>A política que transforma o Brasil num lixo.

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Alguns amigos me escrevem por e-mail perguntando por que ainda não escrevi sobre a balbúrdia deprimente que se verificou ontem, no Senado Federal. Ora, porque ainda estava me refazendo das náuseas, é claro. Convenhamos: ver gente da laia de Renan Calheiros – aquele que falava na “gestante”, lembram? – e Fernando Collor – o marajá que queria caçar marajás – torturando a lógica a fim de salvar a pele de José Sarney é um espetáculo teratológico.

Dizer o quê? Eu, se me fosse dado aconselhar o imortal senador, diria que andar com esse tipo de gente só poderá trazer um saldo negativo no futuro. Não é exatamente a companhia mais indicada para – como direi? – “limpar a barra” dele, já tão desgastado diante da opinião pública. Se bem que… Os dois alagoanos não estão na linha de frente da tropa de choque “sarneyzista” de graça, não é? Alguma afinidade deve haver ali, suponho.

Devo confessar, porém, que ver Collor na TV, tal qual um ator de filmes pornográficos de quinta categoria, bradando com aquele ar de enfado típico de quem não tem razão: “Engula isso”, “engula aquilo”, me deprimiu bastante. Em 1992, quando ele foi escorraçado do Planalto, eu tinha só nove anos. Ainda assim, jamais pensei que o veria tão cedo de novo na ribalta da política brasileira. Eis aí mais um legado do governo Lula, aquele que se especializou em reeditar todas as piores facetas do coronelismo nacional.

Não sei o que Collor engole – nem o que engolem aqueles que andam com ele -, mas estou certo que não deve fazer lá muito bem à saúde. Só um distúrbio pode explicar a tremedeira que acompanha a fala dele, forçosamente grandiloquente, na busca desesperada por afetar alguma seriedade. A verdade é que Collor nada mais é do que a velha piada que sempre foi. Ele está mais velho do que no passado – e os cabelos brancos, penso, não lhe dariam a presidência, caso a disputasse ora -, mas os vícios só fizeram se agravar com o tempo.

E Calheiros? Que pena eu tenho do sujeito… Vendo-o na TV, desdobrando-se em elogios à augusta figura daquele que escreveu sobre uma prostituta cujos mamilos excitavam até os cães, o senador encarnou à perferição aquele ar de vassalagem típico de quem só existe sob a proteção do senhor. Calheiros é o Kerensky de Sarney; É o Goebbels de Sarney; É o Golbery de Sarney.

Em verdade, enxergo em Calheiros traços de um verdadeiro Gregor Samsa, aquele que, pouco a pouco, transformou-se numa barata, no romance A Metamorfose, de Kafka. Sem perceber, paulatinamente, a personagem foi adquirindo mais e mais traços do abjeto inseto, até que não era mais possível reconhecê-la como ser humano. Assim é Calheiros: ele está se transformando pouco a pouco em um novo Sarney, imitando-o em todas as características intrínsecas. E não pensem os defensores do maranhense que eu estou aqui comparando-o a uma barata. Longe de mim! Mesmo porque, é preciso que se diga, as construções retóricas tecidas pelo inseto kafkiano eram deveras bem cronstruídas, como qualquer leitor deve saber…

Vendo a defesa apaixonada que Calheiros fez de Sarney eu me lembrei de alguns célebres versos de Camões: Transforma-se o amador na cousa amada,/ por virtude do muito imaginar,/ não tenho, logo, mais que desejar,/ pois em mim tenho a parte desejada. Calheiros é Sarney, assim como o amador é a cousa amada. Nesta alquimia inseriu-se a figura patética de Fernando Collor, aquele que, até hoje, penteia-se e comporta-se como o valentão da escola, que não leva desaforo pra casa.

Essa é a defesa de Sarney: Calheiros e Collor. Juro que não o invejo em nada. De certo não resta nada de auspicioso na biografia de alguém que só consegue o apoio de dois sujeitos escorraçados da vida política nacional.

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7 ideias sobre “>A política que transforma o Brasil num lixo.

  1. Anonymous

    >O que me preocupa e indigna é ver como o povo adota, como gado, revoltas implantadas por uma mídia doentia e manipuladora. Só é preciso se questionar por uma única vez a respeito de cada acusação e as partes interessadas em acusar ou não. É muito triste ver a pobreza dos que se dizem questionadores e que não procuram as raízes de cada questão, o ponto onde se inicia o interesse de cada parte envolvida. É revoltante, é de dar pena, ver por aí uma manada irracional totalmente dedicada a defesa de revoltas que, na realidade, somente defendem interesses dos grande peixes acomodados por trás da mídia manipuladora.

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  2. Mauro

    >O Reinaldão fez um texto ótimo hoje, satirizando o convescote entre Lula, Sarney, Renan e Collor e comparando-o com a Revolução dos Bichos. Está muito bom.

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