>O Brejal de Sir Ney.

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Sim, eu sei que o assunto não é nenhuma novidade, mas e daí? Os clássicos, caros, também guardam um valor importantíssimo.

Revisitei nos últimos dias a memorável desconstrução que o grande Millôr Fernandes fez do – se me permitem – “livro” intitulado Brejal dos Guajas, escrevinhado por José Sarney. Ora, como assim quem?! Aquele político que recebeu uma bolada de dinheiro do Senado, a título de auxílio-moradia, mesmo sem fazer jus ao benefício… Não lembraram? Ora, aquele cujo neto foi contratado pelo Senado por meio de um ato secreto… Nada ainda? Hum… Ah, claro! Ele também já presidiu essepaiz no passado… Sim, esse mesmo!

Pois bem, já contei que no passado questionei publicamente as dotes literárias do maranhense. Para ser mais preciso, afirmei que Sarney só é reconhecido como escritor em razão da pobreza literária que assola o Brasil atualmente. Alguns fãs declarados do homem criticaram minhas palavras. Ouvi desde o básico “quem você pensa que é”, até o mais pomposo “não se pode falar isso de um senador da República”. Sim, por incível que pareça eu conheço pessoalmente gente que consegue defender as coisas escritas por Sarney. Como? Ora, há gente capaz de tudo, não é? Principalmente gente apequenada, simiesca e que posa de intelectual, sem jamais ter se debruçado sobre nenhum clássico da literatura mundial. Mas já me desviei. Retorno a Millôr e à sua genialidade.

Em uma rica e muito divertida análise dividida em onze partes, Millôr mostra porque “em qualquer país civilizado Brejal dos Guajas seria motivo para impeachment”. Eu, é claro, concordo com Millôr. Acho, por exemplo, que o Brasil estava muito mais bem servido quando tinha Machado de Assis, por exemplo. Se fosse para decair tanto, era preferível que o Brasil acabasse com a língua escrita, como já sugeriu Diogo Mainardi. Se a Itália, por exemplo, acabasse com a língua escrita, disse o Oráculo de Ipanema, perderia Dante Alighieri. Já no caso do Brasil, o único resultado prático seria conseguir se livrar de Sarney…

Na primeira parte de sua análise daquela – vá lá… – “obra”, Millôr sentencia que Sarney “era incapaz de construir uma frase, quanto mais um período”. Vai além na segunda parte. Segundo Millôr, “Brejal dos Guajas só pode ser considerado um livro porque, na definição da Unesco, livro ‘é uma publicação impressa não periódica com um mínimo de 49 páginas’. O Brejal tem 50. Materialmente, Sir Ney salvou-se por uma página.”

No terceiro tomo de sua resenha, Millôr diz que “Brejal é o livro de um autista”, e arremata assim: “Ou isso é o mais maravilhoso realismo mágico de que eu jamais tive notícia, obra esfuziante de um gênio que só vai ser compreendido daqui a séculos, ou estamos diante da mais espantosa incapacidade de expressão da literatura universal.” Só o que já relatei acima é suficiente para me convencer de que a autópsia feita por Millôr Fernandes do livro de Sarney é uma obra melhor e mais divertida do que o próprio objeto de – hum… – “estudo”… Mas ainda há mais.

Na quarta parte da análise Millôr desnuda o erro gritante que há no título do livro. O “La Fontaine de Ipanema” lembra que Sarney explica o nome do tal Brejal dizendo que era “Chamado dos Guajas, porque ficava próximo à aldeia dos Guajajaras”. E o que há de errado nisso? Ora, segundo Millôr uma coisa não tem nada a ver com a outra, já que Guajas e Guajajaras eram tribos diferentes! A conclusão do raciocínio de Millôr é perfeita: “A frase de Sarney equivale a: ‘Chamados de brasileiros porque ficavam próximos à aldeia dos argentinos.'” Viram como é simples apontar determinados devaneios?

A parte cinco é dedicada inteiramente à análise da primeira frase do livro de Sarney: “O caminho do Brejal era longe”. A pequenez de tal construção é dinamitada pelo agudo senso crítico de Millôr com enorme simplicidade: “Sendo longe do Brejal, o caminho, em última análise, não é do Brejal. Vai ver é de Pirapora, Cascadura, Nova Zelândia”. Pois é, simples assim. A dissecação das frases usadas por Sarney continua na sexta parte da análise, tão rica quanto as anteriores.

Seguindo, chegamos à sétima parte, onde Millôr mostra os erros simplórios de contextualização da história. Nota, por exemplo, que “A cidade não tinha telégrafo, mas se lê: ‘O Coronél Guiné passara um telegrama aderindo’ (pág. 10)”. E, sim. Eu juro que isso está mesmo lá. Acreditem, quando critico a obra de Sarney, o faço como alguém que já perdeu algum irrecuperável tempo sobre aquelas páginas. Há ainda muito mais que isso escondido dentro do tal livro. Na parte oito, por exemplo, Millôr transcreve uma frase de Sarney em que se lê o seguinte: “aquele tronco onde agora ficavam amarrados os animais e a rancharia”. A respeito disso, Millôr tece um comentário impagável: “Rancharia amarrada num tronco de árvore? Eta arvorão porreta!”. O divertimento continua na nona parte, como todos poderão conferir aqui.

Na décima e penúltima parte de sua análise do Brejal dos Guajas, Millôr comenta mais algumas incongruências gritantes encontradas no livro, como aquela que diz respeito ao jeito de falar da personagem denominada “Coronel Javali”. Escreveu Sarney que o tal coronel “falava devagar, usando sempre vossa mercê”, ao que Millôr responde de forma curta e grossa: “Nem uma vez o coronel usa o vossa mercê no livro”.

A última parte da obra de Millôr é formidável. Mostra todas as incoerências construídas sobre o tamanho do Brejal e o seu número de habitantes. Mas o melhor é a contextualização histórica da narrativa, identificada pelo “La Fontaine de Ipanema” em uma passagem onde se fala dos dois coronéis do livro, ambos “da mesma corrente política invicta em todos os pleitos realizados desde a queda da ditadura”. Segundo a acurada análise de Millôr, Sarney estaria falando “da outra ditadura, 1930/45, anterior À DELE, 1964/85”. Simplesmente formidável! Fascinante!

O texto de Millôr, sabemos, é de 1988. Mas pode perfeitamente ser lido hoje, época triste e sombria em que alguns doutos espécimes, quase humanos, insistem em defender certa literatura. Da próxima vez que alguém contestar as críticas que faço à – se me dão licença… – “obra” de Sarney, vou sugerir que o valente leia Millôr Fernandes. Quem sabe assim ganhe um pouco mais de cultura e inteligência, e deixe de lado o provincianismo rastaquera que infesta sua alma.

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6 ideias sobre “>O Brejal de Sir Ney.

  1. Aluno do estúpido

    >E os escritos de Millôr não foram censurados?!Não apareceu nenhuma decisão judicial dizendo que eram ofensivos à augusta figura do senador?O TRE do Rio de Janeiro não se manifestou sobre o caso?Que coisa mais estranha, né?

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  2. Amapaense honesto

    >Eu acho que o Millôr só conseguiu publicar o texto porque o escreveu em 1988, época em que a Justiça não era tão atenta aos direitos da honra de cada um, como é agora.Acho que não demora até que apareça alguma liminar ordenando ao UOL a retirada do conteúdo do ar.

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  3. Soldier

    >Eu já tinha lido isso há alguns anos. E sabe o que é legal? Comentei o texto em uma aula que tive na faculdade de Direito. Pra que… O professor da matéria criticou, dizendo que era temerário falar certas coisas de um Chefe de Estado. Certos aspectos do caráter de uns e outros nunca muda mesmo.

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  4. Catarina

    >Não sei os outros leitores, mas eu lembrei de qual Sarney você estava falando já na primeira dica, aquela sobre o recebimento ilegal de auxílio-moradia. 😉

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  5. George

    >Eu também saquei logo de cara, Cat. Somos bem espertos, aqui, hein?E eu concordo com o Germano: a obra do Millôr é muito melhor do que alguns "romances regionalistas" meia-boca.

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