMs, Facebook etc. Não seria desarrazoado entrever a possibilidade de o Estado-governo, buscando expandir-se, indefinidamente, em detrimento da sociedade, utilizar-se-ia de subterfúgios argumentativos lastreados na necessidade de segurança pública, para, de fato, conformar a internet à vontade pessoal/filosófica/política/ideológica dos poderosos ocasional, presumivelmente alegando ser imperativo coibir-se alguma prática nefasta, a exemplo dos precedentes de pornografia infantil. (…) [Perfeito! Ao condescender com a violação de uma liberdade individual concreta em nome de figuras abstratas como "segurança pública", "ordem social" e "interesse coletivo", estar-se-ia abrindo a porta do inferno totalitário! Uma vez concedida ao Estado-governo a espada da censura, como poderiam os indivíduos evitar a própria aniquilação?]

_____

Como dito ao início, há muito mais informações na íntegra do parecer. Leiam-no! A peça traz desde informações históricas ricas em detalhes (sobre a origem e natureza da própria internet), até construções lógicas fundamentadas no direito comparado. Trata-se de uma verdadeira aula de direitos e garantias próprias do regime de liberdades democráticas, como tradicionalmente não se vê nas universidades brasileiras. Folgo em saber que o Brasil pode contar com homens públicos conhecedores da necessidade imperativa de defender o indivíduo livre da sanha totalitária que caracteriza todo Estado.

Seria bom para a democracia brasileira se a justiça eleitoral, sempre ávida por tolher liberdades individuais concretas em nome de coisas genéricas intangíveis como “o equilíbrio do pleito”, aprendesse algo com as colocações do Procurador Benedito de Souza. Não deixa de ser kafkiano que o órgão judiciário teoricamente responsável por garantir a democracia e a vontade dos indivíduos, seja o primeiro a avançar contra as manifestações livres destes. Não se pode tolerar que, em nome de “proteger candidatos”, cidadãos sejam impedidos de se expressão em toda a sua plenitude, comentando, criticando e satirizando. Isso é inverter a essência do regime democrático e bater às portas do inferno totalitário.

_____

O Procurador Ailton Benedito de Souza também tem conta no Twitter.

O caso de Eloá e a inversão de valores morais.

O drama vivenciado por todo o país a partir das imagens feitas da porta do edifício em que residia a menina Eloá, em Santo Andre, tem uma infinidade de espectos e desdobramentos. A sociedade e o Estado devem, por exemplo, discutir pela enésima vez o treinamento e o aparelhamento de nossa polícia procurando entender que motivos levam o aparelho de segurança pública a falhar de forma tão clamorosa. Isso é o esperado. É o óbvio. Mas há outros pontos a serem encarados tão ou mais importantes.

A falha determinante do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) foi permitir que Nayara, depois de libertada pelo seqüestrador, retornasse ao local da crise. Nunca na história se viu a polícia devolvendo um refém ao bandido. Isso é escandaloso, vexatório e indesculpável. Há que ser apurado tal procedimento a fim de encontrar os culpados pela decisão criminosa e responsabilizá-los nos termos da lei.

De outra parte, não consigo ver falhas da polícia no que tange à invasão da casa de Eloá, ou à abordagem feita para conter o seqüestrador, depois. Não sou policial, mas suponho que a decisão de entrar em um ambiente hostil onde há um bandido armado e duas reféns não seja nada fácil, pelo contrário. A equipe encarregada deve ter se debruçado horas sobre as possibilidades a fim de encontrar a melhor solução e, ao que consta, concluiu que o caminho adequado seria o da invasão. Quanto à abordagem feita para dominar Lindemberg, devo dizer que tentei, mas não logrei encontrar os tão denunciados excessos da força policial. As imagens deixam claro que o seqüestrador não estava rendido e inerte quando de sua prisão, mas resistente e agressivo. Ora, como podemos – a sociedade e a imprensa – julgar de que forma o aparelho de segurança do Estado deveria conter e imobilizar o sujeito no meio de uma situação de crise? Não podemos.

A planta da casa da menina Eloá deixa evidente que qualquer tentativa de invasão seria difícil e arriscada. Não se estava falando de uma casa ampla de um andar e com “n” cômodos. O que havia ali era um apartamento pequeno e inteiramente sob controle do elemento hostil. Entrar ali e prender Lindemberg sem disparar um tiro e ferir ninguém, convenhamos, era tarefa das mais improváveis. É óbvio que com treinamento mais específico e recursos logísticos mais apurados a polícia talvez tivesse conseguido evitar a morte de Eloá, indiscutível fim trágico do episódio. Mas isso é lugar comum próprio de quem prefere repetir o que é elementar a fim de escapar do que é importante. Mais treinamento e mais equipamentos são sempre bem vindos. E isso no Brasil, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Também é errada a posição de certa mídia nacional – coadjuvada pelos especialistas da desgraça alheia – que vem indagar sobre o porquê de não se ter usado um atirador de elite para eliminar Lindemberg. Não parece difícil defender tal hipótese agora que os fatos já se consumaram da pior maneira possível, isto é, com a morte de um refém. Todavia, queremos mesmo crer que a opinião pública não se assanharia para cobrar a polícia, caso tivessem optado pela morte do “jovem Lindemberg”? Aquele mesmo que, ainda hoje, é tratado apenas como um romântico extremista sem antecedentes e vítima de sua própria paixão. Não me iludo. O pensamento politicamente correto trataria de enfatizar apenas que a polícia brasileira, “violenta, brutal e, quiçá, despreparada”, decidiu tirar a vida de um “garoto”. Isso para não dizer o que aconteceria se, por um erro de cálculo, a bala fatal viesse a errar o alvo. O mundo desabaria sobre a cabeça de todos os envolvidos na operação.

Tudo o que vai acima serve para mostrar que os teóricos do “SE” estarão sempre certos, não importa o que aconteça. Grande parte da opinião pública brasileira não está interessada em analisar os fatos de forma lúcida e técnica, prefere dar asas à especulação barata que serve apenas para desinformar a sociedade acerca do que é real. Por exemplo: pouca gente sabe que essa mesma polícia do caso Eloá – a “despreparada, violenta e incompetende” – é a melhor do Brasil. Sim, isso mesmo, do Brasil! E não me refiro apenas ao GATE, mas ao aparelho de segurança do Estado como um todo. Em São Paulo mate-se proporcionalmente muito menos gente do que em qualquer outro estado do Brasil. A polícia de elite paulista atuou em uma infinidade de situações de crise, inclusive com reféns, tendo sucesso na esmagadora maioria das vezes. O problema é que isso não vira notícia. O que vira são “os ônibus 174″ e “os seqüestros de Eloás”.

Há, no meu entender, dois pontos fundamentais que estão sendo deixados excessivamente à margem das discussões sobre o caso trágico de Santo André: 1) O pensamento politicamente correto que prima por vitimizar os bandidos por meio de uma sociologia rastaqüera, que atribui todo crime às desigualdades sociais; e 2) Os valores deturpados e questionáveis de uma grande parcela da sociedade brasileira, em especial dos mais jovens.

Há uma certa dificuldade, uma espécie de bloqueio ideológico quase que imperceptível, que parece proibir a opinião pública – com raras e honrosas exceções – de dizer o óbvio: o principal culpado da tragédia de Santo André tem nome: Lindemberg. Em vez de apontar isso, já se tentou encontrar uma infinidade de teorias que levem a uma direção diferente. Culpou-se a polícia, o PSDB e o governador José Serra, as desigualdades sociais do país e até mesmo as tais “elites que governam o Brasil há mais de 500 anos…” Tal pensamento sustenta a idéia pedestre de que Lindemberg não seria um bandido por si só, mas um produto do meio desigual em que sempre viveu. Quem acompanhou os dias terríveis de cativeiro foi confrontado com pareceres emitidos por um sem número de estudiosos, todos sustentando que seria imprescindível analisar que fatores conjunturais teriam levado o jovem a cometer o crime que era transmitido ao vivo. A idéia é sempre criar um álibi para o bandido, atriuindo os crimes a uma falha que possa ser imputada a toda a sociedade. Às favas com essa conversa! Eu não sou obrigado a carregar qualquer culpa pelos atos criminosos do bandido Lindemberg!

Considero que há um questionamento ainda mais importante a ser feito: que valores familiares e morais permitem que se ache normal o relacionamento amoroso entre uma menina de 15 anos e um homem de 22? Vou além: Eloá e Lindemberg namoraram durante três anos, antes do rompimento. Isso quer dizer que a menina tinha apenas 12 anos, ou seja, era uma criança! Apesar disso, começou e manteve um romance com um homem de 19. Estamos falando de pessoas com idéias, desejos e necessidades completamente diferentes. Claro que o relacionamento, de per si, não estava fadado ao fracasso. Mas temos de convir que não havia ali bons auspícios…

Sim, serei um tanto antiquado, mas não considero normal e aceitável que uma criança mantenha um relacionamento amoroso com um homem. Se isso é ser ortodoxo e conservador, não há problema: eu sou. E, como bom ortodoxo, chamo assassino de assassino. Justificar o crime com uma sociologia terceiro-mundista que abraça a retórica da operssão social é, na melhor das hipóteses, errado. Na pior, contribui para que novos Lindembergs surjam e cometam crimes sob o manto das justificativas deontológicas para o mal óbvio e indiscutível.

_____

P.S.: Este texto foi originalmente publicado em 20 de outubro de 2008 (sim, mais de três anos atrás!), mas creio que continue muito atual.

Aborto: a questão essencial que ninguém quer discutir.

Sempre que o debate sobre a legalização do aborto volta à tona, quase todas as questões ligadas ao tema são exaustivamente discutidas. Fala-se da liberdade da mulher em dispor do próprio corpo, do direito à vida, do drama de quem recorre a clínicas clandestinas, de conceitos científicos e religiosos, do que pensam as feministas, os evangélicos, os progressistas, os conservadores, a Globo e o Vitor Fasano. Fala-se, como dito alhures, de quase tudo. A meu ver, porém, a questão mais importante é deliberadamente negligenciada – afastada da mesa -, porque demasiado incômoda. Bem, eu a proponho aqui, pois a considero condição sine qua non para que qualquer discussão acerca do aborto possa ser iniciada: como diferenciar aquilo de um assassinato?

Sim, eu sei que neste ponto do texto já ficou claro o que penso sobre o assunto. Não tem problema nenhum: nunca escondi que sou contra a legalização do aborto pelo simples motivo de que não encontro resposta para a questão posta acima. Minha mente ortodoxa, conservadora e obscurantista simplesmente não consegue diferenciar um aborto de um tradicional homicídio. O problema pode ser comigo, admito… Sou um ser humano falho; imperfeito. Talvez por isso tenha ainda mais ressalvas quando o tema é determinar o fim de uma outra vida.

Diferente de Eleonora Menicucci, nova ministra nomeada por Dilma, não acho que o aborto seja uma questão de saúde pública equiparável às doenças infecto-contagiosas ou à dengue. Até que me provem o contrário, aquilo que cresce e se desenvolve no útero de uma mulher é um ser humano, exatamente igual a você e a mim. Peço que os iluministas me desculpem, mas não consigo dezumanizar os fetos a ponto de condescender com o assassinato deliberado deles.

E, se não se trata de assassinato, espero que me seja demonstrado por quê. Em minha pequenez humana, não me avoco o direito de determinar quando uma outra vida deve iniciar e terminar. Sendo assim, não tenho como admitir a legalização do aborto em qualquer tempo da gestação. Sei que algumas correntes científicas falam que a vida só começa na terceira semana. Outras falam que é apenas depois do primeiro mês. E são justamente esses argumentos científicos, ilustrados, que invoco em defesa de minhas convicções ortodoxas: se os vários grupos científicos não conseguem determinar quando começa a vida, como eu poderia fazê-lo?!

Posto isso, retorna-se sempre àquela questão inicial: se o feto objeto de um aborto é vida (ou se é impossível descartar com 100% de certeza que o seja), como diferenciar isso de um homicídio puro e simples? Eu sei que colocar a questão assim, de forma direta, causa incômodo. Já fui acusado de “apelar” mais de uma vez por pedir que algum interlocutor defensor da legalização do aborto respondesse aquela pergunta. Mas eu o faço apenas por um imperativo moral insuperável: se considerarmos todos que cada vida vale exatamente o mesmo, como reivindicar o direito de deliberadamente interromper uma?

Ora, é evidente que conheço os problemas decorrentes dos abortos realizados em clínicas precárias, que terminam por mutilar e matar mulheres. E, sim! Acho que algo precisa ser feito, pois essa situação não pode ir adiante. O que não aceito é que se apresente como única solução a legalização do direito de colocar um fim a outra vida. Quando me digo contrário à legalização do aborto, ouço dos meus amigos progressistas que sou “muito antiquado” e que “o mundo evoluiu”. Bem, não me é lícito exigir que esse tal mundo mais evoluído procure soluções que passem ao largo do homicídio puro e simples? No mais, não deixa de ser irônico ser chamado de retrógrado e obscurantista por defender com instransigência o direito à vida… Prefiro isso ao moderno humanismo baseado na curetagem.

De resto, como funcionaria na prática a regulamentação do direito ao aborto? Afinal, uma vez legalizado, ele deveria ser oferecido pelo SUS, não? Bem, conhecendo o país em que vivemos como conhecemos, imaginem aí: a mulher engravida, procura o posto de saúde, agenda uma consulta, aguarda uns meses, vai à tal consulta, agenda o aborto, aguarda mais alguns meses na fila e, enfim, chega à mesa de cirurgia. Com quantos meses de gravidez? Até quando será permitido recorrer à – como chamaremos? – “solução”? O sistema público de saúde dará conta do serviço?

“Ah, mas essas são outras questões!” Bem, são questões que precisam ser feitas, não? Afinal, não adianta apenas querer discutir o aborto em tese, mas legalizá-lo na prática pra depois “ver como vai ser”. Bom, pelo menos eu – careta, conservador, etc… – acho temerário algo assim…

Não, meus caros! A verdade pura e simples é que há questões importantes demais que ainda precisam ser respondidas e a principal delas – gostem ou não os defensores da legalização – é exatamente a que foi posta no início deste texto: como é possível diferenciar o aborto de um assassinato? Sem responder a isso, entra-se no debate admitindo, a priori, que determinadas vidas humanas podem ser interrompidas com base em conceitos genéricos e abstratos.

Sendo assim, desculpem meu conservadorismo, mas não consigo deixar de achar estranho um mundo onde defender a preservação da floresta amazônica seja considerado progressista, mas defender a vida humana seja obscurantismo. Vai ver o problema é comigo… Talvez eu seja obtuso demais ao negar mais uma chance ao argumento de quem insiste em não dar chance nenhuma a uma vida humana indefesa.

 

Receitinha #3: risoto de gorgonzola, nozes e pêra.

Amigos queridos, preparem-se para abandonar definitivamente a mendicância e adentrar a vida da fidalguia! Vi essa receita num programa do Jamie Oliver, mas não tem nenhum segredo: ela consta nos cardápios dos melhores restaurantes – inclusive aqui neste Brasilzão. Peço especial atenção dos mancebos solteiros que frequentam este nobre espaço internético: convidem uma moça para jantar e preparem esta receita, que a noite terminará com ela implorando para ficar até mais tarde a fim de REFESTELAR O COLIBRI! Em verdade eu vos digo: mulher adora homem que manda bem na cozinha.

Agora, se você é um ex-presidiário, beneficiário da Bolsa-Família e/ou android user, que “não gosta de gorgonzola” porque “o queijo tá mofado”, suma para sempre deste blog e vá comer carne em conserva com ovo debaixo da ponte onde se encontram os trapos que você chama de roupas.

Feitos os avisos preliminares, ao trabalho!

INGREDIENTES

- Oito “punhados” de arroz arbóreo (cada um tem um jeito de medir a quantidade. Eu uso o tal “punhado”, que é uma mão quase cheia. Calculo dois desses pra cada comensal).

- Quatro nozes.

- Meia cebola.

- Quatro colheres de sopa de queijo gorgonzola.

- Uma pêra.

- Uma colher de sopa de margarina.

- Pimenta do reino.

- Dois tabletes de caldo de galinha (ou de legumes. Vai do gosto…).

- Um pouquinho de vinho branco seco (se quiserem…).

PREPARO

Coloquem cerca de um litro de água numa panela e levem ao fogo. Enquanto esperamos que ela ferva, hora de picar as nozes até que fiquem apenas pedacinhos bem pequenos. Em seguida, cortem a pêra em cubinhos – não muito grandes, para que o gosto adocicado da pêra não se destaque demais, nem muito pequenos, para que ela não dissolva quando for levada à panela. Por fim, cortem a cebola (em cubinhos, também) e joguem os dois tabletes de caldo na panela de água que foi levada ao fogo lá no começo.

Agora, numa outra panela, taquem aquele fio de azeite clássico e, quando ele estiver bem quente, acrescentem a cebola picada, mexendo até que fique meio translúcida. Não sabem o que é translúcida? Consultem um dicionário agora e só voltem depois que souberem!

Em seguida, acrescentem o arroz mexendo sem parar, até que ele fique todo impregnado pelo azeite e pela cebola. Se quiserem acrescentar o vinho branco, a hora é essa! Joguem a beberagem na panela e mexam com vontade, até que o vinho evapore. Atenção: o vinho dá um toque legal e aumenta exponencialmente os níveis de fidalguia do prato, mas não é indispensável. Se não quiserem usar, não tem drama. Aliás, uma pequena observação: se for pra usar vinho vagabundo, melhor nem usar nada!

Bom, quando o vinho tiver evaporado e o arroz estiver seco, comecem a acrescentar uma concha do caldo que está fervendo na panela ao lado. Esse é um processo muito importante e deve ser feito com cuidado, dedicação e paciência! É preciso acrescentar uma concha de caldo por vez e continuar mexendo a mistura, para garantir que a “integridade física” do risoto seja preservada. Vocês colocam uma conhca do caldo, mexem até que ela tenha evaporado quase toda, aí acrescentam outra. E assim por diante, até que o risoto esteja quase pronto.

“Mas como eu sei que o risoto vai estar quase pronto, tio?” Bom, o ponto do risoto é o chamado al dente, que é quando ele já está cozido, mas ainda meio durinho (ceis vão entender quando provarem, vão por mim). Pois bem, um pouco antes desse ponto perfeito chegar, acrescentem o queijo gorgonzola, sempre mexendo bastante para ajudá-lo a derreter rápido e por completo. Em seguida, acrescentem também os cubinhos de pêra e as nozes.

Então, taquem a margarina por cima de tudo, tampem a panela, desliguem o fogo e deixem lá por uns cinco minutinhos. E pronto! Está preparada uma refeição do mais alto garbo e elegância.

Usei uma noz e um naco de pêra pra decorar.

FORMIDÁVEL!

Lógico que farei um quadro dessa imagem!

Textículos #11

O petista Jaques Wagner, que hoje pena com uma greve – absurda e violentíssima, que há muito já descambou para a bandidagem -, na Bahia, afirmou, no já longínquo ano de 1991 da graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o que segue:

Em primeiro lugar solidarizo-me com nossos conterrâneos da Polícia Militar do Estado da Bahia, que há aproximadamente dez dias vêm se movimentando juntamente com seus familiares, particularmente as esposas, numa justa reivindicação por melhorias salariais. Infelizmente, a impermeabilidade do Governador do Estado fez com que o Comando da Polícia Militar punisse cerca de 110 militares.

É, amigos… Eram outros tempos, em que a Bahia era governada por ACM, usado pelos petistas como encarnação de Belzebu na Terra. Evidente que hoje ele não se solidariza com os grevistas, nem acha justas as reivindicações deles, não é mesmo?

Não! Eu não estou condescendendo com a bandidagem e o terrorismo que o comando de greve da PM/BA tem produzido em Salvador. Acho que a greve é ilegal e os responsáveis precisam ser caçados e punidos de forma exemplar! Servidor público fazendo greve já é uma vergonha pra espécie humana. Servidor público armado fazendo greve (e constrangendo abertamente a população, como está ocorrendo na Bahia) é ato de terrorismo!

Mas é muito divertido ver o PT provando do próprio veneno. Ah, isso é!

_____ _____ _____ _____ _____

Para os que ainda acham que exagero ao chamar a greve da PM na Bahia de terrorismo, sugiro a leitura disso: “Grevistas utilizam crianças como escudo humano na Bahia”.

_____ _____ _____ _____ _____

Aliás, bem lembrado lá na Flanela Paulistana: vai ser só a PM/SP resolver entrar em greve também, em apoio aos amiguinhos da Bahia, que rapidamente os petistas passarão de revoltados a defensores “de uma categoria oprimidade pela política nazifascista da administração Alckmin”

_____ _____ _____ _____ _____

E o PT privatizando aeroportos, heim? Quem diria… Bem, eu diria…

Sério, estava muito evidente que a dona Dilma faria isso, né? Pessoalmente, concordo com a idéia: sou um liberal, como vocês estão cansados de saber. Por mim, privatizava-se tudo (exceção feita ao aparelho de segurança pública e às Forças Armadas)! Assim, não há qualquer incoerência de minha parte em aplaudir a idéia de privatizar aeroportos, que, convenhamos, não têm por que estar sob controle do Estado.

Quem deve estar precisando fazer análise é o pessoal do PT, que passou a vida toda criticando as privatizações… Não deve ser fácil acordar e precisar fazer contorcionismo retórico e moral a fim de defender o governo.

Contudo, cabe registrar que a forma de privatização escolhida pelo PT é ridícula! Aliás, nem se pode chamar de privatização aquilo que nada mais é do que uma mera troca de monopólios. Isso pra não mencionar o ágio absurdo que se verificou nas negociações (ou erraram os preços antes, ou há sobrevalorização indevida depois…), e o fato de que o BNDES vai financiar 80% das privatizações. Amigo, iniciativa privada feita à base de grana pública, sem assumir nenhum risco? Ô, coisa linda essa privatização à brasileira! Até eu!

_____ _____ _____ _____ _____

Dilma escolheu hoje Eleonora Menicucci para o cargo de Secretária de Política para Mulheres. Ao falar sobre o aborto, essa senhora afirmou:

O aborto, como sanitarista, tenho que dizer, ele é uma questão de saúde pública, não é uma questão ideológica. Como o crack, as drogas, a dengue, o HIV, todas as doenças infecto-contagiosas.

Pois é, devo mesmo ser um conservador careta… Afinal, por mais que me esforce, não consigo tratar o aborto como “todas as doenças infecto-contagiosas”. Sei lá, acho que uma vida não é como um parasita, que precisa ser eliminado.

Mas eu não passo de um reacionário direitista, né? Gente boa mesmo são os humanistas da esquerda, como a dona Eleonora. São eles que se dedicam a estudar o tal “outro mundo possível”, onde coisas abstratas como “o povo” e “a sociedade civil” viverão de mãos dadas, caminhando e cantando e seguindo a canção. Eu, egoísta que sou, me ocupo apenas dos indivíduos – inclusive aqueles que ainda nem nasceram…

Frustrado

Meu filho está numa fase em que não consegue ficar quieto mais de dois minutos. Pula pela casa toda, escala todo e qualquer objeto – e toda e qualquer pessoa. Não mais anda: apenas corre.

O que desencadeou isso foi a paixão dele pelo Buzz Lightyear, do desenho Toy Story. Ele imita tudo que o personagem faz, desde o laser que sai ameaçadoramente do braço, até o desejo de voar (!!!) pela casa. E tome menino gritando “Ao infinito e além!” e pulando so sofá, da cama, das cadeiras… E – claro! – alternando pousos perfeitos com as inevitáveis quedas. Muitas quedas…

E lá vamos nós, pais desesperados, correr pra geladeira em busca daqueles mágicos cubos de gelo, a fim de amenizar a dor das pancadas e evitar o sugimento dos famosos galos. E aproveitamos aqueles poucos momentos de quietude para elencar as clássicas razões pelas quais ele deveria “ficar mais comportado”, “parar de pular das coisas” e “ser mais quietinho”. Evidente que trinta segundos depois de iniciado o sermão ele já se revira todo, tentando fugir do colo paterno e louco pra “voar de novo”. E não adianta argumentar logicamente, claro:

- Meu filho, você não é o Buzz. Você é um menino.

- EU SOU BUZZ LAITITO [Sim, o inglês dele ainda é precário...] E POSSO VOAR POR ESTE QUARTO TODO!

Acreditem: é bem complicado trazer à razão uma criança que quer voar

O jeito é ficar repetindo o tempo todo pra ele ter cuidado, não subir mais aí, descer já de lá… Tudo isso com aquela sensação de que nada vai adiantar, afinal ele é um “patrulheiro espacial”. Maldita Pixar!

Até que, na hora de descer do carro, ele fala: “Me segura, papai. Eu quero voar!” Então eu vislumbro a oportunidade de atuar como pai, me encho de razão adulta e digo: “Não, meu filho. Você não pode voar. Você vem aqui no colo do papai, como um menino. Você não é o Buzz!”

E ele fecha os olhos, entristece o semblante e se deixa pegar, vencido.

- Você tá triste, meu bem? – Eu pergunto.

- Não. frustrado.

Sim, ele disse mesmo isso! Com três (TRÊS!) anos recém completados – idade em que ainda lhe é permitido ignorar a lógica de coisas aborrecidas como a Lei da Gravidade -, ele estava lá, “frustrado” porque eu não deixei ele voar.

E você se descobre subitamente confuso: serei um pai atento e cuidadoso, por evitar que ele se coloque em perigo? Ou um adulto sem coração, que proíbe um menino de voar?

Ficamos combinados assim, então: pular e “voar” pro colo do papai, pode. Melhor flexibilizar um pouco essas regras, do que ter em casa uma pessoínha de três anos lidando com os fantasmas da frustração…

_____

P.S.1: Esse negócio de ser pai não é fácil!

P.S.2: Ninguém disse que seria fácil…

P.S.3: Onde raios ele aprendeu a palavra “frustrado”? E, o que é mais intrigante: onde aprendeu o significado dela?!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.502 other followers