Meu pequeno vândalo.

Quando eu era mais novo (beeem mais novo), tínhamos lá em casa uma televisão em preto-e-branco tão pré-histórica, mas tão pré-histórica, que pra mudar de canal era preciso girar um botão (sei lá se o nome é mesmo esse, mas parecia um botão…) que fazia um horrível “tec-tec-tec” a cada canal sintonizado. OH, WAIT! Sintonizado, não! A cada canal mudado. Porque sintonizar é outra coisa… Aliás, além de trocar de canal era preciso girar outra baguaça que afinava a sintonização.

Taí um retrato perfeitamente fiel daquela TV paleozóica.

Aí eu sigo a vida, estudo, arrumo um emprego decente caso com uma mulher linda e rica e consigo, finalmente, realizar o sonho de ter uma TV responsa. Aliás, TV responsa é pouco! Compramos um telão super-hiper-mega-ultra fodástico, que só não vou descrever em detalhes para não causar inveja mortal a todos vocês e levá-los a cometer suicídio imediatamente.

Eis uma "imagem meramente ilustrativa" da TV atual.

Diante dessa evolução putaquepariusticamente grande que experimentei ao longo da minha vida, imaginem o susto monstruoso que senti ao ver a tela da televisão TODA RABISCADA pela arte (algo entre o pós-moderno e o rupestre) do meu filho, um pequeno vândalo que se valeu da inimputabilidade penal (tem apenas pouco mais de dois anos) para perpetrar seu delito sórdido e premeditado.

Experimentei aquela confusão estranha de sentidos que mistura o inabalável amor de pai àquela repentina vontade de pegar-o-moleque-e-colocar-no-pelourinho. Mas o que fez a bílis subir até a garganta foi mesmo a cara cínica do pivete, numa expressão que teria feito até Maluf se sentir indignado.

Foi mais ou menos assim que o pilantrinha me encarou.

Ah, meus amigos… Tudo o que veio em seguida está pouco claro na minha cabeça ainda agora, turvado que foi pela ira diante dessa cara-de-político-de-Brasília. Só sei que briguei feio com ele. Tão feio, que o moleque deve ter ficado sinceramente assustado, diante do meu rosto transfigurado – eu falava da posição de pai, mas ele parecia encarar um psicopata.

A situação era parecida com essa...

... mas ele parecia estar vendo isso...

... por isso cara do moleque tava assim (basta só trocar o sofá riscado, pela TV).

Eu não queria repetir aquelas mesmas coisa que todos estamos cansados de ouvir e saber, mas aí percebi que ser pai nada mais é do que encarnar todos os clichês do mundo. Aquela coisa do amor mais pleno, sincero e desprendido que pode haver, capaz de relegar todo o resto a segundo plano.

No meio daquela fúria, enquanto despejava na frente dele toda a “gravidade” do ato criminoso, me pegava repetindo, lá no fundo, que, afinal de contas, era uma TV”… Mas comassim, só, Yashá?! Era a minha TV! Aquela que sempre quis, e que finalmente comprei! E agora ela tava lá, vandalizada por aqueles treze quilos de inconsequência. “Pois é, ainda bem que ele não derrubou a TV em cima dele. Já pensou o perigo?!” Ah, sai daqui, consciência paterna! Deixa eu ficar brabo de verdade com ele! A vítima é a TV, oras!

Mas não adianta… No final das contas, a ira é sempre subjugada pelas ordens daquela voz que vem lá do fundo dizendo que a gente não pode exagerar na dose, afinal – e a triste realidade é essa mesmo – é uma TV. O meu trabalho, no fim das contas, é proteger e amar ele. Mais que isso: é fazê-lo sentir sempre a certeza de que em mim ele terá refúgio, não tormenta.

Sim, tudo um monte de clichês, eu sei. Mas não tem jeito: divagar sobre as nuances da paternidade nada mais é do que levar os clichês para passear. Isso vale para tudo, desde quando você se pega repetindo um “papai avisou que você ia cair”; ou um “papai sempre sabe o que é melhor pra você”; chegando no sempre presente – e exaustivamente repetido – “você tem que obedecer mais o papai”.

Vocês não precisam se preocupar e especular sobre o final da história. Basta saber que a integridade física do vândalo foi poupada. No fim das contas, descobri que ele usou giz-de-cera pra executar seu ilícito cuidadosamente premeditado (ele esperou não ter ninguém na sala pra atacar!), o que facilitou o processo de limpeza e permitiu que a TV ficasse como nova outra vez. Bastou, assim, um castigo duro e exemplar:

Imagem "meramente ilustrativa" do vândalo durante seu castigo.

Mas não vou dar uma de Jack Bauer e posar de frio: pouco depois imediatamente já  tava morrendo de vontade de brincar com ele, de beijar ele, de apertar ele.

Sim, eu sei que eles se aproveitam da sua fofura inata pra amolecer nossos corações. Mas, fazer o quê? O trabalho deles é crescer descobrindo os limites do mundo, enquanto o nosso é amá-los incondicionalmente, mostrando onde o estão tais limites – com algumas “palmadas civilizadoras” de vez em quando, claro…

—–

P.S.1: Depois de alguns minutos cumprindo o castigo acima ilustrado, a pena privativa de liberdade foi convertida em restritiva de direitos: uma semana sem os desenhos animados da TV por assinatura.

P.S.2: Ele provavelmente apelará à “Suprema Corte Familiar”, implorando uma ulterior redução da pena. Serei inflexível! Mas se a mãe dele for favorável ao pleito, terei que me render a quem, de fato, manda na casa.

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13 ideias sobre “Meu pequeno vândalo.

  1. naiane

    HAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAAHAHAHAHAHHA… Eu te JURO que vi a cara do Lucas, com aquele jeito “Olha a minha arte, papai”.
    Puuuuuuuta merda!
    Nem falo nada, até porque não tenho filhos. Mas tenho 3 sobrinhos e, em especial, um pequeno Lord de 2 anos que está nesse nível aí, de ser artista, cínico e falador.
    Fazer o que? Amar e não deixar eles avançarem na nossa frente, apontando um pincel que demora 3 dias pra sair da nossa cara (o que já aconteceu comigo).
    Bacana teu texto, Yashá. Rendeu umas gargalhadas.

    Abraços, querido.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      A cara dele era bem parecida com aquela da foto mesmo! Nota 8 na “escala José Sarney de cinismo”.

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  2. Oriane

    Foi a descrição mais perfeita do meu marido em casa!!! Sério e posso garantir que ele orientado pela mãe é claro deve ter dito algo assim: ” desculpa papai, foi sem querer! Mas é isso mesmo, filhos são assim, eles nos surpreendem tanto nas travessuras quanto nas alegrias que nos proporcionam. E quanto ao castigo?! Isso é preciso. Maas pai nunca sabe dizer quando acaba, a mãe sempre vai ser o refúgio mais seguro e aconchegante nessas horas, e por um fim sempre. Boa sorte amigo! Família é assim mesmo e tem dessas coisas! Felicidades!

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    1. yashagallazzi Autor do post

      É porque esses pestinhas atuam em conjunto e seguem o mesmo padrão em suas travessuras. Como um grupo terrorista! 😛

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  3. T-Wolve

    Opa, quanto tempo! Andei sumido dos comentários, mas sempre que possível dava uma lida nos posts.

    Parabéns pelo novo blog. Achei ótimo! E esse último texto tá hilário demais!

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  4. Bruno Américo

    Aquela imagem ”meramente ilustrativa” do castigo do vândalo, concerteza foi a melhor! Até o bichinho de pelúcia (cumplice), fazia parte do grupo terrorista. ~risos

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  5. Sam Lima

    Gente essa imagen “meramente ilustrativa” do castigo do vândalo…. sem dúvida é a melhor msm..ja tive vontade d fazer isso com minhas primas e no lugar do pelúcia(cumplice), seria as bonecas! =D

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  6. vilani

    Adorei sua narrativa sobre as peripécias de deu filhinho. Lembrei bem das artes que as minhas fazem no sofá, na parede, qdo se encontram sem a nossa presença para inspecioná-las. Mas tudo isso vale a pena curtir, pois o tempo passa tão rápido q qdo cuidamos já estão bem grandinhos.

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