>Entrevista com Fernando Gouveia, o Gravataí Merengue

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Fernando Gouveia, o Gravata, é um blogueiro inteligente, irreverente e provocador. Seu estilo forte e um tanto sarcástico provoca a revolta de alguns e a admiração de outros. Foi assim que se destacou no universo virtual através dos sites Imprensa Marrom e Gravataí Merengue. No primeiro, Gouveia se dedica mais a assuntos políticos e filosóficos. No segundo abre espaço para assuntos mais triviais e diversificados do cotidiano. Pode-se, portanto, dizer que aquele é mais sério, ao passo que este é mais informal. Ou será o contrário?…

1 – Primeiro quero parabenizar pelo sucessos dos sites, ambos muito visitados e comentados na rede. Pra começar, me diga de onde surgiu esse apelido Gravata – ou Gravataí Merengue.
Gravata é uma corruptela de Gravataí (que vem de Gravataí Merengue). E Gravataí Merengue foi criado, juro, a partir do nada e era para ser trocado. Criei na pressa, sem pensar em coisa alguma, veio na cabeça, assim do nada, mesmo. Foi para escrever as colunas de humor do jornalzinho da faculdade – como assinava os editoriais e textos de política com meu nome, não queria misturar as coisas. Obviamente, tudo deu errado e aí sim é que misturaram tudo. A coluna de humor, que era para ser coletiva, acabou sendo apenas minha. E deu nisso.
2 – Em qual dos dois sites – Imprensa Marrom e Gravataí Merengue – você se diverte mais?
Gravataí Merengue, claro! Ali é só piada. No Imprensa Marrom eu tento transformar escândalos em algo leve para o leitor, mas apenas na forma, não alivio no conteúdo. Eu quero que o conteúdo chegue na íntegra. Então é pesado. E é triste, claro.
3 – Como surgiu a idéia de começar a carreira de blogueiro? E o sucesso, quando (e como) chegou?
Quando comecei com blogs, não existia a palavra blogueiro. Juro. Hoje é que dizem isso. E nunca foi nem nunca será, para mim, uma “carreira”. Quanto ao sucesso, olha, ainda não chegou.
4 – Além de ser o blogueiro Gravata, o que Fernando Gouveia faz da vida?
Sou advogado e, atualmente, trabalho com assessor político. Isso causa a ira de alguns petistas. Os mesmos que acham o mensalão normal e consideram perfeitamente razoável o governo federal chancelar um negócio que beneficia a empresa que deu milhões ao lulinha, enfim, não toleram eu trabalhar com política.
5 – Lendo seus textos – em especial aqueles publicados no Imprensa Marrom – percebi que você tece constantes – e ácidas – críticas ao petismo, caracterizando-o, inclusive, como uma espécie de religião. Todavia, ao menos segundo minha percepção (e corrija-me se eu estiver errado), isso não significa que você abrace qualquer um dos partidos que fazem oposição ao atual governo. Como você se define dentro do espectro político-ideológico?
Atualmente, o PT está no governo federal. Já fiz críticas ácidas também a FHC e isso eles, os petistas, não levam em consideração. Quanto ao espectro político ideológico, eu não me defino, ao menos no Brasil. Porque aqui ainda há muro de Berlim, ainda se fala abertamente em Socialismo, ainda se fala nisso tudo. Então é complicado. Como posso dizer “sou de esquerda” se o outro sujeito que se diz “de esquerda” acredita piamente na ditadura do proletariado? Mas também não sou da “direita” que ele coloca como antagonista do esquerdismo por ele pregado, que seria uma espécie de fascismo. Eu acredito, sim, numa pequena regulação, pelo Estado, de setores da economia, e não acho que aspectos morais e religiosos devam ter importância alguma a ponto de merecer leis, feriados ou coisas do tipo. Acredito que gays e negros e qualquer outro tipo de cidadão que sempre foi massacrado ideológica ou literalmente mereça todos os direitos que todos têm. O que é isso? Esquerda? Direita?
6 – No caso específico da eleição paulistana, notei que em alguns textos mais antigos você se mostrou um tanto cético quando às chances de eleição do prefeito Gilberto Kassab. Depois, contudo, ficou evidente que você torcia por ele (ou contra a Marta?) no pleito – inclusive tendo criado o Blogueiros por Kassab. O que mudou? O prefeito conquistou você? Ou foi apenas algo tático, para derrotar a Marta?
Bom, eu sou solteiro e sem filhos, o que você quer dizer com isso da consquista? 😀 Não tem nada de algo tático. Em primeiro lguar, é claro que ninguém quis reconduzir Marta porque ela fez uma prefeitura ruim. Havia pontos positivos, sim, mas no todo era ruim. Tanto que seus principais apoiadores da blogosfera moram bem longe de Sâo Paulo. Um no Ceará, outro em Campinas, outro no Rio Grande do Sul e assim por diante. Aí é fácil “achar legal”. Quero ver morar aqui e gostar da Marta. A gestão do Kassab é aprovada, isso não é algo forjado. E ele não é um “poste” como dizem. É um bom gestor, sim.
7 – Você se manifestou favorável à candidatura do Fernando Gabeira, no Rio. Pessoalmente, também queria vê-lo eleito e acho que uma das coisas que pode tê-lo prejudicado foi a adoção exagerada do viés antipolítico. Explico: Gabeira bateu muito na tecla da “ruptura com a política tradicional”, sustentando que governaria apenas segundo seu programa e sem formalizar alianças administrativas partidárias. Esse pensamento conquista você? Acha possível se construir uma governabilidade exclusivamente técnica, sem os partidos da base?
Eu acho. Acho perfeitamente possível. Essa conversa de que não dá para governar sem aliança é mentira. Dá sim. E se o preço a ser pago é cair, ora, que caia. Eu prefiro cair sem mutreta do que me manter roubando. Ou você acha que Lula fez a escolha certa ao adotar o Mensalão?
8 – Só para entrar na questão da moda, você escolheria Barack Obama ou John McCain?
Barack Obama. Muito mais elegante e de acordo com as tendências de Paris, Milão e afins.
9 – Mas não vê nele traços um tanto messiânicos e salvacionistas? Guardadas as devidas proporções ele não parece um pouco o Lula de lá? Vive falando na “esperança vencendo o medo”, na “vitória dos pobres sobre as elites”. Cheguei até a ouví-lo dizer que, depois das eleições, “o nível dos mares pararia de subir e o mundo pararia de se aquecer”!
A imprensa põe nele traços messiânicos. Há algum discurso messiânico de Barack Obama? Não, não há. A imprensa e a opinião pública trata o cara como se fosse um messias. E ele não é o Lula de lá. O Lula daqui foi criado como um Messias. Concorreu a trezentas eleições, custou caro, foi construído por um partido como o Salvador da Pátria, até que finalmente ganhou uma eleição. Como? Simples: assinou um documento comprometendo-se a NÃO ADOTAR NENHUMA MEDIDA DEFENDIDA POR ESSE PARTIDO e fazendo um programa televisivo continuísta. Foi coerente, ao menos: chamou um tucano para o Banco Central e manteve a mesma política econômica. No início, os intelectuais petistas diziam que era a transição. E essa transição vai perdurar os dois mandatos. Mas ele está certo, ué. O PT nunca teve um projeto de governo, mas sim de poder. A companheirada se instalou em Brasília e era isso que eles queriam.

10 – Você já escreveu algumas vezes sobre o caráter messiânico de Lula. Acredita que ainda podem tirar da manga a cartada do terceiro mandato? Caso contrário, acha que o atual presidente voltará a concorrer em uma eleição futura (a partir de 2014)?
Não acho que Lula concorra em 2014. Porque o próximo Presidente, caso isso seja sinalizado, vai escavar os podres da gestão e jogará Lula na miséria dos escândalos. Ele vai perder o pouco que lhe resta, que é a posteridade. Concorrerá e perderá. E entrará para a história como o ex-Presidente que perdeu.
11 – Que tal deixar um pouco a política de lado e falar de cultura? Queria que você me contasse sobre suas preferências literárias. Qual o tipo de livro que você mais gosta e que lista essencial você indicaria para alguém?
Eu gosto de ler bobagens realmente muito bestas, ou algumas coisas que me recomendam por motivos diversos. Quando tinha 18, 19 anos, lia aquelas coisas pedantes, os tais “clássicos”. Daí parei com isso e agora leio o que dá na telha. Mas gosto de Nietzsche e Voltaire, embora os estudiosos de filosofia mais religiosos considerem esses autores uns bobocas. Li recentemente “Os Nomes Divinos”, de Harold Bloom e achei o máximo. As crônicas/contos de Woody Allen são as melhores que já li – e isso se reforça com “Fora de Órbita”. E agora estou de forma preguiçosa lendo Poder e Glória, sobre João Paulo II e concluindo aquele livro mais antigo a respeito dos Mutantes, a Divina Comédia, que ganhei de aniversário no ano passado – o presente vai fazer aniversário!
12 – E quanto aos filmes? Que tipo atrai mais você e qual os seus preferidos?
Gosto de bobagens, mesmo. Não perco mais tempo com cineasta chato. A vida é curta demais pra isso e não sou religioso para acreditar em  outros estágios existenciais. Já pensou ter um ataque cardíaco numa sessão de cinema iraniano?
13 – Uma coisa que me chamou muito a atenção foi o “Manual do Cafa”. Diga lá: o Gravata é um “Don Juan”? E o Fernando Gouveia? “É casado? Tem filhos?”
Calma, aquilo é uma personagem. Eu sou solteiro e sem filhos. Já fui casado, mas me separei. E não sou Don Juan nem nada. Sou até bem azarado.
15 – Façamos um resumo rápido sobre os seus valores, suas crenças e suas convicções. O que faz a cabeça de Fernando Gouveia?
Acho que falei lá pra cima, né? Defendo que todos possam fazer tudo, desde que um não prejudique o outro. Em suma, é isso.

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