A organização da Parada Gay e os discípulos de Bolsonaro: as duas faces ESTÚPIDAS da mesma moeda.

No último final de semana foi realizada a Parada Gay em São Paulo, um evento cujo objetivo principal, devo confessar, ainda não logrei entender… O que querem, afinal, os participantes? Direitos iguais? Fim do preconceito? Simplesmente desfilar em trajes sumários? Há tanta coisa diferente no tal evento, que fica difícil acreditar em uma – como direi? – “pauta mínima”. Mas já divago…

Evidente que os gays, assim como quaisquer outros grupos organizados pacificamente e dentro da legalidade, podem realizar a manifestação que bem entenderem. Da mesma forma que milhões de evangélicos saíram às ruas na tal “Marcha para Jesus”, também os gays (ou os ateus, ou os vascaínos, etc…) podem desfilar suas palavras de ordem livremente. Isso é liberdade de expressão, um dos maiores corolários de uma sociedade civilizada e democrática.

O busílis aparece quando a organização da tal parada decide, de forma livre e consciente, ultrajar terceiros. Foi o que fizeram ao usar imagens de santos da Igreja Católica em tom jocoso, de escárnio. Aí a manifestação livre sai do terreno da civilidade e entra no campo da provocação aberta e gratuita.

A desculpa dada por um dos organizadores da parada, Ideraldo Beltrame, foi uma campanha de combate a AIDS. Disse o sujeito:

“Nossa intenção é mostrar à sociedade que todas as pessoas, seja qual for a religião delas, precisam entrar na luta pela prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Aids não tem religião.”

Hum… E como exatamente isso seria demonstrado por meio de cartazes exibindo modelos SEMINUS posando como se fossem santos católicos?! Lia-se nos cartazes: “NEM SANTO TE PROTEGE”. Parece bastante claro que o objetivo não é conclamar os católicos para a luta contra a AIDS, mas apenas provocar. Assim, da forma mais rasteira possível…

Desnecessário dizer que a mera idéia dos tais manifestos está errada de per si, afinal, se todos seguissem o que prega a Santa Madre, é perfeitamente possível presumir que o número de casos de AIDS seria bem menor. Basta usar a lógica, não é mesmo? A conclusão é bastante óbvia: se santo não protege, cartaz de parada gay também não…

A impressão que se tem é que as tais “minorias” organizadas já desistiram de lutar “apenas” por direitos iguais. O objetivo parece ser erradicar a divergência. Em outras palavras, reivindicar a tolerância da sociedade é coisa do passado: não basta aceitar, é preciso ser entusiasta da causa. E quem não for? Bem, deve ser ultrajado, ridicularizado, achincalhado. Afinal, trata-se de alguém “obscurantista” e “careta”…

Eu sempre me surpreendo com a intolerância dos que dizem lutar por mais… tolerância! Essa – se me permitem o termo – “bolsonarização” que se viu na Parada Gay deste ano só mostra como esses opostos são parecidos e chegam a se tocar, cada um cavalgando seus argumentos rasteiros e suas retóricas catastrofistas. Em essência, não há diferença entre esses extremos. São todos intolerantes e adeptos da barbárie.

Vejam, por exemplo, o que disse a deputada Myrian Rios, outra parlamentar que parece formada na Faculdade Jair Bolsonaro de Estupidez Aplicada:

“Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente” (…) “Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada”

A deputada não foi apenas de uma imbecilidade espetacular. Foi muito além: ela sugeriu que pode haver uma relação entre homossexualismo e pedofilia, uma conduta que, é sempre bom lembrar, constitui crime.

De onde veio isso? Eu gostaria que a deputada me apresentasse um único estudo sério sustentando sua ilação criminosa e rasteira. Não há nenhum! Não tenho dúvida de que a deputada deve ser acionada judicialmente, afinal ela imputou a um inteiro grupo social a prática de um delito. Esse é o tipo da coisa que não pode passar impune, pois atenta contra o cerne da sociedade civilizada.

Percebam que nem entro no mérito das preferências pessoais dela! Sou bastante liberal a ponto de aceitar que uma pessoa é livre para empregar em sua casa quem bem entender, sem patrulhamento do Estado ou do pensamento politicamente correto. O que critico é a construção criminosa que ela fez no final daquele – vá lá… – “raciocínio”. De tão pedestre e abjeta, joga no lixo todo o restante.

Percebam que, em última análise, não há diferença entre os dois lados, que parecem deliberadamente ter optado pelo caminho dos extremos da intolerância. Ambos não se limitam a expor suas visões, criticando o que acham que deva ser criticado. Vão sempre além da diversidade democrática e adentram o terreno da incivilidade bárbara, pregando que o “outro” seja diminuído, criminalizado, apartado da sociedade. São duas vertentes do mesmo fascismo, nada mais.

A deputada Myrian Rios (assim como Bolsonaro e tantos outros) está certa em criticar o PL 122, denunciando o cerceamento de liberdades que ele pretende promover. É a forma com que fez isso que rebaixa toda a argumentação, levando o debate ao estágio mais baixo de todos. O senador Magno Malta, evangélico e crítico ferrenho daquele projeto de lei, tem mostrado que é perfeitamente possível fazer críticas contundentes sem flertar com nenhuma canalhice – ou sem imputar falsamente crimes a outrem.

Em análise estrita, é a mesma coisa que fez a Parada Gay em São Paulo. Que os homossexuais marchem e repitam slogans pedindo igualdade e fim do preconceito. Não há nada de errado nisso, pelo contrário! A escolha pelo extremo mais bárbaro surge quando eles decidem vilipendiar  símbolos do catolicismo, apenas pelo simples prazer de diminuir o “outro” que deles discorda.

Vão dizer que a Igreja “persegue” os homossexuais, mas isso… bem… é mentira! A Igreja, como parte integrante da sociedade (e ela o é, apesar do chororô generalizado), limita-se a expor suas opiniões e suas crenças sobre os temas. E – atenção agora! – ela se dirige aos seus fiéis. Só deve obedecer a Santa Madre quem comunga de seus preceitos. Nenhum gay (ou hétero, ou canhoto, ou ruivo…) que discorde dela precisa dar importância ao que acham os padres, os bispos ou o Papa. Quando uma autoridade católica fala, ela se reporta apenas a quem se comprometeu, por meio dos sacramentos, a seguir os ensinamentos. E uma sociedade livre deve entender que padres, pastores ou sei lá que outros ministros religiosos têm o direito de discordar do que bem entenderem (sempre de forma pacífica e dentro da legalidade), da mesma forma em que deve entender que os homossexuais têm os mesmos direitos e obrigações dos demais cidadãos.

Não deixa de ser curioso que os extremos do debate se valham de métodos fascistóides tão equivalentes… Chegam a ser tão parecidos, em sua sanha hidrófoba contra aquilo de que discordam, que parecem uma caricatura apontando para o próprio reflexo no espelho, acusando o “outro” de não ser tolerante. Ridículos – ambos os lados!

Enquanto tiverem como principal bandeira varrer o outro do mapa, não haverá discussão séria possível. É preciso aceitar que o saudável exercício da divergência deve obrigatoriamente se dar dentro dos limites próprios do jogo democrático, pois fora deles não há civilidade alguma. Só barbárie. Quando isso tiver sido entendido, poderemos debater a sério as outras questões “menores”…

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17 ideias sobre “A organização da Parada Gay e os discípulos de Bolsonaro: as duas faces ESTÚPIDAS da mesma moeda.

  1. Stalker

    Me senti ofendido por relacionar nos exemplos os ateus, com vascainos e gueis unico infortunio pior que isso é ser flamenguista(não desejo a ninguem tamanha miséria).
    Eu, como presidente da AAA ´´Agremiação dos Ateus Anonymous“ estarei representando junto a ADEBRA´´ Associação dos Adevogados do Brasil“ um processo. Teje preparado seu minino.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Hahahahahahaha! Realmente, ninguém merece ser comparado a vascaínos. Aceite minha retratação.

      Resposta
  2. Anônimo

    Não concordo. Você diz que a igreja não persegue os homossexuais, mas isso está errado. Basta ver que muitos padres vivem dizendo que não casarão os homossexuais em suas igrejas, mesmo que seja aprovada pelo congresso uma lei instituindo o casamento deles.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Você está confundindo as coisas. Se o Congresso aprovar o casamento homossexual (acho até que DEVE aprovar!), tratar-se-á do casamento CIVIL. Nenhum parlamento do mundo pode legislar sobre casamento religioso, porque são searas que não se misturam.

      Igrejas são basicamente associações PRIVADAS, com regras próprias. Associa-se quem QUER. E quem quiser, DEVE aceitar as “regras”. Nada impede que você crie a Igreja antibotafoguense da graça de Deus, onde nenhum torcedor alvinegro seja aceito. O busílis é querer negar os direitos CIVIS aos botafoguenses também, sacou?

      Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Sim, é um baita dum clichê, mas cabe perfeitamente ao caso.

      Resposta
  3. Olegario

    Yashá,

    Curto e direto:

    A nação seria melhor servida por um Bolsonaro ou por um Luiz Mott…?
    Quem representa com dignidade a ordem e a moral: O verde – oliva ou o corpo siliconado dos que são protagonistas na marcha gay…?
    Tenho amigos e funcionário homosexual.
    E a eles rendo minha amizade, meu respeito e minhas preces.
    Por isso destaco a diferença gritante de um homosexual “daquilo” que se exibe na Av. Paulista desordenadamente, tambem conhecido com Gay militante.

    Olhe a tolerancia deles:

    Forte abraço.
    Olegario.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Olegário, pessoalmente eu acho o Brasil seria melhor se NEM Bolsonaro, NEM Mott fossem levados a sério.

      Não vejo o “verde-oliva”, nem “o silicone” como representantes da moral. Ela é uma construção coletiva de valores emanados de TODA a sociedade. E faz parte da escala de valores morais da sociedade civilizada aceitar o direito PACÍFICO de manifestação. E a Parada Gay se enquadra nisso. Não vejo nenhum problema com a realização dela, nem com o que quer que se reivindique (dentro da LEGALIDADE) lá dentro. Recrimino é a decisão deliberada de ultrajar o “outro” – o “adversário”.

      Resposta
  4. Olegario

    Yashá,

    Compreendo perfeitamente o seu raciocínio.
    Mas penso que a liberdade dessa Marcha Gay esta dando um “start” para uma guerra ideológica de proporções imensas….
    Penso que isso não vai acabar bem.
    Veremos.

    Abraços.
    Olegario.

    Em Tempo; Obrigado pela sua paciencia em postar meus comentários…

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  5. Felipe Flexa

    Vou na contramão.

    “Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas, e eu não vou poder fazer nada”.

    Ela não está generalizando. Ela está lançando uma hipótese (“sabe Deus”) do que talvez possa acontecer. O trecho publicado não é crime nenhum. Pode acontecer ou não pode. Uma pergunta que fiz a alguns amigos: você deixaria o seu filho (menino) na companhia de um padre?

    Veja bem: “Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai BATER nelas, e eu não vou poder fazer nada”. O sindicato das domésticas voaria em Myriam também. Fosse negra a doméstica em questão e mesmo tendo agredido de fato, ela poderia alegar preconceito racial e Myriam não poderia fazer nada.

    Estamos entrando numa sinuca de bico. Podemos discordar de Myriam. Mas ela tem o direito de ter suas dúvidas. Ou será que em menos de uma semana já aconteceu o que eu temia: a tal decantada liberdade de expressão não vale pra todo mundo?

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Meu caro Felipe, obrigado pela moral de vir aqui neste humilde blog. Fico lisonjeado! Adiante:

      O problema não foram as dúvidas ou as preferências de Myrian. Note que no próprio texto eu disse que cada um contrata pra trabalhar em sua casa quem bem entender. Se ela não quer uma babá lésbica, entendo que é direito dela, assim como uma família atéia tem direito de não querer uma babá religiosa, por exemplo. O busílis todo foi sugerir (de forma nada velada!) que pode haver uma relação entre homossexualismo e pedofilia. Aí, entendo, a coisa começa a ir pro vinagre…

      Resposta
  6. Gabriel

    Magno Malta é autor de frases inteligentes como esta: “se dois homens estiverem se beijando na igreja, o pastor não vai poder fazer nada”.

    Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Gabriel, perdoe-me, mas não consegui (de verdade!) sacar se você foi irônico, ou não. Perceba: o senador está certo! Se o PL122 for aprovado, um pastor (padre, ou qualquer outro ministro) não poderá impedir uma manifestação daquelas dentro do templo. E, bem… Acho isso um ABSURDO! Como disse no texto, igrejas são associações PRIVADAS. Elas podem (sim, podem!) selecionar seu público. Da mesma forma que o fã-clube do Corinthians pode PROIBIR gente vestida de verde na sede social, uma igreja também pode permitir e proibir o que bem entender. Sabe por que isso é legal? Porque só participa da igreja quem QUER! Ninguém é obrigado. Logo, se entrou na igreja (e aceitou tacitamente suas regras), por que afrontá-las ostensivamente? Isso só tem um nome: PROVOCAÇÃO!

      Resposta
      1. elizabeth

        Gostei da sua colocação. Essa gente tem mania de misturar as coisas pra conseguir se sair bem.
        Como a deputada Myrian relacionou homossexualidade com pedofilia, querendo encontrar desculpas pra não votar à favor dos direitos “civis” dos gays.
        Tudo bem que ela tá no direito de admitir ou mandar embora quem ela não goste. Mas dizer que abusar sexualmente de crianças é o mesmo que ter atração por pessoas do mesmo sexo.
        E com um detalhe: Nenhum gay [ou lés] tem o hábito de forçar o outro a transar, é tudo numa boa. O que diferencia de muitos héteros[casados] que praticamente estupram suas esposas diariamente.
        E os líderes religiosos tem que chegarem à conclusão que eles “cantam de galo” é na suas Igrejas e não na sociedade.

        Resposta
  7. Gabriel

    Justamente pelo que você falou, o pastor que fizer isso não estará enquadrado na lei. O casal que fizer isso dentro da igreja que estará errado, pois está em local inapropriado para trocar carícias.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Local inapropriado do ponto de vista da moral cristã, não da lei. O PL122 é claro: não se pode cercear a liberdade de externar afeto em LOCAL ABERTO AO PÚBLICO. E uma igreja se enquadra nessa linha.

      Resposta
  8. livrexpress

    Se a Myrian Rios deve ser processada e linchada (como o Bolsonaro tem sido) por cometer o gravísssimo delito de não aplaudir o homossexualismo e até colocar tal palavra junto com pedofilia num mesmo discurso, fico aqui morrendo de preocupação com o que pode acontecer com milhões de ateus, gays, humoristas, jornalistas e seres parecidos que o tempo todo associam cristianismo (catolicismo, especialmente) à pedofilia. Afirmar ou insinuar que católicos são pedófilos é um crime bárbaro, não? Haja advogado e cadeia pra tanto piadista e progressista.

    Tô brincando, viu? A verdade é que, no mundo real, religiosos podem ser detonados à vontade, é chique, moderno e ‘progressista’. Religiosos (desde que não adeptos dos cultos afro) não estão amparados pelo Código Sagrado Politicamente Correto, esse que coloca gays e outros grupos de pressão exigentes -mas sempre coitadinhos- como incriticáveis, que não podem ser minimamente contrariados mas podem descer o pau à vontade em seus inimigos ‘reacionários’.

    Resposta
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