O que aflige aquele coraçãozinho…

Meu filho descobriu o iPad (da mãe dele), e adora um joguinho da memória que tem instalado nele. Fica um bom tempo tentando encontrar os pares certos no meio de várias figuras de animais.

“Qual é esse, Lucas?” – perguntamos.

“É a vaca. A vaca faz ‘MÚÚÚÚÚ’!” – ele responde, mostrando que domina inteiramente o assunto em debate.

E assim ele passa um bom punhado de tempo. Divertindo-se com o jogo, mas, acima de tudo, divertindo-se consigo mesmo, ao perceber que aprendeu algo aparentemente irrelevante, como o nome dos vários tipos de animais.

Olhando com um pouco mais de atenção, é possível perceber que ele se diverte também ao ver que ficamos orgulhosos dele, das coisas que ele aprende. É apontar a figura de algum bichinho e virar pro nosso lado, buscando aquele olhar de reconhecimento que os pais fazem diante das descobertas de um filho.

Aí aparece a figura do gato e, com um toque sobre ela, ele ouve o miado do bichinho. Um “miau” triste, agudo… Algo aflito, eu me atreveria a dizer. Aí ele pára e, arrebatado da tranquilidade própria da brincadeira, atesta seguro:

“O gato tá triste.”

Não era uma pergunta; uma dúvida. Era uma afirmação.

“É, meu filho. Tá triste.” – respondemos assim, sem pensar. Sem sequer imaginar a preocupação que aquilo poderia incutir no coraçãozinho pequeno e inocente dele. E que só poderia levá-lo a indagar o óbvio:

“Por que tá triste?”

Pronto! Aí já era tarde demais… Não adiantava mais desconversar e dizer que na verdade o gato não estava triste. Nem adiantava inventar justificativas pra “tristeza” daquele miado (“Ele tá com fome”; “Ele quer a mãe dele”), porque era certo que ele iria insistir em suas perguntas. E faz sentido, afinal se a causa da “tristeza” do pobre gatinho era conhecida, por que raios nós, os pais, aqueles que têm o dever de dar conta de todos os problemas deste mundo, não acabávamos com ela?

É sempre uma experiência reveladora notar as “pequenas coisas” capazes de causar aflição àquele pequeninho. Isto é, pequenas para nós, os adultos. Para ele, garanto que nada no mundo era mais preocupante do que entender a tristeza daquele gatinho… Uma tristeza que nós sequer conseguiríamos notar, não fosse a ajuda dele. Em que momento, exatamente, perdemos a capacidade de notar as “coisas desimportantes” da vida, arrebatados que fomos pelos “deveres da vida adulta”?

Vai ver é por isso que temos filhos: para voltar a perceber aquilo que realmente importa. Porque o que perturba eles será sempre nossa maior prioridade, independentemente do quão trivial possa parecer ao nosso “olhar crescido”.

Hoje é um “gato triste” num joguinho eletrônico. Amanhã, alguma matéria mais complicada no colégio. Um belo dia, será aquela paixãozinha de garoto. E daí por diante, numa sucessão de experiências que o levarão a inevitavelmente se angustiar diante das aflições próprias de quem vive em sociedade.

Não me entendam mal… Não estou sugerindo que devemos atribuir importância exagerada ao “triste” miado daquele gatinho. Nada disso! Ele, aliás, já foi esquecido, entre um novo brinquedo e um desenho animado na TV – e essa é a parte boa de ser criança!

Digo é que devemos – nós, os pais – aprender a observar cada um desses momentos, para que saibamos aliviar as angústias dele desde já. Praticando hoje, quando triste gatinhos eletrônicos rapidamente esquecidos enchem aquela cabecinha de dúvidas, ficará mais fácil agir, no futuro, com aquelas aflições que a vida não nos permite esquecer tão facilmente…

Ou talvez essa seja uma daquelas coisas da paternidade para as quais não adianta se preparar… Como saber, sem ter ainda vivido tudo o que há para viver? O jeito é ir aprendendo aos poucos, um dia de cada vez. Deixando ele nos ensinar o que é importante pra ele.

Hoje, uma sexta-feira de julho, importante era um gatinho de miado triste, num jogo eletrônico qualquer. Quem sabe o que haverá amanhã? O importante é estar lá sempre que ele precisar.

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3 ideias sobre “O que aflige aquele coraçãozinho…

  1. Ideusana

    Lindo verdadeiro texto. Que se torna mais verdade diante de um filho com necessidades especiais. Quando damos valor a cada pequena conquista e buscamos entender e esclarecer cada pequena angústia.

    Resposta

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