Sinto saudades do Bush que não apoiei, ou evitava apoiar…

O colunista E. J. Dionne Jr., do Washington Post, escreveu um texto ótimo sobre o debate entre os candidatos a candidato a Presidência pelo Partido Republicano, realizado semana passada, em New Hampshire.

Dionne Jr. conta que, ao ver os principais nomes do GOP no palco, revelando suas idéias e visões de mundo, chegou a sentir saudades de George W. Bush. Taí, foi exatamente a mesma coisa que me ocorreu na hora, mas não tinha conseguido indentificar, então, tal sentimento. Por incrível que pareça, o nível rasteiro dos principais nomes Republicanos faz o ex-Presidente parecer um estadista – algo absolutamente espantoso!

Evidente que não estou entre os que consideram George W. Bush como o grande satã do mundo contemporâneo. Pelo contrário, até. Acho que ele fez muito bem em apear Saddan do poder (o Iraque, hoje, é um lugar melhor e só imbecis podem negar isso), e acertou em cheio ao dar um pontapé na bunda dos Talibans, no Afeganistão (tirou Bin Laden da zona de conforto e o vagabundo acabou apanhado).

Mas também é óbvio que não o trato como um estadista, alguém que merece estar no panteão da história dos presidentes americanos. Façavor, né? Longe diso… A questão é que os republicanos de hoje parecem moleques, quando comparados aos “falcões” de então. Não é que Bush fosse um candidato conservador perfeito. É que ele parece muito bom quando a gente conhece as tranqueiras que o GOP pretende oferecer ao eleitorado americano.

Michele Bachmann, a mulher que deveria ter o sex appeal de Sarah Palin, mas com um tantinho mais de cérebro, disse, a certa altura do confronto, que centenas de ganhadores do Prêmio Nobel (sim, ela disse centenas mesmo!) duvidam da teoria evolucionista, preferindo tomar como verdadeira a tese do criacionismo. Mais adiante disse não existir “uma única pesquisa demonstrando que o dióxido de carbono seja um gás nocivo”. Ela é considerada, hoje, uma das favoritas a ganhar a indicação republicana.

Newt Gingrich afirmou durante o debate que seria justo obrigar os muçulmanos que trabalham no governo americano a “prestar um juramento de lealdade”. Sim, mais ou menos como se fazia no fascismo… Ele é considerado por muitos analistas políticos como sendo o mais inteligente dentre os postulantes republicanos. Vão vendo o nível da bagaceira…

Mitt Romney, um sujeito que já tentou antes ser o candidato do GOP e é saudado como o mais moderado (neste caso pode-se dizer sensato mesmo) do grupo, chegou a afirmar que a América está “a centímetros de deixar de ser uma economia de mercado”. Quando ele disse isso eu dei aquela olhada cuidadosa no homem, procurando um sorrisinho maroto no canto da boca, ou uma piscadela ligiera. Enfim, qualquer coisa que antecedesse um Bazinga!, e mostrasse que ele estava apenas tirando onda. Que nada… O cara falava a sério – ou, ao menos, pretendia afetar seriedade….

Tá feia a coisa pro lado Republicano, e o problema não é o Presidente-de-ébano Barack Obama. Imaginem que mesmo depois de mandar Bin Laden pro colo do capeta (copyright Alborghetti), o democrata simplesmente não consegue decolar na aprovação dos americanos, que mostram não confiar nele para sair da crise econômica. O busílis é que cada vez mais fica claro que do outro lado só tem maluco! Basta lembrar que até outro dia um dos fenômenos republicanos era ninguém menos que Roberto Justus Donald Trump, o cara cuja principal plataforma de campanha era negar a nacionalidade americana de Obama! Aí complica a coisa…

Idéias sobre como debelar os problemas financeiros? Sempre o mesmo discurso padrão do corte de impostos. Ele é importante, for God’s sake, mas não pode ser a única carta na manga. Principalmente quando nenhum parece saber como e onde cortar as despesas. Nem o discurso de baluartes da segurança nacional restou, afinal o negão – é preciso que se diga – pegou ninguém menos que Bin Laden! Imaginem um debate entre Obama e um desses sei-lá-quemzinhos em 2012:

Republicano: A América precisa de alguém forte no comando do país. De um verdadeiro comandante-em-chefe das Forças Armadas, e…

Obama [interrompendo]: Eu peguei Osama Bin Laden.

Republicano [gaguejando]: É… Mas a política nas frentes de batalha precisa…

Obama [interrompendo de novo]: EU PEGUEI OSAMA BIN LADEN!

Na boa, eu olho o naipe dos caras que o GOP pretende mandar pra arena, e antevejo um massacre. Nenhum parece estar sequer ao nível do velhote John McCain – que nem era lá essa Coca-Cola toda… Quando eu penso que os republicanos já tiveram Lincoln e Roosevelt… Pelamadrugada!

A impressão que tenho é que o Partido Republicano viu o início desastroso de Obama (gastando seu capital na impopular reforma da saúde, em vez de atacar os problemas econômicas), ganhou as eleições de midterm e deitou eternamente em berço esplêndido, esperando que a Casa Branca lhe caísse no colo por gravidade. É como se depois dos primeiros dois anos de mandato eles tivessem concluído que “qualquer um ganha dessaí!”

Não! Não ganha. Obama está longe de ser um candidato imbatível, mas é sem dúvida um candidato fotíssimo. Fazendo uma analogia com Lula, pode-se dizer que o democrata também é um homem de palanque. Ele se sente confortável em campanha, diante de platéias embevecidas, olhando o teleprompter e discursando com o queixo erguido e o olhar sonhador. Não vejo nenhum dos nomes republicanos capaz de fazer frente ao apelo midiático de Obama, em que pese o desgaste natural do exercício do poder.

O GOP, na busca desesperada por se mostrar a antítese da agenda liberal de Obama, tem confundido conservadorismo com estupidez (e, a despeito do que digam os progressistas, as duas coisa são muuuito diferentes). A vida dos democratas fica imensamente mais fácil, afinal os eleitores mais identificados com a esquerda já estão no bolso de Obama; e os moderados facilmente taparão o nariz e votarão no atual presidente, principalmente se do outro lado estiver algum maluco cuja principal bandeira seja defender que o homem veio do barro…

Não sou louco de cravar o resultado da eleição americana (quem faz isso são os especialistas, como Jabor e companhia), mas o cenário que se desenha leva a crer que a reeleição de Obama pode vir a ser um presente dado pelos incompetentes republicanos, perdidos entre suas caricaturas políticas.

_____

P.S.1: Fosse eu americano, meu candidato republicano ideal seria Walter Williams. Não sabem quem ele é? Em resumo é um negro que defende o livre-mercado, a meritocracia e é contra as cotas raciais. Dane-se o resto, pra mim já tão muito bom!

P.S.2: Meu segundo candidato republicano ideal seria Alan Keyes. Ele também é negro e também defende tudo que Williams defende. Só é um tantinho mais porra-louca (gosta de dizer que Obama é um “radical comunista” o que… bem… vergonha alheia, né?).

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6 ideias sobre “Sinto saudades do Bush que não apoiei, ou evitava apoiar…

  1. adriano@terra.com.br

    “Quando eu penso que os republicanos já tiveram Lincoln e Roosevelt”

    Lincoln e Reagan, você quis dizer, né?, porque Roosevelt era democrata.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Não, Adriano. Queria dizer Lincoln e Roosevelt mesmo. Me referi ao Theodore Roosevelt, não ao Franklin D. Roosevelt. Aquele é realmente menos conhecidos, mas teve um papel que reputo muito importante. Talvez eu devesse ter sido mais cuidadoso e indicado o prenome dele, já que por aqui o FDR é o mais famoso dos Roosevelt.

      Resposta
  2. T-Wolve

    Pô, Walter Williams seria um SONHO! Mas seria mais fácil Obama renunciar, se filiar ao Partido Republicano e disputar a presidência contra Hillary Clinton, do que o Williams entrar nesse bonde republicano de agora.

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    1. Thiago - RJ

      Pois é, Master Walter não entra nessa, a arena dele é outra.
      Mas convenhamos: um Alan Keyes sob controle seria imbatível. Até porque, por aqui, a gente acha essa história da nacionalidade do Obama muito esquisita, mas os “birthers” têm um peso não-desprezível nos EUA, e há pesquisas que indicam (citadas por Olavo de Carvalho em algum “True Outspeak” passado) que a maioria dos que respondeu já não confiam na legitimdade da certidão de nascimento.
      Ademais, seria muito divertido ver o que a esquerda faria com toda a retórica do “ele é negro; presume-se quase racista quem for contra ele”, aplicada a Obama, agora em relação a um republicano de tez ainda mais escura.

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  3. Lucas Torres

    O partido republicano está cometendo o mesmo erro que PSDB e DEM cometeram no pós-mensalão: acreditar que o oponente está derrotado desde logo, e que qualquer um poderá vencê-lo. Vão quebrar a cara, se continuar assim.

    Thiago, me permite uma observação? Não acho que os “birthers” tenha muita importância na hora-do-vamo-vê. Basta ver o fiasco que foi a pré-pré-pré-candidatura do Trump.

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    1. Thiago - RJ

      De fato, mas fazem barulho. A questão é que Trump seria um péssimo candidato, mas criou um “fato político” que criou alguma repercussão, deixou algumas pessoa indispostas com Obama. Essas pessoas (ouvintes de programas de rádio de conservadores, leitores de jornais impressos e eletrônicos conservadores, moradores dos “EUA profundos”) já eram republicanos, já nunca votariam em Obama, mas com essa história da certidão acabam ganhando um sopro de ânimo. E se manifestam, falam mal, se engajam mais – e, especialmente, vão às urnas, já que lá o voto é facultativo.

      Se o John McCain tivesse batido na tecla na campanha eleitoral, além de todas as outras em que bateu, o Obama talvez tivesse tido mais trabalho para vencer. Seria bem menos “mito”.

      Esse tipo de questão não-abstrata pode não ser a alma, mas é a coluna vertebral da política como atividade. O embate genuíno, na prática, acaba sendo mais entre pessoas, reputações, biografias.

      Aqui no Brasil, por exemplo, o PT busca delimitar o campo de atuação das oposições – as idéias, e mesmo assim, até certo ponto – e minar o debate político. Um confronto mais pessoal com algum político específico, como Palocci (exemplo-mor) ou mesmo esse Dr. Hèlio vira “ataque”, “agressividade”, “ódio típico da direita”, etc. Os birthers têm uma bandeira que, se acaba não sendo de grosso calibre eleitoral, sempre incomoda. Afinal, saber se um indivíduo detém as condições constitucionalmente previstas para ser Presidente é um questionamento legítimo em qualquer democracia. Costuma ser uma besteira mas, exatamente por isso, é sempre bom checar, certo?

      Resposta

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