Órfão de livros.

Eu não lembro bem com que idade peguei de vez o gosto pela leitura, mas lembro bem qual foi o livro que me arrebatou então: Se houver amanhã, de Sidney Sheldon. Li aquele “tijolo” em uma semana. E daí não parei mais.

Já li alguns dos chamados clássicos. Ainda bem menos do que eu gostaria deveria. By the way, o número ideal de clássicos que uma pessoa deve ler é n+1, onde “n” é o total de livros clássicos já lido pelo sujeito.

Li também livros “menos importantes”, mas igualmente muito importantes… Aprendi que O senhor dos anéis é o Pelé da literatura de fantasia, e que os demais só podem brigar pelo segundo lugar. Descobri que depois de ler Orgulho e preconceito, de Jane Austen, nenhuma outra história de romance parece boa o bastante.

Fui atormentado pela dúvida sobre a suposta traição de Capitu, em Dom Casmurro, na primeira vez em que li essa magistral obra de Machado de Assis. E tive a certeza daquela traição ao reler o mesmo livro, anos depois. Que outra interpretação poderá me ocorrer quando o (re)reler uma outra vez?

Depois, ao ler Memórias póstumas de Brás Cubas, fui surpreendido ao descobrir que a obra prima de Machado não tinha sido a narração da tragédia de Bentinho. Por incrível que pudesse parecer, ele ainda tinha como melhorar. Que gênio!

Li O brejal dos Guajas e Saraminda, para poder criticar com autoridade o “Sarney enquanto escritor”. E pude confirmar que ele escreve pior que Bruna Surfistinha – que, por sua vez, é uma puta escritora!

Também passaram pelas minhas mãos Estorvo e Budapeste, do intocável Chico Buarque. E devo dizer que ele, como escritor, é um ótimo letrista… O começo daquele segundo livro é emblemático: “Fui dar em Budapeste…” FOI DAR AONDE?! Perdoem minha ortodoxia, mas nenhum escritor decente pode cometer tamanha cacofonia (ou terá sido um ato-falho? #HOMOFOBIANAO!).

Descobri que Graciliano Ramos é meu prosador preferido bem depois de saber que ele foi um um dedicado comunista. Eis aí a prova de que não me deixo nortear por preferências ideológicas. Angústia é um verdadeiro tratado sobre a psiqué humana que não pode passar desapercebido pelas mãos de nenhum leitor.

Aprendi que Sartre não é lá tudo isso que dizem… Não chega aos pés de um Albert Camus, por exemplo. Aliás, quanta gente overrated nesse mundo da literatura, não? José Saramago acima de qualquer outro: alguém com a – me permitam o neologismo – “pontuaçãofobia” que esse sujeito tinha deveria ser proibido de ganhar um Nobel! Leiam Ensaio sobre a cegueira. Depois vejam o filme Blind, inspirado no livro. Este é melhor que aquele. Muito melhor! Um filme melhor que o livro do qual foi originado?! I rest my case. “Mas é um estilo novo! De vanguarda!” É… Dizem isso sobre a tal banda Restart também…

Li O apanhador no campo de centeio e descobri que rebeldia adolescente não existe. É tudo uma invenção dos vários pedagogos, psicólogos e estudiosos modernos, ávidos por passar a mão na cabeça de moleques irresponsáveis e levados. Não foi essa a “mensagem” que você tirou do livro? Leia de novo! Estou com J.D. Salinger até o fim: quem escolhe fazer besteira deve assumir a responsabilidade por ela, tenha a idade que tenha.

Não posso evitar o clichê de dizer que aprendi língua portuguesa com Camões. Descobri ainda que a poesia brasileira é pobre, e seus grandes nomes se resumem a um punhado de escritores. Álvares de Azevedo, Castro Alves, Drummond, Mário Faustino… Esqueci alguns, com certeza. Mas poucos

Gastei um tempo importante lendo Marx só para descobrir que ele plagiou Hegel. Em nenhum momento a história do capitalismo que traz em si mesmo o germe de sua própria destruição me soou verdadeira, porque li também alguma coisa da Escola Austríaca. A maneira como os velhotes do norte destroçam os postulados socialistas/comunistas sem nenhuma piedade chega a ser bullying com o coitado do Marx…

Li bem menos do que deveria sobre Santo Tomás de Aquino, mas o suficiente para perceber que ciência e religião não são – nem devem ser – concorrentes (ou excludentes), coisa que ele percebeu há séculos atrás.

Descobri meu conservadorismo ao ler Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Descobri meu liberalismo ao ler As seis lições, de Mises. E aprendi com Ortega y Gasset, antes mesmo de ter uma carteira de habilitação, que “não haveria totalitarismos não fossem as massas e suas rebeliões”.

Li Crime e castigo, o tipo do livro que obriga o leitor a amadurecer. Se não vai por bem, vai por mal, porque ninguém continua “criança” depois de ler – e entender! – aquilo.

Lendo descobri que na Alemanha nazista os homossexuais eram mandados para campos de trabalhos forçados, e isso me fez concluir que Hitler não era uma boa pessoa. Depois fiquei sabendo que na Cuba pós-revolucionária acontecia o mesmo, razão por que o “mito” Che Guevara também não me pareceu nada simpático.

Soube que Luther King Jr. só via duas alternativas para uma mulher: esposa ou prostituta. Também descobri – não sem alguma surpresa – que Ghandi apoiava a submissão das mulheres frente aos homens. Isso ajudou-me a entender que não há ídolos perfeitos, pois todo homem é formado também por grandes defeitos.

Li Mussolini conclamando o povo a “estabelecer metas e, com dedicação, compromisso e afinco, lutar para atingi-las”. E aprendi que nem toda boa citação nasce de um bom sujeito.

Enfim… Li um bocadinho já. Um tanto que sem dúvida está bem acima da média nacional brasileira – que é vergonhosa e não serve de parâmetro, diga-se. Mas bem menos do que deveria. Aliás, todos sempre lemos menos do que deveríamos!

Só que estou órfão de livros. Nestes tempos sombrios em que proliferam os vários Gabrieis Chalitas, Fábios de Melos e Paulos Coelhos, é cada vez mais difícil encontrar algo decente para ler.

Inconscientemente, já reli todos os meus livros bons. Mais de uma vez! E quando decido procurar coisas novas, me deparo com essa auto-ajuda-de-resultado que tomou de assalto as livrarias do país, rebaixando ainda mais o nível literário.

E eu nem peço livros novos de qualidade. Bastaria poder encontrar os clássicos nas livrarias, mas não sobra nenhum espaço entre os milhares de Chalitas e Crepúsculos…

Quero livros novos para poder ler! E depois reler, quando forem “livros velhos”

É pedir muito?

_____

P.S.: Os livros que citei não são todos os que li. Nem necessariamente os preferidos. São só alguns dos que lembrei na hora. Também não estou sugerindo que todos devam ler e gostar dos livros citados. Não há mensagens subliminares aqui, meus caros. Há só texto mesmo, nada além.

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25 ideias sobre “Órfão de livros.

  1. Lucas Torres

    Na minha pobre opinião, trata-se de um dos MELHORES textos já escrito por você! Muito, muito bom!

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  2. Anônimo

    Já escrevi dois comentários, mas asua censura não permitiu que minha liberdade de expressão fosse exercida! É assim que você se diz democrata? Porque não aceita minhas críticas? Só porque mostrei que a única razão que te leva a difamar um ator reconhecido e premiado como Chico Buarque é sua visão deturbada da política? Seja sincera pelo menos uma vez e admita que você só não gosta dele porque ele é de esquerda.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Os outros dois comentário foram pro lixo porque não estavam criticando, mas XINGANDO. E eu não sou obrigado a aceitar ofensas no MEU próprio blog. Quer xingar? Faz um blog pra você, colega (o domínio “euodeiooyashagallazzi” tá livre. Corre!).

      No mérito, só posso dizer que sua condição de fã histérico do Chico o deixou tão cego, que o impediu de ver os elogios que fiz a Graciliano, meu prosador preferido. E um COMUNISTA! Não, eu não me deixo nortear por preferências ideológicas. Critico os livros do Chico porque… bem… os acho RUINS mesmo! Ah, ele é premiado? Tem muitos leitores e fãs? Mas e eu com isso?! Continuo achando ruim, ué. Contudo, não acho que a opção política faça um escritor bom ou ruim. Acho, isso sim, que um escritor ruim faz ideólogos políticos péssimos.

      Por fim, onde você escreveu “Porque não ceita minhas críticas?”, devo dizer que aquele porquê é separado e sem acento. E não existe visão “deturBada” da realidade. Há, no máximo, uma visão deturPada.

      De nada.

      Resposta
  3. Anônimo

    Pensei que vc fosse citar mais autores italianos, mas que bom que vc admira os autores brasileiros.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Como disse no “PS”, citei só os que me ocorreram na hora. Há muitos outros – igualmente brilhantes – que deixei de mencionar. E, sim. Claro que gosto de autores brasileiros.

      Resposta
  4. Catarina

    Adorei o texto também. Me fez lembrar muito do que já li. E senti saudades!

    Você leu Umberto Eco? O que achou?

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Eu li só dois livros de Eco. “O nome da rosa” e “Baudolino”. Há pouco a dizer sobre aquele. Trata-se de uma das obras mais grandiosas da literatura. Já este último não me empolgou…

      Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Aula com ele? VIXE! Que matéria ele vai lecionar? Sugiro a criação da cátedra “Como espalhar o amor pelo mundo”.

      Resposta
  5. Mauro

    Eu acho que você deveria escrever mais desses textos de “jogando conversa fora”. São seus melhores.

    Resposta
  6. George

    “A maneira como os velhotes do norte destroçam os postulados socialistas/comunistas sem nenhuma piedade chega a ser bullying com o coitado do Marx…”

    Perfeita síntese do que representou a Escola Austríaca.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      E você acha que eu li muito, Nélio? Que nada! Como escrevi, só li mais que a média brasileira. O busílis é que ela é absurdamente baixa! Pra você ter uma idéia, li menos do que eu gostaria de ter lido.

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  7. Eduardo Távora

    Sugiro-lhe a leitura de “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand.
    É considerada por muitos a bíblia do liberalismo econômico. É um livro enorme, excepcional e super atual (apesar de ter sido lançado em 1957).

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Já li, meu caro. E não poderia concordar mais com você: é uma obra grandiosa.

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  8. Eduardo Távora

    Deveria ser leitura obrigatória para todo cidadão que pense em se candidatar para qualquer cargo público. Assim poderia acabar o fisiologismo predominante no Brasil.
    Precisamos de um John Galt pra chocar o sistema.

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  9. Paulo Oliveira

    Pôooooxa! bacana, leia mais meu filho talvez assim você possa entender, um dia, que não precisaria ler tanto para entender a vida.rs…rs…

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Verdade, não precisa ler muito para entender a vida. Mas ajuda, viu? Ah, ajuda bastante.

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      1. Marcelo

        Sou bibliotecário, nesses poucos anos dentro das bibliotecas como estagiário e depois como profissional, presenciei várias situações a favor ou contra a leitura, o ódio e o amor pelos escritores, concordo com você em relação a dificuldade de encontrar bons títulos atualmente.

        Resposta

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