Sobre ser tolerante.

Eis que um belo dia, durante as férias que acabamos de curtir na Europa, estávamos num parque aquático quando vi três mulheres muçulmanas tomando banho numa das piscinas tranquilamente, entretidas em sua conversa particular.

Como eu sei que eram muçulmanas? Bom, seria difícil não perceber isso, considerando que as três estavam usando burca. “Peraí, dentro da piscina?!” Sim, dentro da piscina. “E ficavam lá de boa?” É, de boa. Elas na conversa delas, dentro da água, e os demais ocupados com seus interesses – alguns fora, outros dentro d’água também.

Impossível não ver algo assim e pensar que o nosso tão criticado “mundo ocidental”, com todo o seu preconceito, seu racismo, sua intolerância e sua violência, continua sendo moralmente superior a todas as alternativas conhecidas pela civilização humana.

Não! Não quero sugerir que somos perfeitos. Longe disso! Mas é inevitável pensar que aqui, no “lado opressor”, as mulheres muçulmanas podem entrar nas piscinas vestidas de acordo com a cultura, a tradição e as crenças delas, ao passo que lá, no “lado oprimido”, nenhuma mulher ocidental poderia desfilar de biquini.

Qual dos “lados” está sendo mais tolerante com a diversidade? Qual está acolhendo aquilo que é diferente ao seu way of life? Com todas as nossas falhas – e são muitas! -, é inegável que “do lado de cá” se tem uma liberdade que “o lado de lá”, por sua própria natureza, rejeita. Em resumo, aqui as mulheres que gostam de biquini podem ir à piscina de biquini; as que gostam de burca, podem usar burca. “Lá”, a mulher que recusar a burca pode acabar mutilada.

Aqui, uma mulher ocidental seminua tem a liberdade para achar subserviente uma muçulmana que aceita se banhar num parque aquático usando burca. E esta última pode, dentro de uma piscina ocidental, criticar os corpos precariamente vestidos das mulheres daqui. Isso é liberdade!

E é por isso que os nossos valores precisam ser defendidos! Não apenas para que as mulheres ocidentais possam continuar usando biquini, mas para que as muçulmanas, caso queiram, possam continuar usando sua burca.

Sim, eu sei que discutir trajes usados em piscinas pode parecer algo pequeno… Mas não se enganem: são momentos como aquele, vividos pessoalmente, que nos ensinam a entender a diferença entre uma sociedade civilizada (em que pese as enormes falhas dela) e a barbárie. E reconhecer isso, meus caros, não é preconceito, racismo, ou qualquer outro termo politicamente correto tolo. É apenas um exercício libertador de maturidade.

Anúncios

7 ideias sobre “Sobre ser tolerante.

    1. yashagallazzi Autor do post

      Oi, Regina. Claro que você deve ter morrido de saudades, né? Um mês sem nenhum texto meu pra receber seus coments amalucados deve ter causado uma crise braba de abstinência…

      Não, não há racismo algum naquele post. Basta ter dois neurônios (e querer usá-los!) para perceber isso. O que você quer não é debater, mas tumultuar. Não darei espaço pra isso.

      Como diz a regra, don’t feed the troll.

      Até!

      Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Sim, eu concordo com isso. Você concorda com isso. Mas se uma mulher QUER usar, ela deve ter a liberdade de fazê-lo. Suprimir tal liberdade sob a alegação de que ninguém pode escolher estar “preso”, sendo que esse conceito de “prisão” é nosso, seria militar contra a essência dos valores ocidentais.

      Resposta
  1. Eduardo Távora

    O pior é que essa redução da mulher ao papel de acessório do homem é em nome de Deus.
    Concordo que as mulheres devem ter a liberdade de optarem por usar a burca, apesar de achar isso uma enorme tolice, em oposição aos franceses que resolveram proibir o uso.
    Até quando as pessoas vão agir em nome de Deus baseados em escritos que sequer foram escritos por Deus (e tampouco consta que Deus tenha passado uma procuração para escreverem em seu nome.)?
    Até quando vão querer fazer guerras amparados em Deus e na interpretação cheia de cólera dos textos religiosos?
    É uma pena que os radicais se sobreponham aos religiosos moderados.

    ps: se ser racista é defender a liberdade, proponho que essa senhora deixa seu marido, filho, ou qualquer homem de sua família mandar nela durante o tempo. Depois, espero que ela compartilhe suas conclusões sobre a experiência.

    Resposta
  2. Thiago - RJ

    Bem vindo de volta, Yashá! Estou anotando as sugestões… rsrsrs

    Quanto aos comentários acima sobre a burca, tem gente que não entra no espírito da coisa… deve haver, inclusive, pessoas que pensam assim, mas que vivem com uma determinada restrição em suas vidas por motivos de foro moral ou religioso. Ou seja, a pessoa escolhe , por exemplo, não comer carne bovina ou suína, não beber álcool, guardar o Sábado ou o Domingo… realizar jejuns, vigílias de oração que duram madrugadas inteiras, abter-se de sexo em determinadas circunstâncias… e não entende que a mulher possa achar adequado cobrir o corpo, ou inadequado não cobrir o corpo.

    Aqui no meu bairro há uma família de muçulmanos que mora por perto, sempre os vejo na rua. As mulheres, todas, invariavelmente estão de chador – o lenço que cobre os cabelos e o pescoço. Estão maquiadas, mas sobriamente, buscando elegância e não sensualidade. Que maravilha viver num país em que pessoas com essa cultura podem ir ao mercado ao lado de pessoas que escolhem frutas em trajes de banho, porque acabaram de voltar da praia! E nenhum agente do estado ou “da lei” tem poder para dizer qual conduta está correta, já que, dentro de limites mínimos (a chamada “moral e bons costumes”, um mero consenso social), ambas são válidas

    Se alguém já foi a algumas praias espanholas, rola topless direto. Inclusive das senhorinhas gordinhas que não têm nada de esteticamente bonito para mostrar. Mas há mulheres que sequer tiram a saída de praia. Por que? Porque não querem, ora essa! Elas podem querer. Da mesma forma que minhas tias quarentonas acham absurdo fazer topless em público – e isso não faz delas seres necessariamente oprimidos pelo “conservadorismo machista da sociedade” – aquelas moças de burca acham absurdo mostrar qualquer parte do corpo em público, mesmo num país em que o estado garante que até as muçulmanas possam fazê-lo, se assim o desejarem.

    “A democracia é o pior dos sistemas políticos já inventados, depois de todos os outros”. Não é à toa que Churchill manteve o espírito dos ingleses intacto e combativo até que o nazismo caísse. O cara sabia das coisas.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s