As “desilusões” com a Igreja e as buscas por algo “novo” na fé: o melhor caminho pode ser o da ortodoxia.

*Caros, segue abaixo um texto bem longo, desses que os patrulheiros acusam de “fugir do padrão dos blogs”. Mas, acreditem, reputo ele um dos mais importantes que já escrevi aqui – e sem dúvida um dos que mais gostei de escrever. Tenham paciência de chegar até o final, pois acredito que será muito interessante para vocês também.

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Outra noite, ao abrir a caixa de comentários do blog, me deparei com três mensagens muito parecidas. Nelas, os leitores diziam se sentir “desiludidos” com a Igreja Católica, que, segundo eles, estaria definhando em todo o mundo por não aceitar se “modernizar”, adequando-se melhor aos “novos tempos”.

Lendo isso, lembrei que tenho vários amigos que costumeiramente dizem coisas parecidas. Algumas pessoas parecem realmente algo desencantadas com certo marasmo que tomou conta das paróquias. Evidente que eu vejo a minha realidade local, mas percebo que esse sentimento é comum em vários cantos do país. Essa busca por “algo novo”, enfim, tem sido cada vez mais frequente entre os fiéis da Santa Madre.
A Igreja Católica brasileira, ao escolher se afastar da fé, escolheu, também, afastar os fiéis.
É inegável que os rumos da Igreja Católica brasileira estão errados. Basta ir a uma missa para perceber isso: fala-se sobre TUDO durante uma homilia, menos sobre a Bíblia em si. Você vai à Igreja esperando encontrar Jesus, e, no lugar do Cristo, se depara com marxismo, CUT, PT, MST, pregação ambientalista, et caterva. Ora, como esperar que isso não desaponte os fiéis?! Evidente que desaponta. E muito! Eu mesmo já escrevi várias vezes aqui que o “braço político” da CNBB ainda vai ser responsável pela ruína da Igreja Católica no Brasil.
A casa de Deus não é lugar para promover militância, mas sim um santuário destinado à meditação e à reflexão. É onde os fiéis da Igreja de Cristo deveriam se reunir para rememorar o sacrifício d’Ele, não uma oportunidade para que sacerdotes de péssima formação teológica brinquem de ser psicólogos, jornalistas, políticos e economistas. Para ouvir pseudo-especialistas sobre esses temas, não precisamos ir à missa. Basta acompanhar as mesas-redondas de debates promovidas pelas televisões. Na Igreja, esperamos encontrar a palavra de Deus e… só!
Ninguém obrigou a Igreja brasileira a escolher a politização, em detrimento da teologia. Foi ela quem optou por esse caminho, quando abriu os braços para os lunáticos da “Teologia da Libertação”, dando voz a gente como Frei Betto, um sujeito para quem Fidel Castro é um grande humanista… Não pode ser só coincidência que a Santa Madre fosse forte quando combatia a ideologia da pocilga, e tenha se enfraquecido ao decidir abraçá-la…
Mudar é preciso! Mas qual mudança?
Não resta dúvida de que esse rumo – excessivamente politizado e (por que não dizer?) partidarizado – da Igreja Católica brasileira incomoda bastante os fiéis. Incomoda ao ponto de levar muitos a querer buscar esse tal “algo novo”, que tantos falam.
E é exatamente aqui que eu vejo um erro sendo substituído por outro. Quando os católicos que se dizem “desiludidos” falam em querer alguma “novidade”, acredito firmemente que, na verdade, o que eles buscam é uma “alternativa“. Pode não parecer, mas isso faz toda a diferença, afinal nem sempre “o novo” é necessariamente melhor…
Quando enfrentei pessoalmente essas questões, encontrei muitas respostas na obra de Gilbert K. Chesterton, que recomendo vivamente a todos os católicos. Ele, a seu tempo, também se indagou sobre certa descrença diante da burocracia eclesiástica, que estaria “desvirtuando” a casa de Deus. Ele também decidiu buscar “algo novo”, que reavivasse sua fé. E a resposta que encontrou foi acreditar na restauração dos valores tradicionais da Igreja de Cristo. O livro que conta essa saga, “Ortodoxia”, é uma síntese de como a busca pelo “novo”, muitas vezes, acaba por nos conduzir de volta ao tradicional.
Chesterton é especialmente didático ao mencionar o exemplo do “poste branco”: se alguém quer manter os postes de uma rua sempre brancos e vistosos, o que seria mais inteligente? Trocar toda semana o poste sujo por um novo? Ou reforçar, dia após dia, a camada de tinta branca que reveste o poste original? Foi a metáfora que ele encontrou para ilustrar que nem toda mudança deve significar, necessariamente, uma ruptura com o passado, em nome de algo “novo”. Algumas vezes, conservar o que se tem, zelando para que continue bom, pode ser o melhor caminho.
Se ao longo do tempo a Igreja perdeu fiéis, como defender essa “modernização”?
Por alguma razão que me é difícil de compreender, as pessoas encaram a passagem da Igreja Católica para alguma seita mais “moderna” como uma espécie de evolução. Suponho que tenha a ver com a questão cronológica… É como se pensassem: “Bom, no passado a missa era em Latim, hoje é em português. Quero mudar! Vou pra onde? Pra Shalom, que faz a ‘missa dançante’. Ou pra Renovação Carismática, que faz a ‘missa de cura’. Ou, ainda, pra alguma neopentecostal evangélica mesmo, e pronto.” Parece-me que as pessoas sequer consideram se debruçar sobre outras opções, como se os desvios presentes da Igreja acabassem por condenar inclusive o passado. Pergunto: quem disse que a única opção de mudança é “modernizar” ainda mais?!
A leitura histórica que eu faço dos rumos tomados pela Igreja brasileira é bastante linear: ao escolher a partidarização da casa de Deus (por meio da Teologia da Libertação), decepcionaram irremediavelmente seus fiéis, que passaram a buscar algo “novo”. Daí a explosão das igrejas evangélicas neopentecostais. A isso como responderam os católicos? “Neopentecostalizando” a Santa Madre, e desferindo aquele que, a meu ver, foi o golpe fatal sobre os fiéis que restaram.
Ao tentar descaradamente imitar o estilo – como direi? – “festivo” dos evangélicos neopentecostais, a Igreja Católica passou a oferecer aos fiéis uma imitação barata de um “produto” que poderia ser encontrado em outra igreja. Ora, entre o original e a imitação, evidente que a maior parte das pessoas prefere aquela, daí a sangria de fiéis que continua…
Pessoalmente, nunca achei que oferecer festa na missa pudesse ser a resposta. Há quem se satisfaça com uma combinação do tipo Pe. Marcelo Rossi + Zezé di Camargo e Luciano, mas não vejo como isso seja menos desvirtuador da essência católica do que ficar falando de MST e socialismo aos domingos. Substituir a reflexão própria do momento em que – repito! – relembramos um sacrifício pelo “joga a mão pra cima!”, “tira o pé do chão!”, “Jesus é o Senhor!”, não pode ser correto, convenhamos… Costumo dizer que se fosse obrigado a escolher (e não sou!) entre a “aeróbica do Senhor” e a Opus Dei, ficaria com esta última…
A única conclusão a que chego é que a tão defendida “modernização” da Igreja Católica, da forma como foi conduzida, só militou contra a… Igreja Católica! Basta ver que ela tinha mais fiéis antes de se render a seitas como RCC, Shalon e similares, do que agora. Isso pode, admito, não ser um dado conclusivo. Mas sem dúvida é algo a se ter em mente, afinal não pode ser apenas uma coincidência.
A “alternativa” pode perfeitamente ser a restauração dos valores tradicionais.
É evidente que cada pessoa pode descobrir que gosta de certas coisas, e não gosta de outras. Estamos num mundo livre, afinal de contas. Assim, qualquer um pode, a certa altura da vida, perceber que não gosta do rito católico, e que prefere músicas, cantoria, danças e essa coisa mais “festiva” dos neopentecostais evangélicos, ou de movimentos paracatólicos como RCC e Shalom. Ora, qualquer um é perfeitamente livre para procurar o que preferir, não é isso que está em discussão aqui.
Me dirijo aos católicos que se dizem “desiludidos” porque sentem falta de mais meditação, mais reflexão, mais estudo da Palavra de Deus. É diante desses que reajo com estranheza quando percebo que a alternativa é partir para algo “animado e festivo”, quando a resposta correta seria, na verdade, mergulhar de forma mais profunda no estudo das tradições clássicas da Santa Madre.
Conheço gente que se afastou da Igreja Católica porque sentia falta de ouvir mais a Palavra de Deus, coisa que não acontecia nas missas. Aí, se sentiu feliz e realizada ao entrar na primeira igreja evangélica que encontrou, onde deu toda a atenção possível a um pastor cuja formação teológica não conhecia. Pergunto: alguma vez essa pessoa procurou ler e ouvir o que o Santo Padre, o Papa, tem a dizer acerca da Palavra de Deus?
Curioso é que pouquíssima gente faz isso… Muitos conhecidos meus, católicos por formação, agem como se não estivessem numa Igreja comandada por um líder espiritual, quando, na verdade, ele está lá! E ele fala a nós, os fiéis. E, acreditem: a profundidade intelectual e teológica de um Papa (qualquer um!) sempre será maior que a de um sacerdote local…
Todo sujeito ávido por “algo novo” vê grandiosidade no que um Fábio de Melo fala, mas nenhum jamais se debruçou sobre uma encíclica papal para entrar em contato com teologia de verdade. Ora, mas o desejo não era mais reflexão? Não era mais meditação? Não era mais estudo da Palavra de Deus? Ou na verdade não havia nada disso, e a vontade, na verdade, sempre foi poder se entregar a um rito “menos chato”? Sim, afinal é inegável que a missa católica é “mais chata” que as celebrações da RCC, da Shalom, ou que os cultos das igrejas neopentecostais, afinal estas se rendem a danças, músicas e festas sem nenhum embaraço. Chegando ao ponto de esquecer que Jesus nos convidou a relembrar que ele entregava o corpo e o sangue, isto é, que fazia um sacrifício. Realmente, é “mais chato” meditar sobre algo dessa natureza. Mais divertido e – por que não dizer a verdade? – fácil é dançar…
Ser tradicional não significa ser “careta”.
Eu mencionei a contradição entre os que reivindicam “mais estudo da Palavra de Deus”, mas nunca tentaram conhecer o que escreve o Sucessor de Pedro. Sempre que sugiro isso em conversas com amigos, a reação é a mesma: cara de espanto! Quase como se o Papa fosse uma figura de ficção, que não estivesse presente no mundo real. É bastante curioso isso, afinal conhecer o que pensa o líder máximo na Terra da nossa fé, deveria ser primordial.
A verdade, é que essa sociedade “moderna” acha o Papa – como é mesmo que eles dizem? – muito “careta”. O Santo Padre é visto como uma figura distante, presa em conspirações e burocracias próprias da cúpula do Vaticano, que não teriam qualquer relação com a fé. Isso não poderia estar mais errado! Bento XVI, por exemplo, produziu mais material para estudo teológico em cinco anos, do que toda a Teologia da Libertação ao longo de sua existência! Para quem reivindica mais estudo da Palavra e mais reflexão, conhecer o que pensa o Papa é um passo essencial.
Outra coisa que sempre pergunto aos “desiludidos”: já tentaram conhecer uma missa no rito tridentino? Até hoje, todas as pessoas com que conversei sequer sabiam o que era isso. Quando cansei dessas missas ideologizadas que acontecem em todas as paróquias da minha cidade, a missa tradicional foi minha salvação!
Essa missa nada mais é que aquela rezada em latim, acompanhada de canto gregoriano. “Nossa, que coisa mais antiga!”, dizem. É. Antiga, sim. Mas quem disse que ser antigo é ser ruim? Acreditem: para quem busca meditação, reflexão e ênfase na literatura litúrgica, não há nada melhor. Nada!
Certa vez, na Paróquia de São Pedro, em Gramado/RS, conversando com o pároco local sobre alguns aspectos da Missa Tridentina, comentei: “Talvez o que assuste mais as pessoas seja essa coisa de ficar de costas pros fiéis.” Ele me interrompeu: “De costas pros fiéis, não. De frente pro Santíssimo!”. Claro! Evidente! Afinal, como já repeti à exaustão ao longo do texto, trata-se de um momento em que relembramos um sacrifício. Foi isso que Jesus nos convidou a fazer na última ceia.
Lógico que para mim não foi difícil preferir o rito tradicional, afinal nunca gostei dessas modas “modernas” de transformar a Santa Missa numa espécie de “ginástica de Jesus”, com danças, palmas e etc. Por isso me encontrei bem no ambiente devocional de uma missa tridentina. Evidentemente pode existir quem prefira “jogar as mãos pra cima” e “tirar o pé do chão”…
Há espaço para se restaurar a verdadeira tradição católica.
Curioso que essa “modernidade” toda não consegue se sobrepor a alguns aspectos fundamentais da tradição católica. Basta ver o quanto a vinda de um Papa ao país mobiliza fiéis de todas as idades. É aquela história: a maior parte das pessoas vê o Santo Padre como uma figura distante, quase mística. Mas basta que ele venha aqui, mais perto, para que muitos procurem estar próximos ao seu líder espiritual.
A última eleição presidencial brasileira também mostrou o quanto o tema “aborto X defesa da vida” mobilizou a sociedade. Não foram só católicos que se levantaram contra propostas de legalizar a prática, mas eles estiveram inegavelmente envolvidos nos debates. De novo: um assunto considerado “careta” por muitos, foi assumido como bandeira por boa parte da sociedade. Uma bandeira que, diga-se, sempre foi empunhada com decisão pela Igreja Católica.
Se a maioria das missas locais se perde em discursos ideológicos e partidários, deixando Deus de lado para falar sobre capitalismo e MST, também é verdade que as alternativas “modernas” se perdem em suas festividades, suas “missas dançantes” e seus “avivamentos”. Por que não olhar para outras direções? Por que não tentar restaurar a tradição, em vez de trocar um desvio por outro? Lembrem de Chesterton: é mais inteligente manter o poste branco sempre limpo, pintado e bem cuidado, do que trocar o poste toda semana por um novo.
Quando o padre da sua paróquia deixa de falar a você, preferindo fazer apologia da CUT, a solução pode não ser correr para o pastor da esquina, ou se matricular no “pump do Senhor”, da RCC. Quer mais contato com a Palavra de Deus? Procure-a você mesmo! Leia a Bíblia e passe a compreender os textos por si só, sem se preocupar com resenhas feitas por gente que, no mais das vezes, tem a mesma profundidade intelectual de uma alface. Quer reflexão e meditação? Procure conhecer o que dizem os teólogos de verdade, principalmente o Santo Padre. Afinal, se você é católico, é importante saber o que pensa o líder maior da sua igreja.
Cansou das “missas chatas”? Saiba que elas são, de per si, um desvio litúrgico. Ora, por que solucionar isso por meio de outro desvio?! Não vejo como essa febre do “tira o pé do chão” possa ser uma resposta… Experimente algo verdadeiramente novo, isto é, algo tradicional. Um paradoxo? Não! No Brasil, é tão pouca gente que conhece o rito tradicional, que ele é o que há de mais novo. É a maior novidade que um fiel pode experimentar hoje.
E lembrem-se: durante a Santa Missa, estamos relembrando o sacrifício de Cisto, como Ele próprio nos recomendou (Mc 14, 22-24)! Digam o que quiserem os mais “modernos”, mas não vejo como um momento assim possa ser vivido como algo festivo… Daí meu argumento primordial, que sintetiza tudo o que foi dito aqui: restaurar o que havia no princípio, entregando-nos todos a uma maior contemplação, maior meditação, pode ser a verdadeira resposta. Foi a que encontrei para mim, ao me permitir conhecer algo novo de verdade, não apenas mais uma modinha feita para conquistar fiéis de ocasião.
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