>O começo do horário eleitoral e "a escolhida d’O Escolhido".

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Ontem foi o primeiro dia do malfadado “horário eleitoral gratuito”, que de gratuito não tem nada, como todos sabemos. Trata-se de mais uma jabuticaba típica da política brasileira, que não contribui em nada para o amadurecimento do processo democrático. Ou alguém aí acha que ver os candidatos desfilando jargões e promesas vazias no horário nobre favorece o país?
Os programas de ontem foram, em linhas gerais, mornos. Nenhum surpreendeu, nenhum trouxe um fato novo à campanha. Ficou cada um na sua, cantando as próprias “glórias”. Entre os chamados “nanicos”, merece nota o candidato do PCB – sim, ainda há um partido comunista no Brasil! -, capaz de pedir votos para… fazer a revolução! Ah, não! Quer revolução? Se veste de homem, pega o trabuco e vai pra rua matar a burguesia. Revolução feita com votos obtidos dentro do processo democrático? Piada, né?
Também merece nota o “bom velhinho” Plínio de Arruda, que escolheu o melhor fundo musical de todos os candidatos: a batida inconfundível da música “We’ll rock you”, do Queen. Uma escolha, diga-se, um tanto capitalista e burguesa… Mas incontestavelmente acertada! Muito melhor que o jingle salvacionista de Dilma e que o “pagode do Zé”, de Serra – falarei sobre eles logo.
Marina Silva é a maior decepção desta eleição. Disparada! Ensaiaram tanto uma campanha triunfalista bem ao estilo “Yes, we can!”, mas acabaram apelando para a pregação barata da Igreja do aquecimento global dos últimos dias. O recado transmitido pela candidata do PV foi exatamente o inverso: o mundo tá ferrado mesmo e não dá pra fazer mais nada. Faltou só o “CORRE, NEGADS!”, pra completar.
Quem acompanhou as entrevistas de Marina, ficou com a impressão que estava sendo desenhada uma nova personagem arrimada na retórica do “oprimido-que-venceu”. As cartas pra fazer esse discurso ela tem: é mulher, negra (bem, negra ela não é…), de origem miserável e, o que é mais importante, tem discurso progressista. Tudo bem previsível, apontando na direção da salvadora do mundo. Em vez disso, a campanha dela resolveu surpreender. E conseguiu! Só que surpreendeu negativamente. Marina, toda de preto, lendo um texto que mais parece ter saído da cabeça de Al Gore, não transmite apelo eleitoral nenhum. “Ah, mas a eleição é o de menos! O que conta é a causa.”, dirão os “marinófilos” do momento. É, pode ser… Sendo assim, eu estava certo quando disse que Marina não deve buscar a Presidência, mas a canonização…
Serra claramente escolheu focar num tema preferencial ontem: a saúde. Faz bem, afinal trata-se da maior preocupação dos brasileiros, e de uma área na qual ele conseguiu bastante destaque – inclusive internacionalmente. Pelo formato escolhido, suponho que vários temas devam ser abordados nos programas seguintes, para evitar o risco de Serra se mostrar um candidato monotemático. Em outras palavras, a saúde é importante, sim. Assim como o são a educação e a segurança pública, por exemplo.
O estilo do programa mostrou algo que defino como “Serrinha paz e amor”. Não me agradou lá muito, não… Não houve nenhum tipo de confronto ético-ideológico com os adversários. Pelo contrário até: a campanha de Serra escolheu aquele que considero o pior jingle eleitoral da históriadessepaiz! Francamente, me parece até óbvio: com apenas sete minutos de TV – três a menos que a principal adversária! -, não se pode desperdiçar tempo falando de Lula.
Como pontos positivos da campanha de Serra, destaco: 1) o profissionalismo do que foi apresentado, retratando números e propostas concretas; 2) a objetividade da linguagem, optando sempre por frases simples e curtas, bem acessíveis ao público.
Mas é evidente que vi mais pontos negativos: 1) A apelação pra retórica da “origem humilde” está fora de lugar. Lula já se apropriou disso pra todo o sempre! Além do mais, devo concordar com o NPTO, que lembra a origem humilde hors concourse da Marina; 2) O jingle escolhido é um desastre! Primeiro erra ao trocar o conhecido “José Serra” por um desconhecido – e sem graça – “Zé”. Essa tentativa de popularizar o tucano a qualquer preço não trará bons frutos. Nunca é demais lembrar que o PSDB cometeu o mesmo erro ao trocar “Alckmin” por “Geraldo”, em 2006; 3) A escolha dessa retórica ancorada apenas no “pós-Lula”, abrindo mão de qualquer tipo de confronto político com o governo atual é estrategicamente errada. “Mas Lula tem 80% de aprovação!”, berram os “especialistas” em política. Sim, e Dilma tem a metade disso em intenções de voto. A lógica é clara: muita gente que aprova o governo Lula não está votando automaticamente em Dilma; 4) Há brasileiros que rejeitam a corrupção, o aparelhamento do Estado, os laços do PT com as FARC, com Chávez, com o Irã e com o narcotráfico. É essa gente que se sente órfã de um discurso de oposição. No primeiro turno de 2006, Alckmin conseguiu conquistar esses votos. Serra parece ter decidido virar as costas para eles.
O programa de Dilma foi aquele esteticamente mais bem acabado. A escolha do PT é clara – e parece irreversível: apostar no triunfalismo e na emoção, na tentativa de encerrar a disputa já no primeiro turno. Talvez por isso a enorme exposição de Lula, que ocupou metade do tempo total. A mensagem era uma só: Lula é o escolhido, e escolheu Dilma para sucedê-lo.
Não preciso lembrar a ninguém que não voto em Dilma nem gosto do PT. Quem me lê sabe disso. Por isso não preciso afetar aquele “isentismo” típico da canalha que escreve a pagamento. Posso dizer sem medo de ser considerado “inimigo do PT”, que o programa de Dilma apelou de forma obscena para o rebaixamento das instituições democráticas, tratando o povo como mera mercadoria, como propriedade de Lula. Vejam, por exemplo, o jingle tocado no final do programa, cuja letra transcrevo abaixo:
Deixo em tuas mãos o meu povo
E tudo o que mais amei
Mas só deixo porque sei
Que vais continuar o que fiz
E meu país será melhor
E o meu povo mais feliz
Do jeito que eu sonhei e sempre quis
(…)
Agora as mãos de uma mulher vão nos conduzir
Eu sigo com saudade, mas feliz a sorrir
Pois sei, o meu povo ganhou uma mãe
Que tem um coração que vai do Oiapoque ao Chuí
Lembram que classifiquei o jingle de Serra como o pior da históriadessepaiz? Pois esse de Dilma é, sem sombra de dúvida, o pior da história do universo tal qual o conhecemos! “Meu povo”?! Lula é um megalômano! Ele não deveria estar na Presidência. Deveria estar em um manicômio! Percebam que o que vai acima não deixa margem para qualquer dúvida: o discurso do PT é fascista! O “grande líder” se apropriou da sociedade e a substituiu por um objeto, algo do qual pode dispor livremente – inclusive repassando ao sucessor.
Reinaldo Azevedo foi ao ponto ao sintetizar a ideologia petista revelada no programa de ontem:
– Nas democracias, é o povo quem passa o poder adiante; no regime lulo-petista, é o mandatário quem tenta passar o povo adiante;
– Nas democracias, o povo é sempre o sujeito; no regime lulo-petista, o povo é só objeto direto;
– Nas democracias, o povo concede o poder ao mandatário; no regime lulo-petista, o povo é concedido ao mandatário — só é sujeito na voz passiva…
Eu, que não costumo dar a menor bola para essas estratégias marqueteiras, tenho uma ótima sugestão para o horário eleitoral tucano: reprisar o clipe final do programa de ontem da Dilma, inclusive com essa música fascistóide que eles escolheram, alternando com aquela música chamada “Vida de gado” (acho que é esse o nome…), do Zé Ramalho. Duvido que o brasileiro goste de ser tratado como gado. Cumpre à oposição deixar de #mimimi e mostrar que é isso que o PT está tentando fazer!
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