O aprendizado mais difícil.

Não existe transformação maior na vida de alguém, do que a paternidade. Sim, isso soa como um clichê velho, de cabelos brancos, com cachimbo e sentado num banquinho, ao pôr-do-sol. Mas é verdade! Só quando se é responsável de verdade por outro ser humano, que a vida começa pra valer – no hard mode.

Ser pai (ou mãe, vocês entenderam…) passa a ser o verdadeiro trabalho de quem faz essa escolha. As outras atividades do cotidiano, inclusive as que servem para pagar as contas no final do mês, não passam de complementos. E se para alguém não é assim, sinto dizer, you’re doing it wrong!

Deixamos improvisamente de ser aquelas pessoas que fomos um dia, para nos tornarmos simplesmente… pais. Não importa que idade temos, pois o fato é que a juventude definitivamente fica pra trás, porque, como disse o Tio Ben ao resumir toda a história da filosofia ocidental, “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

E, num repente – não mais que de repente -, eis que não nos reconhecemos mais naquilo que éramos, porque agora somos algo “maior”. Somos a busca incessante pela felicidade mais completa (o que quer que isso seja…), só para poder “entregá-la” a eles, esses pequeninos que dependem de nós.

Sempre que penso sobre essa experiência assim, com calma – como quando escrevo -, fica fácil entender a lógica de todo esse processo. Mas o cotidiano não acontece “com calma”… Talvez por isso mesmo – que ninguém me ouça! – ele é tão fascinante, com suas infinitas surpresas.

Quero dizer que basta raciocinar para saber que um dia, com absoluta certeza, um filho olhará para o pai e dirá o tão esperado “papai”. Qualquer um sabe disso. Todos sabem disso. É assim desde que o mundo é mundo… Mas eis que chega O dia e aquela palavrinha esperada, certa e nada surpreendente chega como uma brisa de primavera, aquecendo nossos corações.

A gente se prepara, se prepara… mas a verdade é que nunca está preparado, se é que vocês me entendem…

Aí se surpreende com qualquer coisinha boba, como um “papai” dito assim, do nada. Ou um pedido de colo logo de manhã. Ou uma beijoca estalada… E ainda bem que é assim, com essas surpresas chegando sempre e nos arrebatando.

O problema (como se houvesse um só…) é quando a realidade nos atinge sem piedade, mostrando que não somos os pais perfeitos que sonhamos ser – ninguém é! E é triste que seja assim

Mesmo sabendo que a vida tem a sua lógica própria, a gente sempre se surpreende quando aquela pessoa pequenina, crescendo e se desenvolvendo naturalmente, como deve ser, decide nos enfrentar para testar os limites. Os nossos limites – aqueles criados por nós, pais? Não! Eles testam os limites do mundo, valendo-se, para tanto, do diminuto ambiente que conhecem e dentro do qual vivem: a família.

Então, se é tudo tão claro e lógico, por que ainda nos deixamos surpreender e temos que ser tão impacientes algumas vezes? Por que aumentamos o tom de voz aquele decibel a mais que o necessário? Por que cruzar a tênue linha que divide a saudável imposição da autoridade paterna, da grosseria gratuita, exagerada e inútil? Só para nos sentirmos mal duplamente: por saber que magoamos quem nos entrega o amor mais puro e devotado de todos, e por sentir que falhamos – um pouco que seja – na nossa missão; no nosso trabalho?

Por quê?!

Aí eu fico aqui, perdendo um dia inteiro por não conseguir me concentrar em nada do que tenho para fazer, afinal decepcionei a mim mesmo naquilo que mais me importa. E decepcionei-o na única coisa que importa pra ele.

E – de novo! – por quê? Só porque esse pequeno ser humano está crescendo e se desenvolvendo normalmente, descobrindo seu caráter e testando seu espaço no mundo? Um instante depois me dou conta disso e fico ouvindo minha consciência a repetir: “Ah, cara! Eu esperava mais de você como pai!” Pois é… Eu também…

Mas se a gente cumprisse todas as nossas expectativas, que graça teria? Se ele fosse exatamente da forma mais “cômoda” para mim, que graça teria? A parte boa, que faz desse o melhor emprego do mundo, é justamente o prazer da descoberta. A alegria de aprender junto, dia após dia, sempre mais…

Aí sai ele com aquele “bico” de choro, segurando as lágrimas, prum lado. E eu, com esse que aperta na garganta pro outro… E lá se vai quase um dia inteiro assim, jogado fora. Tempo demais! Desperdício demais.

Licencinha, que vou lá abraçar, beijar, brincar e “me reconciliar” com ele. E pedir pra ele me ensinar a ser um pai melhor, como eu sempre desejei ser.

Afinal, é só isso que importa mesmo.

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22 ideias sobre “O aprendizado mais difícil.

  1. Eldo Santos

    Penso nessas coisas praticamente todos os dias. Impossível não se culpar por não sermos perfeitos.

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  2. Lucas Torres

    Amigo, comece a compilar esses belos textos seus. Um dia, quando estiverem reunidos num livro, você me agradecerá por este conselho. Parabéns! Muito lindo!

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Obrigado por mais esse elogio, amigo. Como sempre, sou superestimado por você, hehehe.

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  3. George

    Me reconheci em cada palavra. Em cada parágrafo. Obrigado por ter escrito esse texto, sem dúvida o seu melhor.

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    1. yashagallazzi Autor do post

      Isso de ser o melhor, não sei. Mas sem dúvida é um dos meus preferidos. E um dos que mais gostei de escrever.

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  4. ana paula silveira

    E é incrível o número de crianças que possuem em seu registro de nascimento: Pai desconhecido. O que leva o cara(aio) a abrir mão da honra de ser chamado Papai.

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    1. ana paula silveira

      E é incrível o número de crianças que possuem em seu registro de nascimento: Pai desconhecido. O que leva o cara(aio) a abrir mão da honra de ser chamado Papai?

      Resposta
      1. yashagallazzi Autor do post

        Ana, eu não sei as razões de cada um que decide deixar de estar ao lado do filho. Mas não tenho medo de dizer que não as considerarei JAMAIS válidas! Abandonar um filho não é coisa de ser humano.

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  5. Paula Nelesse

    Leio o blog desde o início deste ano, quando o visitei pela primeira vez sob recomendação de uma amiga. Gostei de vários textos que li, discordei de outros e me emocionei algumas vezes. Mas nunca antes tinha comentado. Não poderia deixar de fazer isso hoje. Seu texto é muito lindo! Parabéns mesmo!

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  6. Veneide

    Emocionante! Revivi momentos de minha vida de mãe. Pior que esse nó que fica na garganta a gente não esquece. Dou o exemplo: depois de uma repreensão a meu filho quando ele estava com 8 anos, ele me olhou sério e disse: “Eu sei porque tu fizeste isso: porque tu tens autoridade sobre mim”! ó, fiquei de queixo caido de ouvir isso de um guri de 8 anos! Então aprendi a lição que, autoridade, também se demonstra com carinho. Hoje, meu filho tem 30 anos e somos os melhores amigos do mundo. Pudera todos os pais terem a oportunidade de compreender que violência so gera violência, mesmo sendo uma elevação de decibéis. Parabéns pelo texto.

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    1. Veneide

      Veneide :
      Emocionante! Revivi momentos de minha vida de mãe. Pior que esse nó que fica na garganta a gente não esquece. Dou o exemplo: depois de uma repreensão a meu filho quando ele estava com 8 anos, ele me olhou sério e disse: “Eu sei porque tu fizeste isso: porque tu tens autoridade sobre mim”! ó, fiquei de queixo caido de ouvir isso de um guri de 8 anos! Então aprendi a lição que, autoridade, também se demonstra com carinho. Hoje, meu filho tem 30 anos e somos os melhores amigos do mundo. Pudera todos os pais terem a oportunidade de compreender que violência so gera violência, mesmo sendo uma elevação de decibéis. Parabéns pelo texto.

      Patrique Lima :
      Belo texto, meu sonho é ser pai, e cada dia que passa tenho mais certeza. É jovem Troll, parabéns pleo belo sentimento! rs

      Patrique Lima :
      Belo texto, meu sonho é ser pai, e cada dia que passa tenho mais certeza. É jovem Troll, parabéns pleo belo sentimento! rs

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  7. Pingback: Textículos #4 « Construindo pensamentos

  8. Nara

    Que lindo, Yashá!!! Eu, que me preparo para o mais difícil e o mais prazeroso de todos os trabalhos, pelo que sempre vejo e ouço dos amigos, alegrei mais ainda meu início de semana rumo aos 5 meses…
    Belo texto pra ser lido, assim como a memorável homenagem pelos 10 anos de uma linda história de amor (sem querer parecer clichê, porque não se aplica à você e à sua amada), história essa da qual eu me orgulho muito de ter feito um pouquinho de parte…
    Parabéns, e olha que eu também concordo com aquela sugestão de você compilar esses textos …

    Resposta

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