>Tropa de Elite II.

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Vi Tropa de Elite II já há alguns dias, e decidi, no exato momento em que saí do cinema, que escreveria uma resenha sobre o novo filme de José Padilha. Fiquei vários (muitos!) dias pensando a respeito, cuidando de encadear da melhor forma possível as idéias sobre a obra. E acabei demorando demais… Fica difícil escrever qualquer coisa, agora que o Reinaldo Azevedo já disse tudo o que eu queria ter dito… Mas eu sou teimoso, né? Fazer o quê… Vou deixar registradas minhas impressões principais sobre o filme mesmo assim.
De cara, devo dizer que Tropa de Elite II não foi melhor que o primeiro filme da série. E podem começar a tacar as pedras, que não mudarei de idéia mesmo sob o risco fortíssimo da lapidação. Tropa de Elite I foi um primor sob todos os aspectos. Além de trazer um roteiro muito bem construído, e um formato inovador para o padrão brasileiro de cinema, o filme tinha uma sacada espetacular, que era a própria razão do seu estrondoso sucesso: o fim da glamurização do bandido.
No primeiro filme, Padilha aplicou – se me permitem recorrer ao clichê – um tapa na cara de toda a sociedade, ao escancarar a relação de cumplicidade que existe entre o consumidor de drogas e o horror existente nas favelas, decorrente da existência dos traficantes. A cena onde o então Capitão Nascimento esbofeteia um rapaz da classe média carioca, dizendo que foi ele – não a polícia – quem matara um traficante favelado, é antológica! Ali se encerra toda a verdade, apenas a verdade e nada mais que a verdade.
Tropa de Elite I, vocês devem se lembrar, foi atacada por todo o establishment progressista e politicamente correto do país. Disseram que o filme de Padilha era “fascista”, “reacionário” e, em alguns casos, até mesmo “de direita”. Por quê? Porque mostrava a personagem principal comandando um batalhão que era, segundo as palavras do filme, “uma máquina de guerra implacável”. Daí as cenas fortíssimas de tortura e de violência, que, dizia-se, escandalizaram os decorosos intelectuais brasileiros.
Besteira! O que doeu fundo na alma dessa gente não foi o saco plástico na cabeça dos traficantes. Que nada! O que machucou mesmo os sentimentos deles foi a construção de uma trama sustentada em dois pilares fundamentais: 1) a ruptura clara e incontroversa com o “bom-mocismo” da bandidagem nacional; 2) a exposição da relação espúria existente entre aquela bandidagem e aquilo que chamo de “filosofia progressista”, sempre pronta a justificar a delinquência valendo-se dazinjustiça çoçial.
O segundo filme de Padilha rompe bastante com essa linha de ação e inaugura praticamente uma obra nova, que guarda muito pouca – quase nenhuma… – relação com a anterior. Em Tropa de Elite II, Roberto Nascimento não é mais Capitão, mas Coronel. Ele não comanda mais uma unidade do Bope, mas toda a corporação dos “homens de preto”. E o começo do filme é até alvissareiro, levando o espectador a crer que mais clichês serão destroçados a golpes frios de realidade crua.
É o que acontece quando, diante de um confronto entre facções criminosa dentro do presídio de Bangu, Nascimento conta à platéia que, dependesse da vontade dele, todos poderiam se matar entre si. Mas que na prática isso não seria possível, pois “tem muito intelectualzinho de esquerda que gosta de bandido. Que precisa deles”. Bingo! É exatamente isso! O que seria, pois, do progressismo brasileiro, se não tivesse mais nenhum bandido pra chamar de seu? Já cansei de dizer aqui: quem gosta de bandido é cientista político, sociólogo e professor universitário. Pobre gosta é de polícia! E isso fica claro quando, em outra passagem do filme, Nascimento entra em um restaurante para falar com a cúpula da segurança pública fluminense e é ovacionado pelos clientes ali presentes.
Notem bem: não se trata de discutir os valores pessoais que movem a personagem Roberto Nascimento. Nem de dizer que o contraponto à intelectualidade progressista que carrega bandidos no colo seria a ação brutal do Bope. Nada disso! O que quero é mostrar que há, de fato, um casamento escancarado entre a ideologia progressista e a imagem do “bandido-oprimido”, pois uma não vive sem a outra. A personagem Alberto Fraga, em Tropa de Elite II, só pode construir seu discurso contra azinjustiça çoçial e o “sistema”, porque apela para o clichê rasteiro de que só há presos e favelados na cadeia porque os “engravatados” ficam fora dela. Ele vai além: em várias passagens do filme chega mesmo a criar uma lógica segundo a qual os pobres e favelados não precisariam estar pressos, caso o “sistema” fosse mais “justo”.
E aqui chegamos o cerne da nova obra de Padilha. Como ele mesmo fez questão de ressaltar no título, “o inimigo agora é outro”. Qual? Essa coisa genérica e abstrata chamada de “o sistema”. E é justamente aí, a meu ver, que a coisa sai dos trilhos…
Fiquei com a nítida impressão que Padilha, um sujeito que está a anos-luz de ser um conservador, se deixou tocar pela patrulha que tomou de assalto o primeiro filme da série. Para um sujeito que se reconhece ideologicamente no campo progressista (e Padilha é assim), ser chamado de “fascista”, “reacionário” e “direitista” não é fácil. A coisa, porém, ganha contornos dramáticos quando lembramos que neste país, onde a maioria dos artistas volta e meia acaba precisando recorrer ao Estado em busca de financiamento, qualquer afronta ao consenso progressista, ainda que oblíqua, pode significar ser queimado numa fogueira pública. Regina Duarte e Wilson Simonal que o digam…
Padilha, assim, acabou prestando um tributo ao consenso progressista e politicamente correto ao fazer Tropa de Elite II. Nele, Roberto Nascimento, transformado em burocrata estatal (ele vai acabar trabalhando na Secretaria de Segurança Pública), tem uma espécie de epifania e descobre que o problema não são os bandidos dos morros, mas “o sistema”. Mas o que seria esse “sistema”? Bem, isso o filme não responde, apesar de que uma tomada aérea da Esplanada dos Ministérios dá ao espectador uma boa idéia do que seja o tal “sistema”…
A verdade, é que ao mudar de inimigo, escolhendo como algoz do mundo “o sistema”, Padilha fez uma escolha de ordem moral: retirou o crime da esfera individual e passou a tratá-lo como consequência de um mundo perverso controlado por forças poderosas que encontrariam sua síntese no tal “sistema”. Trata-se de um erro colossal! Ninguém é bandido porque “o sistema” quer assim. Alguém só é bandido porque – vejam que coisa! – escolheu sê-lo! Isso é uma posição muito “de direita”? No Brasil atual, pode-se dizer que sim. Mas isso só serve pra ilustrar a gigantesca inversão de valores morais que assola nossa sociedade.
Acreditar que “o sistema” é responsável pelas mortes decorrentes do crime organizado, é tirar a responsabilidade do sujeito que puxa o gatilho para assassinar alguém a sangue frio. Isso está errado! Escolher o caminho do crime é, antes de mais nada, o resultado de uma opção individual e moral. É o indivíduo que escolhe delinquir, não um ente abstrato (como “o sistema”) que o leva a tanto. Negar isso é flertar com a luta de classes, que ainda hoje insiste em dividir a sociedade em opressores e oprimidos. Qual o corolário de tal construção? O oprimido – a vítima – pode sempre justificar suas ações invocando as injustiças praticadas pelos opressores. Daí decorre a falácia de se buscar “razões sociais para a violência”, como se o ato do criminoso não fosse um ato… dele! Eu insisto: a sociedade não tem culpa se alguém decide enveredar pela seara da criminalidade. Continua sendo apenas uma escolha pessoal, nada mais.

Nascimento, que ao longo do filme parece surgir como antítese do deputado Fraga, para quem um baseadinho deve ser desculpado e só “o sistema” é culpado por todos os males do mundo, termina o filme de joelhos, prestando continência ao “ativista social”.

Notem bem: não se trata de desmerecer a luta do deputado contra as milícias. Minha crítica à personagem Diogo Fraga é muito mais de natureza ideológica: não são as milícias que obrigam os pobres da favela a escolher o crime. Nem elas que forçam a polícia a ser corrupta, ou os políticos a escolher a corrupção. Essa é só a leitura torta feita a partir dos rabiscos de Foucault, num coquetel explosivo que mistura ainda Marilena Chaui e Emir Sader. O mais novo filme de Padilha, aliás, só se chama Tropa de Elite II porque pega carona no sucesso retumbante que foi o primeiro da série. Não fosse assim, poderia perfeitamente se chamar Diogo Fraga, uma história de luta pelo povo. E seria visto entusiasticamente nas melhores (“piores”?) universidades do Brasil…

O problema, porém, persistiria: sempre que se luta “pelo povo”, o indivíduo acaba de alguma forma subjugado. E aí, caros, estamos a um passo da barbárie. “Não haveria totalitarismo não fossem as massas e suas rebeliões”, me ensinou Ortega y Gasset. Em Tropa de Elite II, Padilha vai de encontro a esse conceito e desiste da responsabilização individual em nome de falar do tal “sistema”.

Numa das melhores passagens, Nascimento se mostra descrente, como se fosse impossível mudar “o sistema”. Ele está corretíssimo! Não se pode mudar o que não é tangível nem concreto. “O sistema” não pode ser derrotado, mas o indivíduo que decide ser bandido – seja ele favelado ou político -, sim! E aí está a contradição insuperável que relega Tropa de Elite II ao rol dos filmes comuns.

Em outras palaras, o Roberto Nascimento do primeiro filme pegaria o do segundo pelo colarinho, lhe daria uns bons tapas e diria: “tira essa roupa preta que tu é moleque!” E aqui, rendo homenagem à interpretação sempre brilhante de Wagner Moura. Foi ele que, com sua atuação angustiada ao longo de todo o segundo filme, me levou a concluir que a pior tragédia de Nascimento não foi se render ao “sistema”. Foi, antes, se esconder atrás dele, aceitando que essa abstração sirva como justificativa para os males da sociedade, sobrepondo-se aos indivíduos.

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