>Um manifesto pela autodeterminação dos povos. Ou: a defesa do direito que tiranias têm de apedrejar suas mulheres.

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Jung Mo Sung é um sujeito curioso. Um legítimo representante daquela catiguria que decidi chamar de “humanistas de um lado só”. Ele é aquele tipo de sujeito que se revolta cada vez que um terrorista da Al Qaeda é morto por um soldado americano, mas que acha “legítimo” usar aviões burgueses para explodir prédios neoliberais e capitalistas no centro de Manhattan.
Por que ele é importante? Bem, ele não é. Ele é perigoso, isso sim! Para quem não lembra, Mo Sung é aquele sujeito que há coisa de dois anos atrás escreveu um texto onde defende que os casos de pedofilia dentro da Igreja Católica são decorrentes do celibato clerical. É um inovador! Um descobridor de novas teses, cada uma mais estapafúrdia que a outra. Em sua mais recente elocubração – vá lá… – “acadêmica”, Jung Mo Sung decidiu escrever um manifesto em favor da autodeterminação dos povos. Em outras palavras, ele defende o direito que tiranias fascistas, como o Irã, têm de matar suas mulheres a pedradas em praça pública. Transcrevo abaixo alguns trechos do que ele escreveu, intercalados com comentários meus em negrito. A íntegra, caso vocês tenham paciência (e estômago), está aqui.
Diante da reação internacional contra a pena de morte por apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana de 43 anos, viúva e mãe de dois filhos, por supostamente cometer adultério com dois homens, o governo iraniano modificou a acusação de assassinado do seu marido. Isto é, ela é culpada; precisa ser morta; não importam as provas ou tipo de acusação. 

Notem que ele parece inclinado a condenar a teocracia fascista governada por Ahmadinejad. Até usa a expressão “suposta”, para descrever a acusação existente contra Sakineh. Mas é só uma trapaça redacional. Logo ele muda o rumo das coisas:

Para o mundo moderno e principalmente para as sociedades ocidentais, é incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento por causa de adultério.


Exato! Ele tem toda razão. Para o “mundo moderno e ocidental”, é realmente incompreensível que uma mulher seja condenada à morte por apedrejamento. E isso não apenas para os casos de adultério, mas para quaisquer casos! O problema é que ainda há sociedades no mundo que admitem tal barbárie. A escolha moral a ser feita é: estamos certos nós, que repudiamos o horror, ou eles, que o praticam? Mo Sung fez sua escolha, como se verá em seguida.

Mas, de acordo com a legislação iraniana, é a lei. (…) E de acordo com a sharia, ou de acordo com a interpretação dada pelos líderes religiosos do Irã, o adultério é um dos crimes que devem ser punidos com apedrejamento até a morte.


Pois é… Assim como, de acordo com a lei vigente na Alemanha nazista, era permitido mandar judeus, homossexuais e ciganos para a câmara de gás. O sujeito começou a relativizar o horror e, mais rápido do que o leitor possa imaginar, estará caminhando de braços dados com ele.

(…) E diante disso, surge uma pergunta para nós: devemos interferir na religião do “outro” ou na legislação de um país soberano em nome de direitos humanos?

Eis aí. Ele se segurou durante dois parágrafos, mas chegou rapidinho no cerne da questão. Jung Mo Sung, um “progressista”, um humanista, alguém que, seguramente, não é conservador ou reacionário como este escriba, flerta abertamente com a defesa do horror em seu estado puro. Tudo por quê? Para defender a “religião do outro”; a “lei do outro”. Pouco importa que esse “outro” seja um regime fascista, e que a tal religião/lei determine a lapidação de mulheres. O que importa é difundir o sentimento da – como é mesmo que eles dizem? – “tolerância”. Sigamos.
Se interferirmos, promovendo ou participando de movimentos de pressão, não estaríamos ocorrendo na soberba de acharmos que sabemos melhor o que é a verdade e os valores religiosos islâmicos?
Não! Eu não me acho no direito de dizer quais são “a verdade e os valores religiosos islâmicos”. Deixo isso para os… islâmicos! É problema deles! Mas eu, pessoa livre do mundo democrático, defensor ferrenho das liberdades e garantias individuais, me acho, sim, no direito de apontar o dedo para o Irã e acusar o fascismo primitivo que há na sentença prolatada contra Sakineh. Isso afeta uma – sei lá… – “superioridade arrogante” em face de uma outra cultura? Que se dane! Os meus valores, os valores da civilização ocidental, são, sim moralmente superiores aos deles, afinal nós não apedrejamos nossas mulheres.


E notem que eu nem vou falar sobre a construção ridícula que é essa “estaríamos ocorrendo na soberba”… Eu poderia, por exemplo, perguntar como diabos alguém que se pretende professor faz algo assim, tão sem sentido. Mas o mérito do texto de Mo Sung é tão absurdo, tão declaradamente reacionário (ou deveria dizer “progressista?), que sua redação “sarneyziana” passa desapercebida.

(…) É em casos assim, bem concretos e polêmicos, que os valores abstratos como respeito à religião ou a cultura dos “outros” são provados ou questionados a fundo. (…)

Falso! O respeito à religião e à cultura dos outros não pode nos exigir a cabeça dos valores mais básicos que constituem a sociedade civilizada. Percebam: condenar o Irã porque apedreja mulheres em praça pública não é travar uma cruzada contra o islamismo, em nome do cristianismo e do ocidente. É, antes de mais nada, uma luta para defender os pressupostos mais básicos da civilização, aqueles que nos permitiram sair das cavernas e conviver em sociedade.

Há pessoas que dizem que essa lei não tem fundamento nos ensinamentos de Mohamed, nem no Corão e, que por isso, o mal não é do islamismo. (…) Contudo, os líderes religiosos responsáveis pela “interpretação correta” do islamismo e do Corão em Irã dizem que essa lei está de acordo com Corão e a vontade de Alá.


DANEN-SE OS LÍDERES RELIGIOSOS! Eles acham que a sentença está certa? Que sejam abatidos pelas bombas do mundo democrático e civilizado. É para isso, afinal, que elas existem: para proteger a civilização dos bárbaros que tentam, a todo momento, nos atirar de volta para as trevas do primitivismo. E que os pogreçistas nem tentem tergiversar diante de mim, argumentando que “militarismo não resolve nada”. Ah, resolve, sim! Foi ele quem colocou um fim em calhordas como Hitler a Mussolini, lembram? Pode perfeitamente dar conta de um bando de porcos chauvinistas de turbante.

(…) Na história do cristianismo ocidental, tivemos também casos parecidos, como da inquisição ou da caça às bruxas, que foram realizadas em nome do cristianismo, com apoio das suas autoridades religiosas e da parcela significativa do povo cristão.


A passagem acima trata-se de uma trapaça tão vil quanto previsível. Não, sujeito! Você não vai igualar a tradição ocidental à barbárie, por um simples motivo: as duas coisas são incomparáveis! Eu poderia ser ligeiro e dizer que a inquisição, uma chaga no coração da Igreja de Cristo, ocorreu há séculos e foi devidamente criticada por todos os foros possíveis do mundo, inclusive aqui, no ocidente. Já a lapidação de mulheres iranianas acontece agora, em pleno século XXI. E conta com a atuação de idiotas úteis, como Mo Sung, para emprestar suporte moral ao horror invocando essa aberração conhecida como “autodeterminação dos povos”. Mas isso, como dito, seria ser ligeiro. Prefiro is a fundo e dizer que o ocidente é, sim, moralmente superior a todo o resto simplesmente porque aqui a regra é a proteção do indivíduo, não seu apedrejamento em praça pública. Ou, ainda, porque aqui se garante a liberdade para que o indivíduo fale, inclusive, contra o próprio ocidente. E no Irã? O que aconteceria com quem levantasse a voz contra a lapidação de Sakineh? 

Se olharmos para a história, veremos que casos de apedrejamento ou punições similares das mulheres adúlteras não são raros. São punições exemplares e violentas para evitar este grande perigo à vida da comunidade.


Eu leio o que vai acima e me pergunto: onde estará a OAB? Onde estará o Ministério Público (alô, Luiz Francisco de Souza!), que não se interessa? Onde estão as várias ONG’s que se batem pelas árvores ou pelos filhotes das araras-azuis? Por que ninguém condena publicamente Jung Mo Sung por esse flerte ostensivo com o terror em seu estado puro? Quer dizer que punições como a imposta a Sakineh são comuns? Ora, isso não deveria relativizar o horror, sujeito! Deveria agravá-lo! Outra coisa curiosa: qual seria esse “grande perigo à vida da comunidade”? A mulher condenada a morrer apedrejada? Isso é nojento! É desumano! Não sei o que esse sujeito ensina nas escolas brasileiras, mas ele deveria ser mandado para Irã, onde seus textos serviriam de libelo acusatório para perigosas mulheres adúlteras, e de salvo-conduto para tiranias fascistas.

(…) Uma questão que devemos refletir é por que sempre são as mulheres que são as culpadas e condenadas? A resposta fácil de que é por causa do machismo não responde a questão porque não explica a razão desse tipo de machismo.


Viram que jênio?! Em vez de condenar a lapidação de mulheres em pleno século XXI, o valente sugere que não só as “perigosas adúlteras” deveriam ser apedrejadas em praça pública, mas também os “ricardões”. É mesmo um humanista! Pra que promover uma execução bárbara e sumária, se é possível promover duas? Abjeto! O sujeito é simplesmente abjeto!

No evangelho de João, temos um caso de apedrejamento de mulher adúltera (Jo 8, 3-11). (…) Ele [Jesus] não nega o erro do adultério, mas também não aprova o apedrejamento. O que me chama atenção é que ele não discute se a interpretação dada pelos escribas e os fariseus de que a lei de Moisés manda apedrejar a mulher adúltera está correta ou não. (…)


Uma pinóia! Como assim, “não discute a interpretação dos fariseus”? Jesus não só discute, como também estraçalha com ela! Ele deixou claro, ali, um dos pilares da sociedade civilizada e, por que não dizer, ocidental: as leis existem para servir aos homens, não o contrário. Isso porque as leis devem ser instrumentos capazes de compilar referências éticas e morais dos indivíduos, sendo inadmissível que existam em oposição a estas. Torturar as Sagradas Escrituras para tentar relativizar o horror só mostra de forma ainda mais clara a pequenez intelectual de Jung Mo Sung, um “humanista” que prefere se indagar sobre o porquê de não se se apedrejar homens no Irã, em vez de levantar a voz contra o apedrejamento de mulheres. Eu, preso aos meus valores morais, prefiro que ninguém seja apedrejado em praça pública, o que me torna – vejam que coisa! – um conservador. São estes tempos modernos em que vivemos… Progressista e bonzinho mesmo é Jung Mo Sung.

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