>"Liberdade é escravidão"

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O texto a seguir é um tanto longo. Foge, admito, do tal padrão célere dos blogs, mas não vejo outro caminho. Isso porque não posso deixar me surpreender com certas cousas que surgem inopinadamente neste rincão esquecido de onde escrevo. Vejam com atenção o que vai abaixo, publicado no portal de notícias do Governo do Amapá (link aqui):

O governador Waldez Góes sancionou, nesta terça-feira, 2, a Lei Simone Teran que institui o Dia Estadual da Liberdade de Imprensa, comemorado no dia 12 de maio. (…)

(…) Para o governador Waldez Góes, a Lei traz várias conquistas, ela homenageia Simone Teran, a democracia, a relação que tem com a sociedade amapaense, sobretudo com os profissionais da comunicação e principalmente o direito que o cidadão tem, que é o direito de se expressar. “A liberdade de expressão é um direito de todos. É um direito permanente. Não há como avançar na democracia sem a liberdade de expressão”, afirmou.

Sim, é isso mesmo! No Amapá, desde ontem, há uma lei dedicada a enaltecer as liberdades de expressão e de imprensa. Não é mesmo fascinante?! Parece até coisa típica de uma sociedade democrática e livre! Mas atenção! Eu disse apenas que parece… E sabem por quê? Porque onde há verdadeiramente democracia e liberdade não é preciso que se criem leis para reafirmar a importância da liberdade de expressão. Na verdade, pensando bem, esse tipo de coisa parece mais condizente com regimes onde o povo precisa ser convencido de que tem direitos

A coisa toda, porém, não deixa de ser curiosa e – por que não? – engraçada. Querem ver? Pois bem, corrijam-me se eu estiver errado, mas o atual governador, Waldez Góes, foi reeleito em 2006, mesmo ano em que o atual Presidente do Senado, José Sarney, ganhou mais um mandato de oito anos da sociedade amapaense. Se caso não estiverem lembrando de Sarney, eu dou uma forcinha: ele é o mesmo que recebeu mais de três mil reais por mês irregularmente, a título de auxílio-moradia. Não lembraram? Certo, então mais uma dica: ele é o mesmo que, nas vestes de escritor da Academia Brasileira de Letras, escreveu um romance onde havia uma prostituta, cujos mamilos excitavam até os cães… Ainda nada?! Ah, claro! Ele também foi Presidente dessepaiz há algum tempo. Sim, esse mesmo!

Pois bem, a menos que eu esteja muito enganado – e isso sempre é possível, não é mesmo? -, Sarney e Waldez fizeram parte da mesma coalizão, da mesma chapa eleitoral em 2006. E venceram, como é sabido. Mas há um outro particular daquela eleição: foi durante aquele pleito que Sarney – o companheiro político do atual governador – moveu mais de 100 ações judiciais contra jornalistas do Amapá, como se pode ver aqui e aqui. E daí? Ora, nada mais justo que o senador tome conhecimento da mais nova lei sancionada neste estado, que trata da importância das liberdades mais basilares de um ser humano. Vou além: sugiro que o governador, tão empenhado em fazer valer as garantias individuais da democracia, diga a toda a sua coalizão que “não há como avançar na democracia sem a liberdade de expressão”, coisa que ele fez questão de afirmar ontem. Afinal, informação nunca é demais, certo?

Sugiro isso porque, a meu aviso, ainda não parece claro que o Amapá saiba com precisão o que seja a liberdade de expressão. Aliás, não sou apenas eu que penso assim, como se pode ver aqui e aqui. No passado, escrevi este texto expondo minhas dúvidas acerca da existência, de fato, de uma democracia livre no Amapá. Sabem o que aconteceu? A pedido do Tribunal Regional Eleitoral, a Advocacia-Geral da União movimentou contra mim o aparelho judiciário do Estado, em razão de uma opinião pessoal, como contei, mais tarde, aqui. Perceberam? Eu, um indivíduo, escrevo para dizer que não vejo – nem sinto – os postulados mais básicos de uma democracia aqui no Amapá, e o Estado, em vez de me confortar e garantir meus direitos e liberdades, decidiu usar seu braço jurídico contra mim. Não é mesmo fascinante?

Aliás, colho o ensejo para sugerir que algumas augustas figuras em especial abram seus doutorescos ouvidos às palavras do nosso ilustre governador. Não me conformo que gente com um currículo para mais de 400 talheres ainda não tenha entendido a importância da liberdade de expressão para a democracia. Não posso conceber que, em pleno século XXI, ainda exista gente que encarne as piores faces do absolutismo monárquico, alegando com soberba e empáfia que são o Estado, encarnando a verdadeira face do mal que foi representado por Luis XIV, mas sem reproduzir-lhe a elegância das vestes – única coisa que mereceria ser preservada daquele período sombrio.

Mas e se a coisa toda encerrar em seu bojo uma faceta mais tenebrosa? Sim, pois não consigo – e tentei bastante, acreditem – acreditar que o governo atual, tal como São Paulo, o apóstolo, na estrada de Damasco, tenha experimentado a revelação trazida pela luz da democracia. Sou um pouco mais cético que isso, se me permitem… Então, passo a revirar mentalmente o parco conhecimento que tenho sobre algumas das maiores democracias do mundo, e descubro o óbvio: nenhum país civilizado e sério tem uma lei parecida com essa. Mas não me dou por satisfeito. Lá no fundo, ainda me lembro de ter lido algo sobre uma lei de liberdade de expressão… Onde foi?! Ah, claro! Havia uma legislação muito parecida na União Soviética. Qualquer um, depois da revolução, era livre para pensar e falar o que bem entendesse, desde que, é claro, não atentasse contra os interesses do Partido… Soa familiar para mais alguém? Pois é…

As democracias de verdade, caros, não precisam criar normas para lembrar os cidadãos de seus direitos mais fundamentais. Basta uma Constituição primordial, preceituando os fundamentos de uma democracia e do seu sistema de liberdades individuais e pronto! Tudo o mais é lixo retórico; empulhação ideológica. Nada mais! Escrevi mais de uma vez que os Estados Unidos são melhores que nós. E melhores em tudo! E sabem por quê? Porque lá as questões atinentes aos direitos básicos da sociedade foram solucionadas há mais de dois séculos, como lembrei aqui. Lá, eles não precisam de uma lei do dia da liberdade de expressão. Lá eles têm liberdade de expressão todos os dias!

E aqui? Ora, devo supor que, depois de ontem, haverá liberdade de expressão plena pelo menos naquele dia específico, não é? Bom saber… Vou deixar para escrever qualquer artigo crítico sempre no dia doze de maio… Devo supor que pelo menos o dia em que se comemora a liberdade de expressão será respeitado… Ou será que nem isso? Se assim fosse, já seria um começo animador. Uma melhora de 100%, afinal um dia de liberdade de expressão é certamente melhor que nenhum… Mas seria bem melhor se, a exemplo das sociedades civilizadas, nos fosse dado gozar de liberdade de expressão todos os dias.

Com o romance mais célebre de George Orwell nas mãos – o livro 1984 -, lembro de um dos lemas do Partido: “Liberdade é escravidão”. E, tal como Winston Smith, sinto subir pela espinha aquele calafrio mórbido, de quem sente que está sendo vilipendiado em seus direitos mais íntimos, sob o pretexto de estar ganhando algo. Tal como Smith, acho que o “Grande Irmão” pode estar querendo me convencer de que há liberdade de expressão, criando, para isso, um dia em homenagem a tal prerrogativa. Porém, na verdade, desconfio que a “polícia do pensamento” esteja ainda mais vigilante, vasculhando as mentes – e os textos – em busca de uma nova “crimideia” para punir com a força bruta do Estado. A nova lei não me inspira alegria ou confiança – tal como a “novilíngua” não inspirava nada de bom ao velho Winston… Antes, faz-me sentir ainda mais medo… Talvez, depois de criada a tal lei, torne-se reato oficial duvidar das liberdades e das garantias, como já me atrevi a fazer no passado… Como duvidar da existência de algo que chega a ser comemorado oficialmente em um determinado dia?! Seria como duvidar da República! Ou da independência! Eis aí. Como se queria demonstrar, liberdade é escravidão.

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9 ideias sobre “>"Liberdade é escravidão"

  1. Lucas Torres

    >Sou suspeito pra dizer qualquer coisa, porque sou amigo pessoal do Yashá, mas esse texto é seguramente um dos melhores que já li.Você está se superando!Parabéns mesmo!Poucas vezes vi uma combinação tão boa de argumentação e recursos literários, para desnudar uma manobra teatral.Parabéns de novo! E que o texto vá para os "especiais do blog".

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  2. Soldier

    >Assino em baixo de tudo o que você escreveu. Vou divulgar esse texto entre todos os meus conhecidos aqui de Macapá. E digo mais: ele deveria ser publicado em todos os veículos de comunicação daqui, como uma forma de escancarar o funcionamento da engrenagem da harmonia que nos governa.

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  3. Amapaense honesto

    >Sabe o que me faz gostar deste blog? A capacidade que o autor tem de escrever exatamente aquilo que nós temos entalado na garganta. Muito bom o artigo, parabéns! Tem muita gente "doutoresca" que deveria lê-lo. Aliás, pensando bem, aposto que vão lê-lo mesmo!

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  4. Notívago

    >A gente fica um tempo afastado do blog, ocupado com os afazeres da vida cotidiana, mas quando volta é brindado com um texto como esse.É por isso que não deixo nunca de aparecer por aqui. Parabéns, Yashá!

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  5. Catarina

    >Muito boa a comparação que você traça entre essa lei estranha e as invenções do Partido, no livro de Orwell. O texto ficou mesmo ótimo! Me uno aos mais assíduos que se manifestaram antes de mim acima: merece ir para os especiais do blog.

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  6. mike osoviskh

    >Caro Yashá.Realmente estamos vivendo em uma época demasiadamente estranha.Lula pede para não votar em vigaristas e o governador Waldez Góes sanciona lei que institui o Dia Estadual da Liberdade de Imprensa.O que falta? Descobrir que o presidente do Irã é judeu?Parabéns por mais um belo texto que irá daqui para meu HD.

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  7. Germano

    >Realmente trata-se de uma análise muito boa. Uma iniciativa que, a princípio, poderia parecer nobre e democrática, revela-se com facilidade mais uma empulhação de primeira.

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