>Diogo Mainardi e a grandiosidade de Machado de Assis.

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Abaixo transcrevo o texto do podcast desta semana de Diogo Mainardi. Ele trata, novamente, de Capitu e de Dom Casmurro, uma das páginas mais grandiosas da literatura brasileira. Diogo não gostou da adaptação que a Rede Glogo fez da obra. Achou-a aborrecida, vilipendiada.

Eu gostei do folhetim. E muito! Um dos motivos que me empurram a agradecer à Globo por Capitu são os últimos textos de Diogo. Graças à série – detestada pelo “Oráculo de Ipanema” – pudemos reencontrar, ainda que com brevidade, o Diogo que escreve sobre literatura. Há cerca de seis anos esse Diogo foi raptado pelo petismo e por seus aliados mensaleiros, deixando-nos privados de sua melhor face: o escritor que domina os temas literários e trafega entre recônditos os mais diversos.

O seriado da Globo libertou Diogo. Pudemos sorber um pouco do conhecimento e do gênio interpretativo que ele tem. Em um país cada vez condenado ao analfabetismo – funcional e moral – isso não é coisa pouca. Vivo dizendo aos amigos que há um Diogo Mainardi escritor muito pouco conhecido nestepaiz. É o autor de obras geniais como Malthus, Contra o Brasil e Arquipélago. Acreditem: Diogo deveria ser muito mais lido. A capacidade dele de escrever em prosa é praticamente única no Brasil atual. Me atrevo a dizer que ele é o melhor escritor que temos neste momento.

Por isso eu brindo a Capitu! Não fosse por ela, teriamos mais uma crônica sobre algum desmando petista. Em vez disso, podemos, pelo menos nesta semana, degustar o que há de melhor na crônica literária brasileira.

Capitu traiu.

“Até você, cara – o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor – e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?”

Acabo de citar Dalton Trevisan. “Dom Casmurro” é um tema recorrente em seus livros. Em particular, a obtusidade de quem enxerga um enigma onde “enigma não há”. Dalton Trevisan achincalha a professorazinha que emporcalha a obra de Machado de Assis, espalhando por aí que a grandeza de “Dom Casmurro” está justamente na incerteza sobre o adultério cometido por Capitu. Incerteza? Que incerteza? O romance só faz sentido com o adultério. Sem ele, é um mau romance. Ou, citando mais uma vez Dalton Trevisan: “Se a filha do Pádua não traiu, Machadinho se chamou José de Alencar.”

Desde 1960, quando a brasilianista Helen Caldwell publicou um estudo sobre “Dom Casmurro”, difundiu-se estupidamente a idéia de que Bentinho é um narrador suspeito. Nesse caso, o adultério de Capitu com Escobar teria sido apenas uma fantasia, fruto de sua mente enlouquecida pelo ciúme. O problema dessa idéia é o seguinte: desconfiar de Bentinho significa desconfiar de Machado de Assis. Bentinho – o Bentinho de Machado de Assis – é um narrador perfeitamente ponderado. Os fatos relatados por ele pertencem a um passado remoto. Ele descreve os eventos de sua vida com um distanciamento absoluto. Quando conta sua história, os protagonistas da trama, Capitu, Escobar e Ezequiel, o filho bastardo, já morreram. Seu cíume desapareceu completamente. É só uma lembrança longínqua. O Bentinho do tempo presente, que narra em primeira pessoa, sabe dizer o que é realidade e o que é fantasia. Mais do que isso: ele é capaz de analisar todo aquele seu processo de enlouquecimento provocado pelo adultério. Com o passar dos anos, sua mágoa e seu desespero se transformaram num estranhamento irônico.

Bentinho resolve escrever suas memórias por tédio, para tentar ocupar o tempo. Em nenhum momento ele parece querer acertar as contas com Capitu. Depois de terminar “Dom Casmurro”, ele se prepara para escrever outro livro: uma história dos subúrbios. Essa é a chave para compreender o romance. Olhando para trás, Bentinho se dá conta da mesquinharia de sua vida, de sua sociedade, de seu tempo. O que, no passado, tinha um aspecto mítico, como o adultério de Capitu, revela agora toda a sua miudeza. No auge de sua loucura, Bentinho se compara a Otelo. Mas o paralelo com o herói shakespeareano é usado por Machado de Assis apenas como contraponto para ridicularizar seu protagonista. Otelo está para Bentinho assim como os heróis dos romances de cavalaria estão para Dom Quixote. Vinte anos depois de “Dom Casmurro”, James Joyce usou o mesmo recurso em “Ulisses”. Se a Penélope de Homero é um paradigma de fidelidade, a Penélope de Joyce é a irlandesa adúltera, promíscua.

Capitu traiu Bentinho. E ela traiu porque Machado de Assis, em “Dom Casmurro”, tinha um propósito: transmitir o legado de nossa miséria.

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8 ideias sobre “>Diogo Mainardi e a grandiosidade de Machado de Assis.

  1. Gabriel

    >Ainda bem que 2008 está acabando. Só assim ficaremos livres de Machado de Assis. Chega. Basta. Ninguém lê Machado de Assis. Ninguém lê coisa alguma. Salvo Paulo Coelho e mais dois ou três de igual calibre. Exceto estudantes, levados ao cadafalso por seus professores cheios de boas intenções, ninguém lê Machado de Assis. Viva a hipocrisia brasileira. Alguns ‘críticos’, como você ou esse analfabeto travestido de difamador o fazem. Anseiam por um clássico nacional. Vibram quando um estrangeiro de ocasião – Woody Allen ou qualquer outro – diz que leu Machado de Assis, por recomendação de um amigo, e adorou. Precisam de uma legitimação pelo avesso. É balela essa história de que Machado de Assis não é conhecido mundialmente por causa da língua portuguesa. Qualquer europeu de cultura mediana conhece Fernando Pessoa, mas nunca ouviu falar de Machado de Assis. A literatura russa está aí para provar que língua não é obstáculo. Basta encontrar um tradutor. E compradores. Concordo que Capitu’ pode ser definida com uma palavra: insuportável. Chega de Machado de Assis. Desafio você a ler ‘Helena’ e gostar. O romantismo de Machado de Assis era de uma pieguice estratosférica. Nunca esquecerei o final de Iaiá Garcia: “No primeiro aniversário da morte de Luiz Garcia, Iaiá foi com o marido ao cemitério a fim de depositar na sepultura do pai uma coroa de saudades. Outra coroa havia sido ali posta, com uma fita em que Iaiá beijou com ardor a singela dedicatória, como beijaria a madrasta se ela lhe aparecesse naquele instante. Era a sincera piedade da viúva. Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”. Uau! Fiquei marcado pela pompa oca de expressões bregas como “coroa de saudades”, “singela dedicatória”, “piedade da viúva” e principalmente “naufrágio das ilusões”. Ironia? Nada disso. Expressões da época? Breguice mesmo. Intemporal. Nunca mais fui o mesmo depois dessas leituras de segundo grau. Não me recuperei. Sofri essa influência deletéria. Tornei-me brega para sempre – menos que você, é claro. Machado de Assis ficou bom quando percebeu o quanto era ruim. Virou o jogo. Mesmo assim, por mais que tenha feito, à exceção de “Dom Casmurro” e alguns contos, o restante não passa no teste da leitura espontânea. Até partes de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba” empacam na peneira do gosto atual. Abandonem esses livros em bancos no Ibirapuera, em Ipanema, no Parcão em Porto Alegre e vejam se a galera largará tudo para acompanhar a história até o fim. Culpa da incultura atual? Certamente. Literatura é entretenimento. Ou pega o leitor ou não pega. O resto é conversa. Sejamos iconoclastas. Quando eu disse para uma professora minha que Umberto Eco não conhecia Machado de Assis, ela – que é meio nacionalista – reagiu briosamente: “Maldade com Machado”. Coitada – dela e de você por gostar do Mainardi. Eu gosto de Machado de Assis. É o que temos de melhor. Mas chega. Basta. Se quiser me linchar, perspectiva que me parece legítima, posso citar fragmentos das crônicas de Machado de Assis. Se for necessário, atacarei com a sua poesia. Não me provoque, seu “construtor do pensamento”, hahahahaha. Antecipo duas estrofes para esfriar os ânimos mais belicosos: “Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros. Porque amigos são herdeiros da real sagacidade. Ter amigos é a melhor cumplicidade! Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho. Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas.

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  2. George

    >Já percebi que você não gosta de Machado, mas deve ser fã incondicional do Saramago, afinal despreza os parágrafos, como o português.Gostaria que você discorresse mais sobre a relação entre a qualidade da obra de Machado e a leitura que se faz – ou não – dele. O que se conclui do seu comentário é que se o povo não lê Machado é porque ele não é bom. Isso, veja, não é lógica. É burrice. Principalmente quando se está num país de analfabetos, como o Brasil.Acha que ninguém leria um livro de Machado deixado em um banco de praça. Eu também! Mas não porque o livro seja ruim. É porque o povo é inculto e burro, mesmo. Ou será que a coisa seria diferente se o livro abandonado fosse da literatura russa, que você parece ser tão conhecedor? Claro que não.Então onde está o seu ponto? É criticar a obra de Machado? Por que ela foi elogiada pelo Yashá? Defendida da Globo pelo Diogo? Qual o objetivo em desmerecer um dos maiores prosadores do mundo? Só bancar o tonto? Conseguiu!

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  3. Augusto Cesar

    >Quanta ignorância, Gabriel! Que lógica mais estúpida é essa que submete a qualidade da obra de Machado ao ibope dela junto aos leitores? Segundo o que você diz o Paulo Coelho seria melhor que o grande Machado, afinal ele vende mais… E nem alguém como você pode acreditar em algo assim, não é?

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  4. Marco

    >Vamos ver se eu entendi: quer dizer que Machado só não é mais lido no Brasil porque seria ruim? Sério mesmo que você disse isso, Gabriel? Mas você se dá conta do absurdo? Se não, sugiro que releia seus garranchos, afinal são um amontoado de loucuras.A colocação do Augusto é perfeita: você acredita mesmo que a literatura russa seria mais aceita no Brasil do que a obra de Machado? Que número te permitem concluir isso? Fala sério…Na boa, acho que você é traumatizado com Machado. Parece que foi um desses alunos que só leu alguns dos clássicos porque foi obrigado. Uma pena.

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  5. Catarina

    >Romantismo piegas? Tem certeza que está falando do Machado de Assis certo? Fala sério… Quer dizer que ninguém lê o Machado? É mesmo? E como foi que ele se tornou o maior escritor do país? Tudo um complô das elites e da mídia? Santa paciência!Não tem nem comparação com o Paulo Coelho. Se você já leu ambos sabe do que estou falando. Vai ver prefere algo como os livros do Sarney, sei lá…

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  6. Gabriel

    >”você acredita mesmo que a literatura russa seria mais aceita no Brasil do que a obra de Machado?”O que eu quis dizer, é que esse lance de “Machado não é tão conhecido lá fora porque a língua portuguesa tem alcance deveras curto” é balela. Citei a literatura russa como exemplo de linguagem de difícil acesso, mas que possuindo bons tratutores isso não é empecilho algum. Se você quer saber – parece estar querendo saber – Dostoiévski, Tolstói e Pushkin colocam o Machadinho no bolso.Vocês estão precisando fazer aulas de interpretação textual, na boa.

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  7. Yashá Gallazzi

    >O comentário abaixo foi postado pelo leitor Gabriel em 19/12/2008, às 20h36min:”á cerca de seis anos esse Diogo foi raptado pelo petismo e por seus aliados mensaleiros…”Raptado é o #####, sua #####. Ele foi falar do mensalão porque viu a possibilidade de finalmente conseguir algum tipo de reconhecimento. Uma redenção para um cineasta frustrado, escritor frustrado, adolescente frustrado, homem frustrado. E o mais impressionante: ele ainda não cansou de falar puramente mal do Lula, é uma coisa impressionante. Ele não tem mais o que dizer, esse Diogo Mainardi. Encontra no governo do cachaceiro uma moradia, um recanto para as sandices que ele escreve, algo sem o menor alicerce, sem o menor pedestal ideológico ou prático. Eu já fui em uma palestra desse cara na PUC-RS e, fiquei impressionado com a ignorância histórica, política e econômica delinqüente de um cara que é chamado de “melhor escritor que temos neste momento.” O Arnaldo Jabor – que você critica do seu altar de (des)conhecimento – bota ele no bolso tanto nesses quesitos, quanto em outros como o sarcasmo, a fundamentação argumentativa, a escrita em si, a estruturação dissertativa, o vocabulário. Sem contar que, entende muito mais de arte que esse Millôr Fernandes às avessas. O Juremir Machado da Silva, Luis Fernando Veríssimo, tantos outros… Até aquele ##### do Olavo de Carvalho é melhor que esse canastrão aí.

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  8. Yashá Gallazzi

    >O comentário abaixo foi postado pelo leitor Gabriel em 21/12/2008, às 00h01min:Hahaha, veja bem: eu apenas citei o nome do Paulo Coelho como figura demonstrativa no meu comentário e já veio todo mundo me malhar acusando-me de gostar do mesmo. Não gosto, mas pergunto a vós que trabalhais sempre prezando o bom senso: o que tem gostar de Paulo Coelho? Ora, #####! Se lêem essa ##### do Mainardi, o que tem ler Paulo Coelho? Ué, cadê o senso de “uniformidade da caretice”?

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