>O caso Isabella e a face de dois males.

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Escrevo com algum atraso sobre o julgamento do casal Nardoni, condenado pelo assassinato da menina Isabella. Mas acho necessário deixar o registro, afinal pudemos presenciar a face horrenda de dois males distintos, mas igualmente deletérios.
Os assassinos de uma criança.
Sei acerca do julgamento o mesmo que cada um de vocês, ou seja, aquilo que foi repercutido pela imprensa ao longo dos dias. Como bacharel em direito, devo dizer que me sinto absolutamente convencido da culpa dos réus. É para isso que apontam os fatos e, o que é mais importante, a lógica.
Diante disso, é revigorante ver o funcionamento do aparelho judiciário, capaz de impor aos assassinos a reprinda legal cabível. Mas, pergunto: será tal reprimenda satisfatória?
Alexandre Nardoni foi condenado a 31 anos de prisão. Ana Jatobá, por sua vez, recebeu uma sentença de 26 anos. Isso quer dizer que ambos poderão estar em liberdade passados cerca de dez anos, progredindo para o regime semi-aberto. Não parece algo próprio de uma sociedade civilizada. E não é mesmo!
Alexandre Nardoni, o pai que assassinou a própria filha, sabe desde agora que nunca ficará mais de 30 anos preso, pois a legislação brasileira não permite. Isso quer dizer que a própria sentença prolatada contra ele não poderá ser aplicada integralmente.
Além do que foi dito acima, a evidente demora em realizar o julgamento dos Nardoni também mostra as fraquezas do sistema penal brasileiro, pródigo em fornecer uma série de “direitismos” para os réus, fornecendo mecanismo protelatórios os mais diversos e, em última análise, contribuindo sobremaneira para a sensação de impunidade que permeia a sociedade.
A turba acéfala.
O que, provavelmente, fará com que boa parte dos leitores discordem deste escriba é, porém, o que virá a seguir: os “populares” que se aglomeraram do lado de fora do fórum, gritando palavras de ordem e clamando por “justiça”são tão perigosos para a sociedade civilizada quanto os Nardoni.
A turba ensandecida que se aboletou naquele local não queria justiça. Queria a barbárie. Por isso pediam a morte dos réus; ou, o que é ainda mais grave, pediam que os policiais os liberassem ali, para que fossem assassinados “pelo povo”. Não eram heróis, mas bandidos. Como aqueles que eles tanto odiavam.
Uma sociedade civilizada de verdade não tolera pais que assassinam seus filhos. Assim como não tolera linchamentos em praça pública. Ambos são igualmente repelidos, porque ambos concorrem para diminuir a humanidade do todo, flertando com a barbárie.
O Brasil não se mostrou civilizado por ter condenado os Nardoni. Isso era o mínimo! Na verdade, o Brasil se mostra selvagem ao emprestar voz ao “protesto” daqueles bárbaros.
Não se deve condescender com o terror de nenhuma espécie. Há que se condenar os Nardoni, da mesma forma que a manada acéfala também precisa ser condenada. Simplificando, os sujeitos que chutaram a viatura da polícia, clamando pela morte dos réus condenados pelo Estado de direito democrático, mereceriam fazer companhia ao casal no mesmo presídio. Só assim o país poderia, de fato, se dizer civilizado.
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