Rebeldes do ócio.

Há algumas décadas, lutar por direitos era “enfrentar regimes de força”, lutar contra o “aparelho de repressão do Estado” e “fazer revoluções”. Hoje tudo se resume a fechar ruas.

Sujeito quer mais salário? Fecha a rua. Quer uma gratificaçãozinha? Fecha a rua. Quer auxílio-alimentação? Fecha a rua. Quer que suas drogas preferidas sejam legalizadas? Fecha a rua. Quer contar que ama alguém do mesmo sexo? Fecha a rua. Qualquer coisa é motivo pra fecha ruas, o que acaba fazendo com que elas sejam fechadas por motivo nenhum

Por todo o Brasil, vemos a chamada “temporada das greves”: os sindicatos ligados ao funcionalismo públicos (claro!) estão há semanas fechando as principais ruas das cidades, reclamando dos salários achatados e arrochados que recebem – tadinhos! Eu não me atrevo a dizer se os percentuais oferecidos são bons o bastante, ou não. O que eu queria mesmo era saber como diabos fechar uma rua vai mudar isso!

Aí a gente dá uma volta no meio da balbúrdia, olha na cara dos manifestantes e percebe que são todos daquela geração de 1968, sabem? São a galerinha que era jovem naquele longínquo mês de maio, e viu os europeus arregaçando e indo pro pau contra “os repressores”. E ficaram fascinados com isso, sonhando também eles em sair caminhano e cantano e seguino a cançao pra cima dos repressores.

Só que os europeus vivem… na Europa! E lá, mesmo nos idos de 1968, estava em plena vigência o sistema democrático, que permite – vejam que coisa! – a manifestação até mesmo dos que não querem tal sistema (e muita daquela molecada ia pra rua gritar “Viva Marx, Lênin e Mao Tsé-Tung, algo que, convenhamos, não tem qualquer relação com a democracia…).

Já aqui, no mesmo período, vivia-se uma ditadura das brabas e sair às ruas jogando tijolo na polícia não era pra qualquer pirralho esquerdista, não. Só tinha coragem de fazer isso aquela esquerda-de-raiz, a esquerda-moleque, a esquerda-arte. Essa esquerda-de-resultado que tá aí hoje em dia, sentada à mesa junto com Sarney e Collor, se cagaria de medo!

Isso nos legou uma inteira geração que não viveu sua rebeldia política na “idade certa”, e que agora… bem… fecha ruas. E como essa geração cresceu e entrou nos sindicatos, nas universidades, nas escolas e nos movimentos sociais, temos várias outras gerações, mais jovens, sendo educadas por eles na lógica dessa rebeldia do ócio, que transformou greves em torneios de dominós e carteado. Eu imagino Marx vendo seus discípulos fazendo “greves de advertência” só pra ficar ouvindo Geraldo Vandré e jogando baralho na frente de um órgão público. Consigo até vislumbrar perfeitamente o barbudo vermelho de vergonha…

Forma correta de desobstruir vias públicas tomadas por grevistas.

A verdade é que os rebeldes do ócio precisam fechar as ruas. Esse é o – como direi? – “rito de passagem” deles. Ninguém no Brasil pode-se dizer universitário engajado, se não foi “passeatar” contra qualquer coisa. Nem servidor público oprimido, se não grevou e fez coraçãozinho com as mãos na cara de alguns PMs. É o fetiche deles, entendem?

Como professores piqueteando avenidas levarão a educação do país a ser melhor? Ninguém sabe explicar… Como enfermeiros e médicos gritando em megafones na frente dos hospitais trarão melhores condições de atendimento para os doentes? Nenhuma pista… Como policiais e bombeiros trancando viaturas nos quartéis conseguirão melhorar os índices de segurança pública? Nenhum especialista sabe dizer…

Daí minha facilidade em concluir que: 1) tão todos preocupados com os próprios bolsos acima de tudo – lutar contra as injustiças sociais my balls!; e 2) tão exercitando sua “utopia” fazendo a revolução possível, já que coragem pra pegar em armas e partir pro pau contra a “burguesia”, bom… essa galerinha aí?! Francamente… Eles marcam as greve pro horário comercial pra poder chegar em casa a tempo de ver as novelas da Globo…

Enquanto eles brincam de “outro mundo possível” nas escolas, nas ruas, campos, construções, quem sofre são os cidadãos que lhes pagam os salários. São estudantes de escolas públicas e doentes de hospitais públicos, reféns de movimentos via de regra partidarizados. E a parte de servir ao público em si, que deveria ser, creio eu, a essência de todo aquele que escolhe uma carreira pública?

Afinal, ninguém é obrigado a ser arrochado e oprimido pelos governantes, não é mesmo? Não tá bom o salário, a estabilidade e as vantagens do serviço público? Bem, vai ser piloto de Fórmula 1, amigo. Ou qualquer outra coisa, sei lá… O que não podem é ficar sabotando a própria sociedade a quem deveriam servir, que se torna a única vítima dessas greves. Não esqueçamos que o “patrão” dos servidores públicos é o conjunto do povo pagador de impostos, não um prefeito, um governador ou um presidente.

Deixem de rebeldia adolescente tardia. Encerrem esse carteado, desocupem essas ruas e avenidas e voltem ao trabalho, sim? Caso contrário, o Estado democrático de direito, por meio de seu braço legal, será obrigado a distribuir as palmadas que vocês deixaram de receber dos pais na época certa…

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21 ideias sobre “Rebeldes do ócio.

  1. Gabriel

    Eu cheguei a participar de um protesto que parava o transito… era – e sou – sensível à causa (no caso, contra a situação do transporte coletivo). Mas saí no começo justamente por não querer fazer parte da obstrução do direito de ir e vir… Foi uma coisa mais pessoal, mesmo.

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  2. Regina

    Então você, tão democrático, é contra o direito de greve? Pra você os trabalhadores não podem lutar por seus direitos e se manifestar de forma pacífica?

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Ai, ai, Regina… Você e seu velho hábito de contestar o que ACHA que eu falei, não o que falei de fato… Vou bem devagarzinho, pra ver se você entende, ok?

      1) Sou CONTRA greves no serviço público por questão de princípio. Acho que quem escolhe as carreiras de Estado, deve aceitar que além dos belíssimos bônus (salários acima da média e estabilidade) há, também, alguns ônus próprios de fazer parte do aparelho estatal. E não interromper serviços públicos é um desses ônus. Você discorda? Os sindicatos discordam? O povo discorda? O Homem-aranha discorda? Que seja! Eu continua achando que, EM ESSÊNCIA, fazer greve no serviço público é errado.

      2) Mas o mundo não é como eu quero, não é mesmo? Assim é a democracia e a vida em sociedade. Portanto, se funcionários públicos querem, como você falou, “lutar por direitos” em “manifestações pacíficas”, que o façam. Mas SEM causar TRANSTORNOS para a coletividade. E fechar ruas, sinto, é transtorno até demais (não podemos esquecer que isso afeta INOCENTES, que nada têm a ver com os “salários arrochados” deles).

      Deu pra entender agora?

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  3. Thiago-RJ

    Yashá, essa Regina é sua patrulheira pessoal, é? Não é o primeiro post seu em que vejo um comentário dela, sempre parecidos: curtos, recheados de escandalizada indignação com o que seria um delito de opinião, meio bucéfalo, contestando o que você não disse com pseudoargumentos que não fazem sentido…

    Acho que ela gamou! Sua esposa que abra o olho… rsrsrsrs

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  4. Paulo Neto

    Mimimi’s ploriferam. Mas TODOS os motivos de greve se resumem em um só: dinheiro. Só isso. Daquela lista enorme de reivindicações que se coloca em pauta apenas pra encher linguiça, basta atender o item “Salário” que a greve acaba. Simples como 2 e 2 são 5…

    Resposta
  5. Anônimo

    Você poderia se ocupar estudando mais, ao invés de ficar escrevendo besteiras contra trabalhadores na internet!

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Então… No caso da sua frase, não é “ao invés de”. O correto é “em vez de”. De nada.

      P.S.: Você tá nas greves? É servidor público? Professor? DE QUÊ?! Pelamordedeus, diz que não é português!!!

      Resposta
  6. Anônimo

    Eu desacredito da liberdade de expressão, quando a vejo sendo usada por alguém como você, pra defender o que você defende.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Bem democrático você, heim? Deus me livre do “outro mundo possível” que você sonha construir!

      Eu, de minha parte, acredito ainda mais na liberdade de expressão quando a vejo sendo usada por alguém como você. Porque defender a liberdade de expressão só pra ouvir e ler o que se gosta, é fácil. A ditadura fazia isso, sabia? E é essencialmente o que você parece preferir…

      A prova verdadeira de apreço pela liberdade de expressão é defender o direito que os IMBECIS têm de dizer suas IMBECILIDADES. E isso eu faço! [Indiretinha descarada mode onde] Tanto que seu comentário tá aí, aprovado. 😉 [Indiretinha descarada mode off]

      Resposta
  7. Morena Flor

    Yashá,

    Qto a fechar ruas, concordo plenamente com vc, é um grande absurdo – até pq, tais manifestações são abusivas para com quem NADA tem a ver com elas – ou seja, pessoas como eu, vc e qualquer cidadão brasileiro q vai simplesmente estudar, trabalhar, batalhar pelo pão de cada dia(bem como pela roupa q veste, pelo transporte q pega ou pelo carro q tem, dentre outras coisas), ao invés de recorrer a quem realmente importa(ou seja, a prefeitura, a sede do governo estadual, os órgãos de interesse para os quais se endereça as reinvidincações, etc).

    Agora, qto ao q vc disse sobre os salários “acima da média”, lamento discordar, mas NEM TODOS os cargos públicos tem essas benesses q vc mesmo disse: Professores de colégio público, funcionários de certas repartições públicas, policiais, bombeiros, médicos da já combalida e decadente saúde pública são apenas ALGUNS exemplos de cargos q há ANOS não tem um aumento decente, e isso é, infelizmente, um fato. Portanto, não dá para colocar todos os funcionários públicos no mesmo pacote, é bastante injusto.

    Isso é um ponto.

    Com relação às greves(e estou sendo “vítima” de uma, tô querendo pegar livro na biblioteca da minha facul e não estou conseguindo, pq os funcionários de lá(públicos) estão em greve e eu sou estudante de universidade federal – a UFBa), estou meio em cima do muro, pq ao mesmo tempo q concordo com as reinvindincações dos funcionários(cada um sabe aonde seu(dele) calo aperta), mas ao mesmo tempo, não concordo com ela, pois prejudica quem quer acessar a serviços da universidade os quais estão prejudicados por conta da greve.

    Enfim, é mais uma daquelas coisas cujo o “busilis” é o COMO fazer, e é aí q equívocos acabam sendo cometidos, como, por exemplo, esta onda de greves(aqui em Salvador – BA, teve uma semana INTEIRA coalhada de manifestações, de estudantes, servidores, etc, e, volto a dizer, concordo com vc, é um equívoco total tudo isso, além de nada adiantar, existem várias outras formas de protestar sem prejudicar a população. Parafraseando uma famosa propaganda do neston: Existem mil maneiras de protestar, invente uma, hehehehehe xD

    🙂

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Oi, Flor! E bem vinda de volta, agora à “casa nova”. Apareça mais! 😉

      Bom, concordamos no principal ponto do texto: fechar ruas é absurdo, ilegal, imoral e engorda. Agora vamos às “divergências” (assim, entre aspas, porque acho mais incompreensões do que divergências propiamente ditas:

      Eu não digo que todos os servidores públicos ganham bem e têm benesses. Sei que os professores das prefeituras do interior do Nordeste, por exemplo, são HERÓIS no sentido primordial da palavra. O que afirmei foi outra coisa: os vencimentos no serviço público são mais altos que a média nacional. E isso é questão de fato! Se tomarmos os salários de todos os brasileiros da iniciativa privada e fizermos a divisão per capita, fica fácil descobrir que eles recebem, em média, bem menos que os do serviço público. Foi isso que afirmei.

      Quanto a protestar e lutar por direitos, bem… Eu não me oponho, for God’s sake! Eu sou contra a greve no serviço público, e já disse por quê. Mas há muitas outras maneiras de protestar e mostrar insatisfação. Uma delas – veja que coisa! – é a democraticamente mais aceita: recorrer ao Judiciário!

      Pensemos juntos: meu vizinho entra na minha casa e leva embora uma das minhas duas TVs, pois ele não tem nenhuma. Eu devo: a) piquetear a rua da minha casa para conscientizar a sociedade acerca do problema da violência urbana, e exigir providências das autoridades públicas; ou b) ACIONAR A JUSTIÇA

      Percebe? Greve, no serviço público brasileiro, perdeu o caráter de última medida, para se tornar standing procedure de sindicatos via de regra partidarizados (ou você conhece algum sindicato público que não seja dirigido por um militante de PT, PSOL, PCdoB, et caterva?).

      That’s it. Liberdade de manifestação e de externar insatisfação ou revolta (desde que feita dentro da lei e sem afrontá-la) é algo sagrado! Não me oponho a isso. Me oponho mesmo é ao modus operandi, essencialmente político-partidário e improdutivo.

      Resposta
  8. Errinelson

    Texto bom, a greve em alguns momentos se faz necessária. O exagero está em fechar ruas e avenida e com isso limitar a mobilidade de quem pagar os salários dos agentes públicos, sem olvidar que as greves que hoje ocorrem em terrad tucujus são precipitadas e oportunistas, tendo em vista o pouco tempo do atual governo.

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  9. Alcy Quaresma

    Interessante seu comentário e vou além. O principal objetico de se grevar era atingir o patrão nas empresas privadas, pois com a paralização dos funcionários, os lucros com certeza seriam baixos ou quase nada. No entanto, greve de servidor público deve ser encarada como agressão ao cidadão. A greve é o lado mais obscuro da reinvidicação. Deve existir uma maneira de lutar por direitos sem que para isso tenha que tomar o povo como refém para negociar com o governo. Para mim, a greve de servidor nada mais é do que isso: USAR O POVO COMO REFÉM PARA NEGOCIAR COM O GOVERNO E OBTER BENEFÍCIO PRÓPRIO.

    PS: também sou servidor público.

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  10. Anônimo

    Você fala como menino mimado que é, sem conhecer a realidade que há no mundo real do trabalho e do serviço público. Nem perco meu tempo rebatendo.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Eis os “argumentos” da galerinha que tem criticado meu texto. É o melhor que podem fazer?! VIXE!!!

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  11. Catarina

    Só posso dizer que é mais um texto muito bom, com argumentos muito bem articulados e que ainda não conseguiram rebater.

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    1. Thiago - RJ

      Pois é, esse pessoal “progressista” que se es-can-da-li-za com as opiniões de quem ELES entendem como conservadores, reacionários ou ” de direita” raramente consegue ultrapassar o argumento “ad homine”. E ainda assim conseguem misturar alhos com bugalhos.

      O cara emite uma opinião contra movimentos racialistas e política de cotas, e vem: “você é racista” (brincando disso um famoso blogueiro “progressista” foi processado e perdeu); uma contra a intromissão do estado na supremacia da independência e intimidade familiares no que tange à educação dos filho, “você é um troglodita que quer agredir as crianças, violência é a solução para você!”; e por aí vai…

      Os que vão além disso costumam recorrer a ginástica olímpica interpretativa, incoerência lógica ou argumentação falaciosa. Exemplo: evangélicos expressarem opiniões de cunho moral contra homossexuais é “homofobia” (eita uso errado e militante do termo); maconheiros em marcha entoando palavras de ordem a favor da descriminalização da posse de ENTORPECENTE ILÍCITO não é apologia de crime nos termos do art. 287 do Código Penal (aliás, ninguém notou esse gap lógico: o que eles querem é que continue proibido produzir, armazenar, transportar, comercializar ou doar uma coisa; porém, comprar, portar e usar essa mesma coisa passa a ser lícito. Ahn?)

      Sem falar, é claro, das pessoas de classe média que adoram condenar moralmente comportamentos e opinões que “é tudo coisa de classe média reacionária)…

      Resposta

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