>Alguns comentários sobre a prova do vestibular da Universidade Federal do Amapá.

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Encontrei na internet a prova discursiva aplicada na segunda fase do vestibular da Universidade Federal do Amapá. Triste… Além de apresentar um nível absurdamente baixo, com questões primárias, o conteúdo da prova também vem recheado de dirigismos ideológicos, quase que “forçando” o aluno a se expressar como um progressista. Vejam abaixo, por exemplo, um print da prova de redação (clique na imagem para ampliar):

Notem o destaque em vermelho feito por mim, bem ao final da imagem. Um dos textos apresentados pela Unifap aos vestibulandos foi publicado no portal Vermelho. E daí? Bem, pra quem não sabe, trata-se de “uma página mantida e gerida pela Associação Vermelho, entidade sem fins lucrativos, em convênio com o Partido Comunista do Brasil – PCdoB (vejam aqui).
“Ah, então uma prova de vestibular não pode apresentar aos estudantes textos partidários?”, podem perguntar alguns. Ora, claro que pode! Meu problema não é que o texto seja originário de um portal declaradamente ligado ao PCdoB. Meu problema é que tal informação seja omitida! E é impossível negar que isso faz muita diferença, afinal uma opinião partidária será sempre o reflexo de um projeto político de poder.
Há mais coisas curiosas. Vejam, por exemplo, uma das perguntas da prova de geografia:

Só o tal – vá lá… – “poema” já rende material suficiente para um tratado acerca do primitivismo argumentativo de certo pensamento brasileiro. Isso para não mencionar que chamar o que vai acima de “poema” só pode ser uma licença poética… Mas deixemos de lado a aparência do negócio, e cuidemos do conteúdo:
Atentem para o final do “poema”, onde o autor indaga: “Quem não trabaia na roça / Que diabo é que qué com terra?” Bem, a resposta é mais simples do que se imagina: talvez produzir grãos em larga escala, para levar comida aos supermercados brasileiros; ou para manter a balança comercial brasileira superavitária…
Dizer que só pode ter terra quem “trabaia na roça” é um conceito, na melhor das hipóteses, primitivo… Por que impedir que tenham terra também os que produzem e geram empregos na “roça”?
Notem ainda o trecho destacado em vermelho, na última linha: “Cite e explique uma política governamental relacionada ao desenvolvimento da Reforma Agrária no Brasil.” O que a Unifap quer? Selecionar os alunos intelectualmente mais preparados, ou aqueles que melhor conhecem os programas do governo do PT? Percebam que a prova em momento nenhum abre espaço para que o vestibulando critique a tal política governamental. Os elaboradores das questões foram bem objetivos: “Cite e explique”.
Sou só eu, ou mais alguém acha que seria muito mais produtivo instigar o aluno a discorrer sobre o que ele pensa acerca da reforma agrária? Quiçá indo além e rompendo o senso comum, deixando-o discorrer acerca da efetiva necessidade dela… Assim se fazem debates acadêmicos sérios, abertos a realmente todas as visões. Não exigindo que tenha sido lida a cartilha do PT.
Ainda na prova de geografia, encontra-se o seguinte:

Novamente o estudante é direcionado. Uma vez mais lhe são postos antolhos, para evitar que ele ouse escapar do “pensamento padrão”. Percebam que a questão é muito clara: a construção de barragens “poderá trazer consequências desastrosas”. Sim, claro que poderá! Qualquer empreendimento poderá sempre levar a isso, ora. Mas também poderá trazer consequências boas, não é mesmo?
“Ah, mas você está defendendo a depredação ambiental!” Uma ova! Estou é dizendo que uma universidade deve sempre fomentar o debate acadêmico, não cerceá-lo! Uma questão de tal natureza, relacionada a uma obra de tamanha envergadura, deve ser tratada com hoestidade intelectual, pondo-se na mesa todos os pontos, não apenas os negativos. O debate franco é preterido à doutrinação e ao dirigismo. E depois não se entende por que o nível das universidades brasileiras é tão baixo…
Enquanto o verdadeiro debate acadêmico for evitado no Brasil, apresentando-se apenas as linhas de discussão que agradam ao establishment universitário – majoritariamente influenciado pelo pensamento progressista -, não será possível esperar amadurecimento intelectual verdadeiro na elite da sociedade.
Não é sem motivo que o Brasil nunca viu um prêmio Nobel. Nem parece próximo de ver… Para se ganhar um Nobel, é preciso produzir conhecimento. E isso não se consegue tendo uma formação direcionada eminentemente para a doutrinação, não para o verdadeiro aprendizado.
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Uma ideia sobre “>Alguns comentários sobre a prova do vestibular da Universidade Federal do Amapá.

  1. João Pedro Mello

    >E eles ainda tem a coragem de colocar essa prova na internet pra todo mundo ver?Doutrinação esquerdista ("progressista" significa progresso, e não qualquer outra coisa) desvia os estudantes da única coisa importante no meio acadêmico: produzir e adquirir conhecimento.

    Resposta

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