Lixo moral

Ano passado, às vésperas das eleições gerais, escrevi minha declaração de voto no blog. Expliquei, de forma breve, por que tenho votado praticamente sempre em branco aqui no Amapá: minha descrença total com a seriedade da política local não me permite dar crédito aos que, de tempos em tempos, aparecem na TV para contar as mesmas mentiras

Não foram poucos os que criticaram minha escolha, aludindo que é sempre possível escolher “um menos pior”. Não, não é! Pelo menos não pra mim… Se me permitem, sou um conservador: me mantenho sempre apegado aos mesmos valores éticos e morais. Quais? Bom, nada de novo: os que deram à luz a democracia representativa e o sistema de liberdades individuais, fundando os alicerces da civilização ocidental.

A certeza de que meus não-votos são mesmo os melhores votos possíveis, veio mais uma vez quando li sobre o mais novo aumento da verba indenizatória destinada aos deputados estaduais deste estado: em um ano, suas excelências viram a regalia saltar de 15 mil, para 100 mil reais. Isso é mais que o triplo do valor pago aos deputados federais e senadores. É o privilégio do privilégio!

Esse aumento indecente, aprovado por todos os deputados, à unanimidade, será pago por um Estado cujas riquezas somam inacreditáveis 0,2% do PIB brasileiro – o pior do país. Como suas excelências pensam em achar dinheiro para isso? Caso tivessem lido alguma coisa da Escola Austríaca, saberiam que é impossível sustentar, de forma lógica, algo assim. Mas não espero que algum deles tenha sequer folheado algo de Mises ou Hayek… A “solução” deverá ser imprimir mais dinheiro, creio eu…

Então me pego lendo sobre semelhante absurdo, sentindo o gosto da bílis na garganta, e já me vejo em 2012, conversando sobre eleições com amigos e contando que – mais uma vez – só me restará o voto em branco. “Mas você é muito radical!”, dirão alguns. Sim, sou! Radicalmente contra a falta de valores morais e a desfaçatez. Gente que faz política dessa forma não me representa! Nunca vai representar!

De dia, grupos políticos alegadamente rivais, separados por picuínhas ridículas ligadas a sobrenomes familiares, atacam-se mutuamente do alto das tribunas. De noite, quando ninguém está olhando, dão as mãos para brindar novas regalias. A política do Amapá chegou ao fundo do poço há tempos e, não satisfeita, começou a cavar a fim de descer ainda mais baixo…

Como reagir a isso? No meu caso, é bem simples: já que todos os 24 deputados estaduais votaram a favor do aumento, nenhum merecerá jamais o meu voto! Me recuso a jogar o jogo da política rasteira, onde os que deveriam servir a sociedade escolhem se servir dela. Meu protesto é mostrar que nenhum deles serve à política que reputo correta; não há um só que seja digno de confiança nas urnas.

Quem subverte dessa forma a essência da democracia não envergonha apenas seus eleitores, ou os cidadãos de uma forma geral. Envergonha toda a espécie humana! E se engana quem pensa que o problema seja financeiro; monetário. Não! O problema é a ausência completa de norte moral, afinal é impossível rebaixar a política, sem antes rebaixar-se a si mesmo.

Espero que agora entendam por que votei em branco aqui… Recusei-me a escolher não porque os postulantes me eram ideologicamente contrários. Minha restrição nasce ainda antes que se entre no terreno das idéias políticas: nenhum atendia sequer às minhas exigências morais e éticas mais basilares. Sendo assim, eles que fiquem com as trinta moedas de prata… Eu prefiro ficar com minha consciência tranquila, lembrando que nenhum deles recebeu meu voto.

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P.S.: Este texto não tem o propósito de ofender qualquer pessoa. Seja ela honrada, ou não…

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Update: Dois conhecidos me disseram que o aumento da verba indenizatória para cem mil reais teria sido aprovado apenas pela mesa, e que alguns deputados estaduais seriam contrários a ele. Ok, pode ser verdade – e, se for, que suas excelências escreva à Época, pedindo que faça as necessárias correções (na matéria fala-se de aprovação unânime). Mas ainda não tomei conhecimento de nenhuma medida concreta por parte de algum deputado contra o aumento. Na boa, não vale dizer que não votou a favor e que é contra, mas ficar de boa, tranquilaço, recebendo a grana, né? Pelo menos pra mim não basta. Continua sendo, no mínimo, conivência rasteira.

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2 ideias sobre “Lixo moral

  1. José Carlos Araújo

    Gente, deixem de ser bobos. Não houve aumento nenhum para os deputados do nosso querido Amapá. O que aconteceu foi o seguinte: a LEGALIZAÇÃO E CONSTITUCIONALIZAÇÃO dos gastos. Vejam bem: até o ano passado para justificar os 12 milhões gastos para o “funcionamento” da assembléia legislativa alugavam carros a 8 mil reais a diárias, gastavam milhares e milhares de reais com gasolina, passagem aérea, auxilio fardamento e contratavam MILHARES de funcionários fantasmas. Como a Polícia Federal (Aquela Linda) revirou tudo por lá e encontrou até brinquedinho de borracha que vibra os deputados resolveram, como disse, LEGALIZAR isso tudo. Agora não precisam mais de notas fiscais de 300 mil reais por um mês de aluguel de um automóvel, além de dar muito trabalho esse esquema estava queimando o filme. A solução? Simples! Constitucionalizaram tudo. Até porque, como disse o presidente, não há lei que limite o teto dessa verba.

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