>Política, religião e futebol não se discutem.

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Nunca concordei com a frase acima. Sempre achei que tudo deve ser discutido, afinal o debate é sempre proveitoso e proporciona, via de regra, o enriquecimento da inteligência. Mas com o passar dos anos e o amadurecimento natural, algumas coisas mudam. Passei a concordar, em parte, com a tal frase.

Hoje acho que política e religião não deve ser discutidas, em família. Futebol, por sua vez, é tema livre. Pode até surgir uma ou duas briguinhas em razão do esporte bretão, mas dificilmente alguém sairá magoado, ferido, ridicularizado. É coisa pouca.

Já a política e a religião são coisas mais sérias (e é justo que seja assim). Aquela, de uma só vez, envolve o sentimento e a razão da pessoa. Esta, por seu turno, cuida da fé, do espírito, daquilo que chega a ser mesmo imaterial.

Um católico que escolheu acreditar na ressurreição do Cristo não pode ser atacado por um ateu e ridicularizado por sua crença. Se os dois travarem um debate sobre suas convicções de fé, estarão criando uma discussão interminável e improdutiva, afinal um jamais se dobrará ao outro. O mesmo ocorre quando um católico tenta convencer um protestante a adorar a Virgem Maria. Haverá apenas um acalorado e insolúvel problema entre os contendores.

Na questão política a coisa é mais – como direi? – light. Porém iniciar um debate acerca das convicções políticas e ideológicas de cada um é sempre como acender um fósforo dentro e um paiol: o risco de uma explosão é mais do que palpável.

Imagine-se, agora, essas discussões travadas no seio familiar. Estou convencido que o resultado é muito mais prejudicial que benéfico para os envolvidos. Em verdade, acredito que seja mais fácil se debater religião e política com os amigos, colegas de trabalho, ou mesmo com desconhecidos, do que entre membros de uma mesma família.

Entre irmãos é difícil – se não impossível – que um dê razão ao outro em matérias controversas. Penso que o clima natural de disputa que existe entre estas pessoas explique um pouco essa situação. Vou além. Apesar de não ter formação na área de psicologia arrisco uma análise um tanto mais apurada do caso. Se um irmão é de direita e o outro de esquerda, muito provavelmente houve, em algum lugar do passado, um evento que marcou os dois e criou tal divisão, apenas refletida em suas preferências político-ideológicas. A se dar razão ao senhor Freud, esta seria a explicação mais lógica. Já Nietzsche, por sua vez, diria que diferenças acentuadas de posições políticas entre irmãos seria resultado do desejo permanente de um vencer – ou se declarar melhor – que o outro. Assim, o irmão mais novo se tornaria facilmente um direitista radical ao constatar que este é o contraponto ao mais velho, esquerdista.

Repito: estou apenas a tecer conjecturas. Como disse, sei de psicologia aquilo que li nos clássicos – e nem foram muitos assim. Aceito – como sempre, aliás – todas as críticas que forem feitas a respeito. Adiante.

Entre pais e filhos (e o mesmo vale para os demais graus de parentesco que relacionam ascendentes e descendentes, tais como tios e sobrinhos, avós e netos, etc.) a situação é ainda mais delicada.

Como os filhos foram criados e educados pelos pais, são os valores destes que aqueles recebem desde a mais tenra infância. E isso vale para todas as esferas: religião, educação, política, artes, esportes, dentre outras. Se um pai é direitista e conservador, a tendência é que tente repassar aos filhos suas convicções e crenças, inclusive político-ideológicas. O mesmo, é obvio, acontece quando os pais são esquerdistas. Neste contexto, é fácil imaginar a tensão que se cria quando o filho não se espelha nos ideais de seus pais e resolve seguir uma matiz de pensamento político – e/ou religioso – diverso ou mesmo oposto. Entendo que não há maneira de um debate de idéias ser bem sucedido. Alguém sempre sairá machucado ou então renunciará a defender suas convicções para evitar o desgaste das relações familiares e afetivas.

Mas por que em uma discussão política travada no seio familiar as pessoas saem magoadas e tristes e entre amigos, colegas de trabalho ou desconhecidos, não? Note-se bem: minha teoria não é um pensamento matemático infalível. Não estou aqui defendendo uma regra plena e imutável, longe disso. As relações humanas são efêmeras e variam de pessoa para pessoa e de família para família.

A diferença que vejo reside exatamente nos laços afetivos mais profundos que unem os membros de uma família, mais robustos, via de regra, que os criados entre amigos ou conhecidos. Em um debate sobre política travado em família, por exemplo, um dos pais poderá facilmente levar a discussão para o lado do “essa não foi a educação que eu te dei”, ou ainda, “isso que você diz me magoa muito”. E por quê? Apenas porque uns criticam Hugo Chávez e seu projeto de tirania, enquanto outros defendem aquele regime como sendo exemplo de justiça social, liberdades individuais e democracia direta. Em uma discussão entre amigos ninguém perguntará ao outro sobre a educação que recebeu desde a infância. E é este o certo, afinal uma discussão política deve ser tratada como tal, não como uma análise pregressa sobre a educação familiar.

Meu ponto é que a relação custo-benefício de uma discussão sobre religião e/ou política dentro da família é muito baixa. O desgaste criado e os sentimentos feridos serão, no mais das vezes, maiores que quaisquer benefícios que poderiam advir do debate de idéias. Em família, por exemplo, os pais se perderão do eixo central tentando entender “onde foi que erraram na educação dos filhos”. Estes, por sua vez, deixarão de lado a objetividade de suas convicções a fim de evitar – ou ao menos minimizar – os danos causados por um enfrentamento típico de um confronto de idéias e ideais.

A hipótese de um dos lados se calar e deixar de defender suas convicções político-ideológicas e religiosas a fim de evitar o conflito pode parecer mais lúcida, mas é, sem dúvida, igualmente dolorosa. O ser humano não deve ser obrigado a renunciar às suas crenças em nenhuma situação, sob pena de pagar um preço alto no seu íntimo.

Assim, convenço-me a cada dia que o mais apropriado é mesmo evitar que o tema seja iniciado. Manter a polêmica sobre religião e política da vez o mais longe possível da “mesa” ao redor da qual a família esteja reunida. Mesmo porque, uma vez iniciada a discussão, não há caminho de volta.

É claro que escrevo baseando-me no que conheço da minha família e daquelas com que convivo. Não excluo que possam haver famílias onde o debate se desenvolva de maneira inteiramente sadia e sem nenhum efeito colateral. Mas duvido que seja possível. Em minha família as divergências político-ideológicas são consideráveis e – creio eu – intransponíveis. Poderia discorrer mais a fundo a respeito, mas não creio que seria justo com eles. Estou abdicando (tentando, ao menos, pois não é fácil) de travar discussões no seio familiar a fim de poupar a parte afetiva e sentimental, logo não é justo que use este espaço para fazê-lo.

Ademais, já cansei em demasiado a todos.

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