>Ainda a questão da liturgia: respondo ao comentário de uma leitora.

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Ontem escrevi um post curtinho sobre a liturgia da Santa Missa, e recebi um comentário da Morena Flor, uma assídua leitora do blog. Achei melhor respondê-lo aqui na home, porque a questão é interessante e pode proporcionar boas discussões. Indagou ela: “Quem fez a liturgia? Deus ou os homens(para adorar a Deus)?” E aqui vou eu, me atrevendo a responder:
Reputo que a questão acima não pode ser reduzida a uma resposta simples e direta. Antes de se debruçar sobre ela, é imprescindível que qualquer pessoa se ocupe de outra questão: Existe um Deus? Sem responder a isso, ninguém pode avançar para o ponto proposto pela Morena Flor.
De fato, quando alguém é crente – e aqui, é óbvio, estou empregando a acepção mais ampla da palavra -, acredita na existência de um Deus. Eu me incluo nessa categoria, e minha fé me permite acreditar no papel fundamental de Deus em nossas vidas. Assim sendo, acredito que houve um Jesus Cristo, e que ele, ao cear com seus apóstolos pela última vez, repartiu pão e vinho e convidou os comensais a repetir esse ritual sempre, a fim de honrar sua memória e rememorar seu sacrifício.
Assim, temos que a simbologia da comunhão do corpo e sangue de Cristo foi um rito criado pelo próprio Jesus, segundo o que nos conta a santa palavra d’Ele, transmitida séculos após século nas Sagradas Escrituras – outra instituição na qual os crentes escolhem acreditar.
Quem, porém, não se reconhece na fé – sejam ateus, agnósticos ou qualquer outra coisa -, não pode acreditar que a liturgia – ou parte dela – tenha sido criada por Deus, afinal a pessoa simplesmente não crê numa divindade superior.
Temos, pois, que a única forma de responder a pergunta feita pela Morena Flor é: “Para os que têm fé, é possível dizer que o papel de Deus na liturgia é claro e incontroverso. Para os que não têm, não.”
Dito isso, cumpre observar que toda igreja é uma instituição formada por pessoas, e organizada segundo preceitos administrativos. É da natureza delas ser assim, afinal uma das funções de uma igreja é unificar os postulados morais, de forma a sistematizar as regras que os fiéis, por sua livre vontade, escolhem observar.
O cerne da mensagem deixada por Cristo (e aqui, uma vez mais, o que escrevo só “faz sentido” para os crentes) convida todos os fiéis a reviver seu sacrifício por meio da comunhão do seu corpo e do seu sangue, dados em holocausto. A Igreja Católica Apostólica Romana, no decorrer de sua história, sistematizou a forma como o ato de reviver a última ceia seria feito.
Temos, assim, uma liturgia que, embora nascida a partir do que foi ensinado pelo próprio Cristo (again: se você não tem fé, isso não é pra você), foi evidentemente lapidada por homens. Homens da igreja fundada por aquele, é verdade. Mas sempre homens – sujeitos a erros e acertos.
Importante ressaltar que quando emprego o termo “lapidada”, não pretendo insinuar que a mensagem de Jesus precisava de qualquer aperfeiçoamento. Trata-se apenas da idéia de padronizar, de formatar um processo por meio do qual todo fiel, em qualquer lugar do mundo, pudesse reconhecer sua celebração maior.
A liturgia, enfim, foi feita por Deus e pelos homens, afinal o próprio Jesus convidou seus apóstolos a construírem, dia após dia, sua igreja.
Toda essa discussão, porém, não pode acontecer sem que antes seja posta a questão primordia da existência – ou não – de fé. Rebater crenças espirituais com argumentos forjados em crenças materiais não só é algo pouco inteligente a se fazer, como é uma coisa absolutamente improdutiva, afinal todo crente escolheu ter uma fé.
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2 ideias sobre “>Ainda a questão da liturgia: respondo ao comentário de uma leitora.

  1. Anonymous

    >Yashá, antes de mais nada parabéns pelo Blog. Vez ou outra passo por aqui e encontro bons textos para reflexão.Já havia lido o seu post onde você trata das ""desilusões" com a Igreja e as buscas por "algo" novo"…Agora você volta a lembrar-nos daquilo que é o fundamental e sem o qual não poderá haver uma compreensão do que seja a sagrada liturgia da missa: crer que na santa missa temos a atualização/renovação do sacrifício de Cristo.Se a santa missa é o sacrifício de Cristo, como eu suportaria tanto barulho e discursos fora de contexto? Eis o ponto!Na missa há que se ter sacralidade, sobriedade e zelo por esta realidade da transubstanciação do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo.É o próprio Cristo o celebrante!Será que os fieis entendem assim?Mas esta discussão é muito benéfica, desde que aceita nos termos que você colocou. É preciso ter o pressuposto da fé, sem isto não poderemos avançar nesta compreensão.Um abraço e mais uma vez parabéns pelo Blog.André Serrano

    Resposta

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