“Marcha da maconha” é coisa de quem precisa de uma pilha de louça pra lavar.

“Cabeça vazia, oficina do diabo”, costuma dizer minha avó. O ditado vale também para os que andam com a cabeça cheia de fumaça e gastam o tempo livre organizando marchas de maconheiros, em vez de se ocupar fazendo coisas úteis para si mesmos e para o país.

Breves considerações preliminares

Eu nem quero perder tempo discutindo a fundo a idéia de se legalizar a maconha (ou outras drogas) em si. Sou contra simplesmente porque acredito que um mundo com menos maconheiros é melhor que um mundo cheio deles. “Mas e as liberdades individuais?!”, bradam alguns dos meus colegas mais libertários. Ah, façavor, né?! E eu lá quero que vagabundinho tenha a liberdade de encher os cornos de substâncias entorpecentes, acabando por me assaltar na rua, só pra alimentar o vício porco dele? Ao diabo com isso! Viver em sociedade pressupõe rejeitar as “liberdades” que ameaçam a paz social. E um bando de maconheiros é uma baita duma ameaça!

E tem também a galerinha descolada que gosta de ver na legalização da maconha um caminho para a redução da criminalidade. Sei… O corolário disso é espantoso: propõem acabar com a criminalidade eliminando do código penal a conduta criminosa. É tipo assim: “vamos acabar com os estupros. Como? Descriminalizando a prática”.

Não bastasse a idéia moralmente preguiçosa, há ainda falhas lógicas tremendas nesse pensamento. Por exemplo: se legalizarem a maconha, o tráfico continuaria firme e forte, comercializando as outras drogas. E aí? Vamos liberar tudo?! Isso pra não mencionar que a legalização total e irrestrita das drogas só poderia trazer efeitos econômicos e sociais dignos de nota se o mundo todo a adotasse. Legalização só no Brasil? Vixe! Seria o mesmo que fazer desta pátria-amada-idolatrada-salve-salve o celeiro mundial dos entorpecentes. Sem falar que, bem… De onde os meus queridos libertários tiraram que a legalização das drogas implicaria no fim da bandidagem? Eles acham que traficante vende cocaína porque não tem opção de viver licitamente?! Que, uma vez liberada a farra, se tornariam microempresários? Pela madrugada! Ninguém leva em consideração que sujeito trafica droga porque quer ser bandido?! É hora de levar, amigos. Por incrível que pareça, há gente ruim à beça neste mundo.

Mas já divaguei muito. Retomo para falar daquilo que me motivou a escrever este post: a marcha da maconha em São Paulo, que acabou num pega-pra-capar entre vagabundos maconheiros e policiais.

O caso específico da “marcha dos maconheiros”, em São Paulo

Em primeiro lugar, por que diabos falam em “marca da maconha”? Maconha não marcha sozinha, gente. Seria como falar em “marcha das samambaias”. Não! Vamos chamar as coisas pelo nome, sem medo de patrulha nenhuma: aquilo foi uma MARCHA DE MACONHEIROS!

Esse termo não “pega bem”? Amigo, não quer ser chamado de maconheiro, então não fuma maconha! Quer fumar? Então larga de mimimi e aceite o que você é. Se um grupo de beatas faz uma marcha para defender os valores da Santa Madre, aquilo será uma marcha de católicas. As palavras têm sentido, ainda que hoje em dia o consenso politicamente correto tente nos empurrar goela abaixo uma novilíngua (leiam 1984, de George Orwell, e me agradeçam eternamente).

Pois bem, os maconheiros de São Paulo queriam promover a tal marcha com o único objetivo de pedir a legalização da baguaça que consomem. Acontece que havia uma decisão judicial proibindo a tal marcha. Na democracia, funciona assim: 1) decisão judicial se cumpre; 2) quem não gostar dela, que recorra; 3) os que deliberadamente desrespeitarem-na devem ser reprimidos – inclusive na base do porrete, quando necessário.

Ora, se o Poder Judiciário vigente num Estado democrático de direito em pleno funcionamento decidiu que aquela marcha não deveria acontecer, cabia aos maconheiros duas saídas civilizadamente aceitáveis: 1) ficar chorando com seus olhos inchados e vermelhos; 2) recorrer da decisão e aguardar o resultado da contenda. Preferiram o caminho da baderna, da arruaça e da afronta à ordem democrática. Tudo coisa típica de… bem… maconheiros!

Sinceramente, não é porque sou um “reacinha da vovó” que apóio totalmente as pauladas democráticas que a PM de São Paulo sentou no lombo noiado dos maconheiros. A questão é que não havia outra coisa a fazer: ao desrespeitar uma decisão judicial, os desocupados atentaram contra a democracia. Diante disso só restava ao Estado convocar seu aparelho de segurança para fazer valer a ordem. Pode não parecer, mas isso nada mais é do que um belo exemplo da civilização subjugando a barbárie.

Oficial da PM/SP enquadrando um "maconheiro marchador".

Mas, afinal, pode-se marchar a favor da maconha?

A minha resposta é NÃO. Isso é algo que não é tolerado pela legislação vigente na democracia brasileira. É a interpretação que faço do texto escrito no artigo 33, parágrafo segundo, da Lei nº 11.343, onde se lê que “induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga” acarreta, ao infrator, uma pena de um a três anos.

Agora googleiem aí nos vossos computadores, e encontrarão matérias jornalísticas detalhadas sobre a tal marcha. Lá estão, por exemplo, algumas das palavras de ordem que os maconheiros bradaram durante o evento – inclusive com o único fim de provocar a polícia, que estava lá apenas para fazer valer uma decisão judicial:

“EI, POLÍCIA! MACONHA É UMA DELÍCIA!”

“LEGALIZE JÁ! LEGALIZE JÁ! UMA ERVA NATURAL NÃO PODE TE PREJUDICA!”

Pessoalmente, entendo que isso é, no mínimo, instigar. Sendo assim, correta foi a decisão que não permitiu a realização da marcha. E mais correta ainda foi a atitude do Poder Executivo, que chamou a polícia para fazer cumprir a ordem.

“Ah, que exagero! Estão só opinando sobre algo que pensam.”, dizem. É mesmo?! Bom, imaginem uma “marcha da pedofilia”, com os pedófilos gritando que seus atos hediondos são “uma delícia”. Em essência, seria a mesma coisa – pessoas gritando palavras de ordem acerca de condutas que, hoje, são consideradas ilícitas pelas leis! E aí?!

“Mas e a liberdade de expressão, como fica?”, indagam alguns. Sim, eu sei que os maconheiros tentaram tirar da manga essa carta, para dar migué na decisão do Poder Judiciário. Não colou, claro. É é justo que não cole. A liberdade de expressão é um institudo poderoso demais, civilizado demais, para que seja vilipendiado por gente que gosta de “fumar um beck”.

A liberdade de expressão, antes de ser um escudo para os indivíduos, é uma verdadeira e própria garantia da democracia e do sistema de liberdades. E me parece muito óbvio (além de bastante sensato) que os instrumentos democráticos não podem – e não devem – servir de refúgio para os que decidem atentar contra a democracia! E, sim! Estou afirmando que a turminha da marcha dos maconheiros, lá de São Paulo, estava agredindo o sistema democrático, afinal (a) descumpriram uma decisão judicial, (b) confrontaram o aparelho de segurança do Estado e (c) fizeram apologia do uso de substâncias ilícitas.

Se a galerinha que curte um baseado quer mesmo “fazer valer seu direito” de estar chapada, que aprenda a conviver com o regime democrático. Que convençam a sociedade de suas “razões” e mudem, pelas vias institucionais previstas, as leis vigentes. Nada de partir pra sabotagem descarada, como se tentou fazer em São Paulo, porque, se fizerem isso, vão receber apenas as pauladas democráticas da polícia. Muito bem aplicadas, por sinal.

—–

Este post recebeu o "Selo Chuck Norris de qualidade".

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5 ideias sobre ““Marcha da maconha” é coisa de quem precisa de uma pilha de louça pra lavar.

  1. Érico

    Yashá, entendi seu pensamento e suas colocações. Mas sinceramente não entendo como isso possa estar de acordo com sua visão liberal (você me parece um liberal). Ou bem o Estado não deve se envolver nas esferas individuais, ou bem se mete. E decidir usar droga me parece uma decisão unicamente individual, não?

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  2. Pedro

    Um texto com bastante humor e conteúdo, parabéns. Claro que o fato é muito comentado e polemico, mas não devemos deixar passar drogas ílicitas no sistema. O Brasil não pode ser “mais” bagunçado do que já é. Se tiver de ser legalizada, que seja por outros meios, e não pela instigação, citada no texto.

    Resposta

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