>Quebrando promessas: algumas considerações sobre a pesquisa Ibope no Amapá.

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Eu disse, alguns posts abaixo, que não escreveria sobre a pesquisa Ibope feita no Amapá. E isso por uma razão bem simples: não levo muito a sério pesquisas feitas aqui. Mas vou acabar quebrando minha promessa porque consegui encontrar os dados detalhados da tal pesquisa, e ali vi algumas coisas interessantes. Antes, porém, de começar a análise propriamente dita, dois pequenos detalhe: primeiro, cumpre dizer que neste texto tratarei, como é óbvio, apenas das eleições no Amapá. É algo que, portanto, deve interessar mais aos leitores amapaenses do blog. Aos que acessam este espaço a partir de outros locais, caso não se interessem, recomendo nem iniciar a leitura, afinal é um texto um tanto longo. Além disso, vale lembrar que as observações que vocês lerão a seguir só valem em condições normais de temperatura e pressão, ou seja, se tomarmos como corretos e verdadeiros os números apurados. Tenho cá minhas ressalvas, mas, ad argumentandum tantum, vale a pena brincar um pouco. Ao trabalho!
Costumo dizer aos conhecidos que no Amapá, em qualquer eleição que se faça, a situação (a atual, conhecida como “harmonia”) será sempre favorita. Não importa qual seja o partido, ou quem seja o candidato. Isso porque Macapá, apesar de ser capital, tem ar provinciano, interiorano mesmo. E no interior, sabe-se, a máquina do Estado costuma ter muita força. Aqui é assim: basta que um governante tape buracos, pinte ruas e construa um punhado de praças, para que o povo se sinta feliz. E a sensação de felicidade de uma sociedade é mais facilmente capitalizada pela situação, que pela oposição. Mas não é simples vislumbrar isso só lendo meras palavras. Por isso chamo alguns números em socorro:
1 – O amapaense é feliz.
Sim, é isso que diz o Ibope. Não sei como isso é possível, afinal aqui não há saúde, saneamento básico ou segurança. Em escala nenhuma! Mas o povo é feliz, afinal tem um punhado de shows por ano e várias pracinhas pra visitar.
Segundo o que foi apurado pela pesquisa, 78% dos amapaenses estão satisfeitos com a vida que levam. Trata-se de um número que só pode animar a situação. Uma campanha eleitoral bem conduzida levará qualquer candidato do governo à vitória, afinal o povo, em sua esmagadora maioria, não quer mudança.
Sabem o que é mais curioso? Os mais satisfeitos são aqueles que declaram voto nos candidatos tidos como de oposição. Os Eleitores de Lucas Barreto são os mais satisfeitos (73%), seguidos dos eleitores de Camilo Capiberibe (71%). Como conduzir uma campanha baseada num discurso de mudança, quando sua base não quer mudança alguma?
2 – A avaliação do governo Pedro Paulo.
2.1 – Gestão é bem avaliada pela maioria dos eleitores.
Outro dado que corrobora minha tese de que a situação é sempre favorita é a avaliação do atual governo, chefiado por Pedro Paulo, candidato à reeleição. 9% dos entrevistados consideram a atual gestão ótima. 26% a avaliam como sendo boa. Regular foi como 38% dos eleitores classificou a gestão de Pedro Paulo, ao passo que 6% a consideraram ruim. 13% responderam que o governo atual é péssimo. Para efeito estatístico, pode-se dizer que 35% aprovam bastante o governo atual, enquanto que 19% a desaprovam fortemente. Este já seria um resultado notável, mas ganha ainda mais importância quando se soma o percentual dos que consideram regular àqueles mencionados como ótimo ou bom. Neste cenário, o governo atual gozaria da aprovação de 73% dos eleitores, algo digno de nota. Lembro que é próprio das análises políticas fazer tais divisões dos números, afinal considerar um governo regular não é o mesmo que desaprová-lo.
2.2 – Aprovação à pessoa do governador Pedro Paulo também é grande.
Perguntados objetivamente se aprovavam ou desaprovavam a atuação da pessoa do governador Pedro Paulo, 52% responderam que aprovam, contra 33% que desaprovam. Esses números confirmam a análise feita acima, e mostram que a campanha começa com uma situação realmente confortável para a situação.
2.3 – Eleitores dos demais candidatos também avaliam o atual governador de forma positiva.
Dentre os eleitores que declararam votar em Jorge Amanajás, 48% disseram aprovar o atual governador (38% desaprovam). Esse número cai um pouco entre os eleitores que preferem Lucas Barreto: 45% (42% desaprovam). Só entre os eleitores de Camilo Capiberibe o atual governador é mais desaprovado que aprovado. Mas, ainda assim, a aprovação pode ser considerada muito alta: 41% (43% desaprovam).
3 – Na pesquisa espontânea, grau de indecisão é muito elevado.
Quando perguntados sobre suas preferências eleitorais, sem que uma lista de nomes lhes fosse apresentada, 50% disseram não saber em quem votar. É um número altíssimo, mesmo considerando que a campanha está apenas começando. E, se meu raciocínio estiver certo, é um terreno muito fértil para o candidato da situação.
A situação fica ainda pior quando os entrevistados são indagados sobre suas preferências para o Senado. Segundo o Ibope, nada menos que 59% se disseram indecisos sobre as duas escolhas.
4 – Dados da pesquisa estimulada divididos por faixas do eleitorado.
4.1 – Lucas Barreto vence entre os homens. Jorge Amanajás entre as mulheres.
O candidato preferido dos homens entrevistados foi Lucas Barreto, com 29% dos votos, seguido por Jorge Amanajás (21%) e Camilo Capiberibe (19%). O preferido das mulheres é Jorge Amanajás, com 26%. Depois dele aparecem Lucas Barreto (22%) e Pedro Paulo (20%).
4.2 – Jovens preferem Jorge Amanajás.
Entre os jovens de 16 a 24 anos, o mais citado foi Jorge Amanajás, com 33%. São 11% a mais que o segundo, Lucas Barreto 22%. A dianteira de Amanajás continua entre os jovens de 25 a 29 anos, onde ele aparece com 25%, mesmo percentual obtido por Pedro Paulo. Ambos estão em empate técnico com Lucas Barreto (24%). Nota-se que a maioria esmagadora da chamada “juventude” prefere o ex-Presidente da Assembleia Legislativa (Amanajás) e o atual governador (Pedro Paulo). Esse é outro fator que contribui para a situação e joga fortemente contra a oposição, afinal a discurso de “motivar os jovens a fazer a mudança” não encontra terreno muito fértil. Também é válido lembrar que essa faixa etária contempla a maioria das pessoas que se preparam para o vestibular, o que permite concluir, com base lógica, que abrange a maioria das pessoas matriculadas no cursinho chamado “Desafio”, de propriedade de Jorge Amanajás.
4.3 – Adultos preferem Lucas Barreto.
Entre os eleitores de 30 a 39 anos, o preferido é Lucas Barreto, com 25%. Em seguida aparecem Jorge Amanajás (20%) e Pedro Paulo empatado tecnicamente com Camilo Capiberibe (19%). Na faixa etária entre 40 e 49 anos, Lucas Barreto sobra, com 33% das preferências. Em seguida aparecem Jorge Amanajás (20%) e Pedro Paulo (18%). As três primeiras posições se mantém entre os eleitores com 50 anos ou mais: Lucas Barreto lidera (25%), Amanajás aparece em segundo (21%) e Pedro Paulo em terceiro (14%).
4.4 – Divisão de votos por nível de instrução escolar.
Lucas Barreto lidera entre os eleitores que têm até a quarta série, com 26% (Pedro Paulo tem 21%, Camilo Capiberibe tem 17% e Jorge Amanajás tem 15%). Entre os eleitores que cursaram até a oitava série, o líder é Jorge Amanajás, com 27% (Lucas Barreto tem 25%, Camilo Capiberibe tem 20% e Pedro Paulo tem 15%). A liderança de Amanajás persiste entre os que cursaram até o ensino médio, com 26% (Lucas Barreto tem 25%, Pedro Paulo tem 21% e Camilo Capiberibe tem 16%). Lucas Barreto volta a liderar entre os eleitores que declararam ter cursado ensino superior, com 28% (Amanajás tem 25%, seguido por Pedro Paulo e Camilo Capiberibe, ambos com 17%).
5 – Camilo Capiberibe é rejeitado por um terço dos eleitores. Lucas Barreto é o menos rejeitado.
O maior índice de rejeição é de Camilo Capiberibe (33%), seguido por Genival Cruz, do PSTU (20%). Na sequência aparecem Pedro Paulo (17%) e Jorge Amanajás (14%) e, por último, Lucas Barreto (8%). O resultado surpreende pela baixa rejeição ao nome de Lucas, que parece ainda estar desfrutando o rótulo de “terceira via”. No decorrer da campanha essa rejeição deve crescer sem dúvida. Já a alta rejeição a Camilo Capiberibe não é surpresa. Basta analisar fatos: a sociedade amapaense é dividida em três terços clássicos: 1/3 não vota nos Capiberibe de jeito nenhum (daí a rejeição de 33% a Camilo Capiberibe); 1/3 costuma votar sempre (daí minha aposta no fato de que Camilo estará no segundo turno); e 1/3 flutua. Nas eleições de 94 e 98, esse terceiro terço pendeu pro lado de João Capiberibe. Já em 2006 e 2008, ficou contra o candidato da família Capiberibe. Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer este ano, mas acredito em Camilo no segundo turno, quando, então, os demais candidatos se união em torno do outro nome, derrotando-o.
6 – Maioria acha que Jorge Amanajás vencerá a disputa.
Quando perguntados acerca de quem acreditam que vencerá a eleição, 30% dos entrevistados responderam que Jorge Amanajás seria o vitorioso. 19% apostam em Lucas Barreto, enquanto 15% acreditam que quem vencerá será Pedro Paulo ou Camilo Capiberibe.
7 – Detalhes da disputa pelas duas vagas de senador.
– Dos que esolheram Camilo Capiberibe como governador, Waldez foi escolhido como senador por 38%, e Gilvan por 28%.
– Entre os eleitores de Lucas Barreto, Waldez recebeu 51% dos votos para senador e Gilvan Recebeu 44%. Randolfe apenas 28%.
8 – Conclusões.
De plano cumpre dizer que todas as observações aqui feitas só têm valor se considerarmos corretos os números do Ibope. Eu, por exemplo, questiono demais a maneira como a pesquisa foi feita, basicamente por dois motivos: 1) o baixo número de entrevistados (800 pessoas são menos que um bairro de Macapá); e 2) a ausência de informação acerca dos lugares em que foram conduzidas as pesquisas, em especial os bairros – ainal em Macapá a cidade ainda é bastante dividida, sendo notório que há zonas que pendem mais para um lado, e outras que pendem para o lado oposto. Ainda assim, a título de argumentação – e em CNTP -, podemos extrair algumas informações valiosas:
– O cenário para o candidato do governo (Pedro Paulo) é muito bom. Seu governo é aprovado, sua pessoa é aprovada e o povo se diz satisfeito, ou seja, não busca mudanças drásticas. A isso é necessário se somar um fato que nunca pode ser desconsiderado: Pedro Paulo tem, a princípio, a máquina administrativa ao seu lado.
Jorge Amanajás também goza de boa posição, principalmente porque também figura como uma espécie de “candidato da continuidade”. Se souber fazer uso do maior tempo de TV que possui, além de capturar “uma fatia” da máquina do Estado, pode assumir o posto de “candidato do governo”, mesmo sem estar no governo.
Considero a liderança de Lucas Barreto fruto, principalmente, do recall de 2008. Não o considero favorito porque ele não tem a máquina pública consigo, nem pode contar com um tempo de TV valioso (menos de dois minuto, o menor dentre os quatro principais candidatos). Além disso, a presença de Camilo Capiberibe na disputa pode “roubar” dele o discurso de candidato da mudança, principalmente em razão do passado de Lucas como aliado do atual grupo de poder.
Acho que Camilo Capiberibe deve chegar ao segundo turno, pois tem condições de capitalizar os votos daquele terço do eleitorado que tradicionalmente vota no PSB e na família Capiberibe. Se ele estiver mesmo com 17% das preferências agora, pode facilmente conseguir mais 10-12% de votos quando o horário eleitoral começar, principalmente porque ele tem um tempo de TV bastante razoável (mais de três minutos). Contudo, acho impossível que Camilo vença a eleição. Ainda que ele vá ao segundo turno, enfrentará um candidato que contará com o apoio de todos os outros, numa reedição da aliança de poder que ficou conhecida como “harmonia”. Na minha opinião, é impossível vencer algo assim.
A menos que aconteça uma reviravolta digna dos filmes de Hollywood, Waldez Góes está eleito para o Senado, com muitas chances de ser o mais votado. Isso porque a boa avaliação da administração atual (Pedro Paulo) é, também, uma aprovação, ainda que oblíqua, ao ex-governador. Por motivos que não consigo explicar, o povo está, em sua maioria, satisfeito com os últimos oito anos de governo. Penso que o quesito “construção de praças” tenha pesado na avaliação dos eleitores.
Considero remotas as chances de João Capiberibe e Randolfe de chegar ao Senado, pois estou convencido de que eles competem, principalmente, um contra o outro. Em outras palavras, pode-se dizer que ambos pescam votos na mesma fatia do eleitorado – a que se identifica com a esquerda. Além disso, pela forma como se construíram as alianças destas eleições, está evidente que se criou uma animosidade entre PSB/PT e PSOL. Assim, é natural que um lado esteja torcendo – e votando! – pela derrota do outro. Se Capiberibe realmente sair da disputa por conta da lei ficha limpa, acho que as chances de Randolfe aumentariam exponencialmente. Talvez não a ponto de lhe garantir uma das duas vagas, mas acredito que poderia chegar bem perto, caso não conseguisse.
– A dianteira de Lucas entre os que têm curso superior e entre os ganham os melhores salários mostra que sempre foi verdadeira aquela história de que ele é o preferido de determinada categoria da sociedade. Se ele souber fazer uso disso, acho que se torna um forte candidato, porque os aspéctos políticos passariam automaticamente a segundo plano.
– Para encerrar, digo que os número do Ibope, em estando corretos, não mudam o que eu sempre achei da realidade sócio-política deste estado. Meu pessimismo continua e acho que o Amapá está, sim, condenado a ser, durante muito tempo ainda, um pequeno rincão provinciano cercado de terceiro-mundismo por todos os lados. Também reforço minha descrença no processo eleitoral em si. Se me fosse dado escolher, ficaria em casa de bom grado no domingo eleitoral, pois nenhuma das opções postas me convence. Como afirmei em 2008, acho que o Amapá ganharia muito se observadores da ONU viessem acompanhar o pleito. Alguns soldados da OTAN para policiar o processo e garantir a segurança e, principalmente, as liberdades, também não fariam mal algum. Enquanto isso não existir, não consigo sentir confiança no processo. Mas isso deve ser um problema apenas meu, afinal a maioria esmagadora do povo, como mostrado acima, está satisfeita com a vida que leva. Eu, de minha parte, estou insatisfeito. Não só com a realidade do estado, mas com essas pessoas que, inexplicavelmente, agem como se vivessem num paraíso.
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4 ideias sobre “>Quebrando promessas: algumas considerações sobre a pesquisa Ibope no Amapá.

  1. Anonymous

    >A análise que você fez é interessante e reforça a minha perpecção de que a pesquisa não reflete a realidade, quer seja pela baixa amostragem, quer seja, talvez, pela dificuldade na coleta dos dados pelos entevistadores, sobretudo pelo antagonismo que se percebe, por exemplo, na avaliação do governo PP e do próprio governador. Decididamente essa não é a realidade que se vê. Abç e parabéns pela bem articulada análise. Mundico

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  2. Anonymous

    >Não é uma exclusividade do Amapaense se sentir feliz, é característica do brasileiro seja do sul ou do norte se sentir feliz.Infelizmente o Amapa não destoa da realidade brasileira em que a politica do "pão e o circo" satisfazem as necessidades do povo, diga-se que neste estado é mais acentuado.

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