>"Operação mãos limpas": Falando à Veja, governador em exercício ameniza denúncias.

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O governador em exercício do Amapá, Dôglas Evangelista, concedeu entrevista à Veja. Reproduzo abaixo alguns trechos (a íntegra está aqui):
Dôglas Evangelista não quer problemas. Aos 66 anos, o presidente do Tribunal de Justiça do Amapá afirma que vai trabalhar para manter o status quo no estado que teve o governador, a primeira-dama, um ex-governador, o presidente do Tribunal de Contas e três secretários de estado presos durante a Operação Mãos Limpas, da Polícia Federal. Em entrevista a VEJA.com, o governador interino contemporiza as denúncias contra os principais envolvidos no caso. E defende a volta de Pedro Paulo Dias (PP) ao cargo.

O senhor vai usar o governo para sanar as irregularidades ou apenas impedir que a máquina pare?
O ministro João Otávio Noronha [relator do caso no Superior Tribunal de Justiça] pediu que eu assumisse e colocasse gente da minha confiança nos postos-chave. Exatamente para que mantivesse o status quo. Muitas coisas ainda estão sendo investigadas, então deixa como está até o governo retornar. Acho que o governador tem que retornar e fazer um levantamento dos contratos. O governador não é ordenador de despesa nenhuma, são os secretários. uma secretaria é de um partido, outra de outro. E todo mundo trabalhando dentro da secretaria para eleger alguém. As empresas beneficiadas são as que bancam a campanha. Desde a época do Capi [João Capiberibe, do PSB], que governou o estado (1995 a 2002).

(…) Acha que pode ter havido influência política nessa operação?
Não acredito. O ministro diz que só foi possível realizar a operação agora. Foi um trabalho minucioso da Receita Federal e outros órgãos. Eles tinham de elaborar laudos de movimentação financeira, o que é demorado. Dizem que essa operação iria acontecer em julho, mas não deu certo. Teve que ser adiada para agora. O ministro não me disse o motivo, mas disse que não podia ser depois das eleições.

(…) Além dele, o prefeito Roberto Góes (PDT) também foi levado para depor à Polícia Federal.
Mas foi coisa banal. Tem um deputado que é brincalhão e, telefonando, falou: “o Roberto arranjou uma linha de ônibus pra fulano, e eu que não ganho uma?” Mas era de brincadeira. Eles também fizeram um aparato e acharam uma arma lá. Quem é que não tem uma arma em casa? Eu mesmo tenho a minha. Mas está tudo registrado.

Comento:
Com todas as vênias de estilo, acho que algumas colocações ficaram um pouco fora de lugar, o que pode acabar contribuindo para gerar incertezas do ponto de vista democrático. Vejam, por exemplo, essa história de “manter o status quo. Sinceramente, acho que não pega bem… Essa expressão tem como origem o aforismo latino que diz “in statu quo res erant ante bellum”, cujo significado é “no estado em que as coisas se encontravam antes da guerra”. Quero crer que o governador em exercício não defende a volta das coisas ao estado anterior à “guerra”, sendo que a “nossa guerra local”, metaforicamente falando, foi a “Operação mãos limpas”. Meu ponto é bem simples: a meu ver, não estamos num momento que receba muito bem uma expressão como “manter o status quo“. Do jeito como as coisas foram colocadas, acaba parecendo que o Estado está pressuroso por ver tudo como dantes – o que, acredito, não é verdadeiro.
Também me chamou especialmente a atenção o trecho em que o governador em exercício diz que as secretarias são loteadas (“uma de um partido, outra de outro”), e que lá as pessoas trabalhariam “para eleger alguém”. Pergunto: se as coisas realmente se dão dessa forma, não foi de fundamental importância a ação da Polícia Federal? Não era imperativo atuar para interromper tais práticas, flagrantemente contrárias à democracia e ao sistema de liberdades individuais? Ora, evidente que era! E, justamente por conta disso, aquela colocação inicial, referente a “manter o status quo“, não parece bem colocada no contexto, afinal o “status quo” do Amapá, segundo o que foi apurado pelo STJ e pela PF, era o aparelhamento desenfreado da máquina pública…
Concluiundo, falo rapidamente do final da entrevista, onde o governador em exercício fala do prefeito de Macapá, Roberto Góes. “Quem não tem uma arma em casa?”, perguntou Dôglas Evangelista. Bem, governador… eu! E, acredito, muitas outras pessoas. Aliás, arrisco-me a dizer que a maioria das pessoas não tem uma arma em casa. E, as poucas que têm, são obrigadas a registrar o armamento, a fim de não estar em situação de ilegalidade. O prefeito, segundo informação dele mesmo, não havia registrado a arma encontrada pela PF. Bem, não havia opção que não levá-lo a prestar esclarecimentos, não? É o que diz a letra da lei… E ela vale pro prefeito!
Eu entendo que a preocupação maior do governador em exercício seja manter o Estado funcionando, e tentar conter a sangria que se verifica nele. Até elogiei, alguns posts abaixo, a decisão dele de suspender todos os pagamentos a cargo do governo. Mas acho que as recentes entrevistas dele se mostraram um tanto apressadas no sentido de acalmar os veículos de comunicação de fora do Amapá, levando a algumas colocações que, a meu ver, não foram muito felizes. O mais urgente é, creio, garantir as liberdades e as instituições democráticas. São os fundamentos do Estado democrático de direito que precisam de proteção neste momento.
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5 ideias sobre “>"Operação mãos limpas": Falando à Veja, governador em exercício ameniza denúncias.

  1. Anonymous

    >Sinceramente, esse cidadão mais parece advogado de defesa dos réus que juiz. É preciso, como juiz, manter a imparcialidade. Triste Amapá, apodreceu.

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  2. Yashá Gallazzi

    >Ele não falou como juiz. Não "está" mais juiz, logo não se pode cobrar dele a inércia e a imparcialidade próprias do judiciário. Os princípios e as funções, agora, são outros. Também acho que as colocações foram um tanto infelizes e ficaram deslocadas do sentimento predominante na sociedade daqui.

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  3. Rodson Juarez

    >A "DESCOBERTA" DA RODA.Fico bobo de ver como essas megaoperações da PF apontam coisas que todos já sabemos. Fica, ao meu ver, evidente a exposição dos presos (mesmo que de forma provisória) para a (des) construção de uma imagem.Não que seja um conformismo torcer para que novas prisões não ocorram, mas prefiro confiar na existência de nosso sistema e no regime de Estado de Direito Democrático.A letra da lei é morta se não pela hermenêutica do jurista e do legislador (eleito para represnetar oligarquias – não tem jeito).Assim, grandes exposições evideciam o uso do mpoder público maior para abafar pessoas e poderes menores.Seja feita a JUSTIÇA, não em respostas ao mais couupto sentimento popular, mas em resposta ao devido processo legal já instituido.JUSTIÇA!!!!

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  4. Rodson Juarez

    >Ah!O des. Dôglas Evangelista deixa de estar no judiciário, passando a executor. Muito de seu comportamento imparcial vai ter que ser deixado de lado para que o mínimo status quo (bom ou ruim) seja mantido. Agora esperamos a impessoalidade do administrador público Dôglas, que pode ser quem termine o mandato de governador (caso se repita o ocorrido com Arruda no DF).

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  5. Anonymous

    >esperamos que termine o periodo em quem nós amapaenses não tínhamos para quem recorrer, pois tudo era controlado por eles. já sentir vontade de reclamar, mas… reclamar para quem.fico triste que mesmo diante de tantas provas colhidas pela PF alguem ainda deseje a volta deste "povo" .

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