>A casa não contabilizada – 10: As pessoas que nos legam os políticos que temos.

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Caros, peço-lhes um pouco de paciência. O texto abaixo é um tanto longo, mas não poderia ser diferente. Ao trabalho.
Não preciso dizer que abaixo deste post é possível encontrar outros nove dedicados apenas às diatribes daquele que Lúcia Hippolito chamou de “fofo”. NOVE! Isso só mostra o tamanho do abismo em que mergulhou a política nacional, arrastada pelos escândalos que se avolumam, dia após dia, em torno do maranhense que se elegeu senador pelo Amapá, José Sarney. Aliás, se todas as peripécias que a imprensa nacional vem imputado a Sarney forem verdadeiras, já seria possível editar um romance de qualidade muito superior a livretos como Saraminda, Brejal dos Guajas e Marimbondos de fogo.
A ideia deste décimo post é justamente facilitar a vida de vocês, leitores, permitindo que haja um espaço onde se possa comentar tudo o que já foi escrito sobre Sarney, aqui ou alhures, sem precisar ficar escrevendo em mais de um texto. Isso facilitaria, também, o debate entre os próprios leitores, coisa que já me foi cobrada no passado pela Catarina, uma brava integrante da nossa “Tropa de Elite”.
Mas não é só. Eu também queria encerrar essa série de dez posts fazendo uma consideração que parece estar escapando à maioria dos analistas políticos e a um bom número de cidadãos brasileiros. Quero discutir os aspectos morais e éticos que decorrem das denúncias formuladas contra Sarney. Os desdobramentos jurídicos, legais e eleitorais são importantes? Claro que são! Mas a face ética e moral da crise guarda uma relevância ainda maior, porquanto diz respeito ao próprio cerne de uma democracia.
Assim, pouco me importa se a casa não contabilizada de Sarney foi mesmo esquecida por culpa do contador. Isso é irrelevante! Da mesma forma, não me interessa saber que a omissão do tal imóvel não teria o condão de levar à cassação do maranhense. Isso também é coisa pouca. O que me preocupa é perceber que Sarney, Lula e os demais envolvidos na operação engendrada para abafar os escândalos do Senado realmente acreditem que o nobre senador não seja mesma uma pessoa comum.
Façamos uma recapitulação rápida apenas daquilo que considero o mais relevante – ou mais grave: 1) Saney tinha um neto trabalhando no gabinete de um aliado político; 2) Sarney tinha um neto que operava no mercado de empréstimos bancários para os servidores do Senado; 3) Sarney tem uma casa no valor de 4 milhões de reais, que não foi declarada à Justiça Eleitoral do Amapá. Posso concordar que nada do que vai antes relatado pode ocasionar prisão ou cassação de mandato. Mas não posso deixar de dizer que, a meu aviso, são coisas que mancham – e muito! – a reputação de qualquer homem público. Lembram daquele ditado sobre a mulher de César, não é? Não basta ser honesto. É preciso parecer honesto. E Sarney, dados os fatos que temos, não me parece nada honesto. Nunca é demais lembrar que, no primeiro mundo, qualquer parlamentar na mesma situação já teria renunciado há tempo. Mas aqui… Torno a lembrar de De Gaulle: “Le Brésil n’est pas um pays sérieux.” De fato, não somos um país sério mesmo…
Sinceramente temeroso de cair num lugar comum, devo escrever o óbvio: a culpa não é apenas dos políticos, mas de TODA A SOCIEDADE, responsável por colocá-los onde estão hoje, achincalhando a democracia e a honra do país. Mas a nossa sociedade, tão aquém daquilo que poderia ser chamado de civilização, não aprendeu isso ainda. Por isso um político que presidiu o país e deixou como grande legado uma inflação de mais de 100% consegue mudar, de forma inusitada e inédita, seu domicílio eleitoral para um estado pequeno, rastaquera e simiesco, ganhando dos nativos algo que em muito se assemelha a uma vaga perpétua no Senado Federal. E, não. Eu não acho que ter Sarney, como senador, faça bem ao Amapá. E isso mesmo considerando que ele é um ex-Presidente e goza de óbvio prestígio político, desde a esquerda mais estúpida, até a direita mais doidivanas. E não acho pelo mesmo motivo evidente já mencionado antes: o legado da presidência de Sarney é, na melhor das hipóteses, vexatório.
Neste ponto do texto, é claro que os leitores já notaram que me referi ao Amapá de forma um tanto depreciativa. Dizer o quê? Não devo respeito ou admiração alguns à terra em que moro. Pelo contrário: acho que um estado e uma sociedade capaz de reconduzir tantas vezes Sarney ao senado merece é uns bons chutes nas fuças. Chutes metafóricos, é claro, afinal me faltariam pernas para dar conta daqueles reais. Apesar disso, ainda há “patriotas” estúpidos o bastante para baixar aqui no blog e me apontar o dedo acusador: “Você não tem o direito de tratar assim a terra em que vive!” Nessas horas, lembro-me sempre de Samuel Johnson, tantas vezes citado aqui no passado: “O patriotismo é o último refúgio de um canalha.” A partir de tal memorável frase, crio minha própria paráfrase: o bairrismo é o único refúgio de um idiota! Está claro, não? Repetindo Reinaldo Azevedo eu pergunto: preciso desenhar? Sim, para alguns idiotas seria preciso mesmo um monte de figuras. Explico.
Recebi de uma leitora que se identificou como “Sereia Tucujú” o seguinte comentário (transcrito conforme o original):
“Você critica tanto um senador da república aqui nesse blog que deve ser alguém muito importante. Ou então se acha muito importante. Se acha até no direito de atacar a obra literária dele, reconhecida até pela Academia Brasileira de Letras, por isso imagino que seja um grande escritor, e tenha muitos livros publicados. É muito fácil ficar nessa posição de criticar tudo e todos, enquanto alguns corajosos tentam dedicar a vida a melhorar o Brasil. E não falo necessariamente do senador Sarney, mas da maioria das autoridades do Amapá e do Brasil. Eu, prefiro encontrar formas de trabalhar de verdade para fazer um Brasil melhor, do que ficar num blog criticando quem dá a cara à tapa. O pior é ver como você se atreve a falar mal do Amapá e dos amapaenses, acusando a todos pela eleição de Sarney. Deve achar isso moderno e intelectual, mas a verdade é que é muito baixo ser agressivo com o povo e a terra que o recebeu. O que você tem contra os amapaenses enquanto cidadãos? Eles não são livres para votar em quem quiserem? Escute um conselho amigo de alguém que é jovem e aprendeu a viver a vida e seja mais sereno, deixando de lado o ódio pelo Amapá.”
Notaram que ela termina pedindo que eu escute um conselho? Pois é… Depois de rabiscar aquele emaranhado pedestre de palavras, onde conseguiu até mesmo separar, por meio de uma vírgula alcoviteira, o sujeito do seu predicado, a – como é mesmo? – “Sereia” ainda quer que eu a escute! Mas este escriba, tal como Ulisses, tapa os ouvidos ao canto da peixinha…
Notem que a formação ética e moral dessa gentalha é do mesmo baixo nível de sua formação escolar. Por isso uma redação permeada de tantos absurdos consegue também ser conceitualmente imprestável. Percebam que ela pergunta o que tenho contra “os amapaenses enquanto cidadãos. Eu? Ora, nada! Tenho é muita coisa contra os amapaenses – se me permitem… – “enquanto categoria política e/ou de pensamento”. Da mesma forma que rejeito outros coletivismos que se pretendem expressões de uma formação moral. Não existem os baianos, mas O baiano; não existem os negros, mas O negro; não existem as mulheres, mas A mulher; não existem os homossexuais, mas O homossexual. Perceberam a diferença? Não aceito o pensamento de manada, coletivo, que acaba com O INDIVÍDUO e o submete aos desígnios de uma massa acéfala. A morte do indivíduo e do seu pensamento unitário é o fim da democracia e da sociedade civilizada.
É o amor pelo pensamento de manada, coletivo e estúpido, que dá à luz gente pequena e simiesca como a rabo-de-peixe lá de cima. Viram qual é o norte moral dela? Eu não poderia criticar Sarney apenas porque não sou alguém importante. Qual o corolário disso? Ora, Lula já o explicou: Sarney não é, pois, uma pessoa comum. Mas eu pergunto: o que é ser alguém importante? É ser um senador? É ter cargo no governo? É ser famoso? Deixo a modéstia completamente de lado e digo sem titubear: me considero bem mais importante do que alguns famosos dessepaiz. E sabem por quê? Porque a pedra angular de uma sociedade democrática é o reconhecimento de que não há ninguém “incomum”. É a aceitação plena de que todos são iguais perante a lei e, portanto, eu posso – antes, devo! – vigiar e criticar os homens públicos que deveriam me representar no Parlamento, em vez de ficar encontrando justificativas para cargos, casas e auxílios-moradias.
E o mesmo vale para a reclamação dela quanto às minhas críticas ao Sarney “enquanto escritor”, para ficar no vocabulário que a nossa Ariel entende. Não vou, porém, adentrar a fundo tal ponto, mesmo porque gente um pouco – só um pouco mesmo – mais inteligente que a moça acima já tentou me censurar em razão das ressalvas que faço à – vá lá… – obra do maranhense. Uma banana para essa gente! Mas cuidado: não se engasguem com a casca. Toda precaução não é suficiente quando se lida com uns e outros… Há, creiam, os que são capazes de engolir a casca e jogar a fruta fora, dado o portentoso alcance intelectual que possuem. Estou sendo muito sutil?
Gente como a metade-peixe ali é a causa primordial daquilo que acontece em Brasília. É a completa inversão de valores morais, a evidente submissão ética e mental que mantém diante dos tais “homens públicos e poderosos” (aqueles que, segundo eles, são alguma coisa), que condena o Brasil e o Amapá ao atraso perpétuo. A sujeita se disse jovem, lembram? Se penso que há os que depositam suas esperanças nos tais “jovens, futuro da nação”, me sinto tomado por engulhos! Eu não confiria neles nem para decidir entre um sundae de morango ou um de chocolate.
Quem está triste, desanimado e envergonhado com aquilo que nos chega de Brasília, deve saber: as portas do inferno estão apenas se abrindo. A verdadeira escória do mundo não se arrasta nos carpetes do Congresso, mas está escondida nos mais diversos e afastados rincões do Brasil, ruminando os valores que um dia terminarão por exterminar, de vez, com qualquer vestígio de democracia que ainda exista.
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17 ideias sobre “>A casa não contabilizada – 10: As pessoas que nos legam os políticos que temos.

  1. Catarina

    >É simplesmente um texto perfeito! Grandioso mesmo. Sinto pena daquela moça, que tentou se mostrar esperta, mas só conseguiu passar recibo da própria burrice.

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  2. Anonymous

    >Pra gente que vive aqui nessa terra, é difícil aceitar gente estúpida como aquela menininha. Mas o pior é saber que muitos ainda pensam como ele, defendendo as autoridades que insistem em nos envergonhar.

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  3. Aluno do estúpido

    >"gente um pouco – só um pouco mesmo – mais inteligente que a moça acima já tentou me censurar"Eu sei quem é! Eu sei quem é!Aposto que é o meu querido professor, hehe…

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  4. Tuck

    >Conheci hoje o blog, por meio de um amigo. E depois de ler esse texto, só posso dizer que voltarei sempre. Parabéns.

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  5. T-Wolve

    >A ideia de um texto para concentrar os comentários foi ótima. Eu sempre pedi isso. Mas aí você tem que moderar os comentários com maior frequência.

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  6. Yashá Gallazzi

    >Agradeço as palavras sempre elogiosas de todos. E dou as boas vindas para o "Tuck", nosso mais novo leitor.Agora um aparte ao comentário do "T-Wolve": TÁ ACHANDO QUE EU VIVO SÓ DE BLOG, É?! Tenho família pra sustentar!

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  7. Catarina

    >Hahahaha! É que o T-Wolve ficou bravo porque ele realmente falou no post único por primeiro, mas eu é que fui citada no texto.Fica assim não, querido.

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  8. Notívago

    >Incrível como tem gente que perde completamente a noção do ridículo! Quem mais poderia viar a este blog para defender Sarney e as "otoridades" do Amapá? Francamente… Só poder ser algum assessor muito bem pago (com o nosso dinheiro) pra fazer isso.

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  9. Anonymous

    >Estou mesmo é curioso pra saber quem o "estúpido" tão mencionado aí em cima. Será que é alguém que eu conheço? Lembrando que eu também sou acadêmico em uma de nossas tantas faculdades… Talvez o estúpido dê aula pra mim também…

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  10. Diego

    >Bem democrático você é, desmoralizando aqueles que lhe criticam.E pode cancelar mais esse comentário também, afinal você nunca publica nada diferente mesmo. Nem sei porque perco tempo aqui.

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