>A (nova) eleição de Sarney ajuda a entender o marasmo da política brasileira.

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E eis que Sarney foi novamente eleito para presidir o Senado. Ele não “desejava o encargo”, tadinho… Mas como um valente filho da p… pátria, desses que “não foge à luta”, aceitou. Dizer o quê? Ele também tem que fazer uns sacrifícios de vez em quando, né? Da mesma forma que todos os leitores do país não desejavam ver os livros desse sujeito publicados, mas tiveram de aceitar tal realidade, o bigodudo mais famoso desta republiqueta bananeira também se imolou em sacrifício.
Pessoalmente, já desisti de entender de onde vem essa sobrevida política interminável de Sarney. Para ser mais claro, penso exatamente como Millôr Fernandes: Sarney deveria sofrer impeachment só por ter escrito aquele horror chamado “Brejal dos guajás”, um apanhado literário tão rasteiro, que faz Bruna Surfistinha (uma puta escritora!) parecer Jane Austen. Mas divago…
Que Sarney pretenda se manter no centro do poder, década após década, é absolutamente compreensível. Os irmãos Castro também querem. Kadafi também quer. Mubarak, lá no Egito, está tentando de tudo pra conseguir permanecer aboletado no poder, também. É da natureza deles, ora. A pergunta é: como conseguem?
Os irmãos cubanos, o líbio e o egípcio partiram pro jeito mais fácil: controle das Forças Armadas + golpe de Estado + matança geral de opositores = poder eterno. Mas e Sarney? O maranhense, tão querido em sua terra natal que precisou do Amapá para se eleger senador, ganhou da “indesejada das gentes” a Presidência da República, esteve ao lado de Collor, participou de uns dois terços do governo FHC e terminou caindo nas graças do lulo-petismo, ao declarar apoio ao apedeuta, em 2002. É um homem de valores; de princípios. Tem tantos, que sempre encontra um capaz de se adequar ao governo de plantão…
Depois de ter sido chamado de “bandido” por Lula e pelo PT, formou com a turma da estrelinha uma – para citar Dilma – simbiose perfeita, capaz de fazer frente à combinação Eddye Brock + parasita alien, que deu origem ao Venom.
O sujeito capaz de escrever um livro narrando as – como direi? – “peripécias” de uma prostituta cujos “mamilos excitavam até os cães” (ECA!), chegou à presidência do Senado contando com o apoio escancarado do governo Lula, e foi reconduzido, hoje, na condição de preferido de Dilma e do PT.
Aliás, não pensem que a união entre petistas e Sarney é coisa estratégica; de momento. Que nada! É coisa sincera, do tipo “PT e Sarney, a amizade nem mesmo a força do tempo poderá apagar. Amor verdadeiro!” Aqui no Amapá, por exemplo, é conhecido o episódio no qual o maranhense foi recebido na cidade pela cumpanherada da estrelinha aos gritos de “Sarney, guerreiro, do povo brasileiro!” Se isso não é prova de amor, meus caros, o que mais seria?
Na vitória de hoje, Sarney conquistou 70 votos. Pode comemorar a adesão em massa do PT, cujos senadores “fecharam questão” em torno do nome dele. Eis aí o grande legado do pogreçismo brasileiro: ter sido responsável por bancar a sobrevida política de Sarney. Guarde essa informação, amigo reacionário, e esfregue-a na cara daquele amigo esquerdista públicogratuitoedequalidade quando ele começar com a cantilena de que “o PT veio pra romper cá zelites”.
O mais curioso, contudo, foi o fato de Sarney ter contado com a maioria esmagadora (senão com a totalidade…) dos votos de PSDB e DEM. O ridículo da política brasileira é tão gigantesco, que os dois principais partidos de oposição ajudaram a eleger o candidato escolhido pelo… governo! É fascinante! Desafio alguém a me apontar um único país civilizado do mundo onde algo semelhante tenha ocorrido.
Já imaginaram nos Estados Unidos o líder dos Republicanos dizendo que o partido dará seus votos ao escolhido de Obama, afinal o importante seria fazer uma “oposição responsável”? Ou então os Trabalhistas britânicos fechando questão em torno do candidato conservador porque, afinal, seria necessário uma “oposição propositiva”? Pois é, é impossível algo assim lá por aqueles lados…
“Poxa, mas será que eles não estão errados ao ser tão radicais? Não é mesmo importante uma oposição responsável?” É… Vai ver o primeiro mundo está mesmo errado, e certo está o Brasil. Por isso eles vivem na miséria, estudam em escolas vagabundas e nunca ganharam um prêmio Nobel, ao passo que esta vigorosa República… OH, WAIT!
PSDB e DEM tinham a obrigação moral de NÃO VOTAR EM SARNEY! Pouco importa se tivessem escolhido o candidato do PSOL, ou preferido votar em branco, nulo, ou ainda se abster. O importante era marcar posição e de forma clara honrar os mais de 44 milhões de votos que receberam em 2010.
A política brasileira não mergulhou num abismo porque o país é governado por uma ex-terrorista, eleita por um partido que emprestou apoio moral a todos os facínoras do mundo. O problema de fundo é muito mais grave. É de valores morais.
A classe política nacional – com algumas honrosas exceções – mostra que perdeu em algum lugar do passado aquele filtro formado a partir dos princípios civilizacionais mais básicos, que permitiu ao homem se erguer sobre os membros posteriores e evoluir. A noção do que é “certo” e do que é “errado” ficou pra trás, esmagada por interesses os mais escusos.
Neste dia sombrio em que mais um mandato de Sarney se inicia, sem que o escândalo dos atos secretos tenha sido esclarecido, ou que tenha sido derrubada a censura imposta ao jornal “O Estado de São Paulo”, a culpa maior é da oposição brasileira. Como dito por Churchill no passado, “entre a guerra e a desonra, eles escolheram a desonra”.
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