Revolucionariozinho da mamãe!

Um valente líder da vanguarda proletária, usando seu blusão da GAP.

[É noite na cidade universitária. As estrofes de “Apesar de você”, entoadas a plenos pulmões por vozes juvenis desafinadas, são deixadas de lado por um momento, para que o valente revolucionário possa atender o iPhone.]

– Alô.

– Frederico Augusto?! Ah, meu filhinho! Graças a Deus! Tô te ligando há horas, Frederico Augusto. Desde que vi você no vídeo daquela confusão…

– Não é nenhuma confusão, mãe. Tamo com os companheiros defendendo a universidade públicagratuitaedequalidade das garras dos que querem mercantiliz…

– Que barulheira é essa, Frederico Augusto?! Diz pra mamãe de verdade: no que você se meteu, filhinho? Esses moleques malvados te obrigaram, né?

– Malvados?! Pô, mãe! Já vi que você tá doutrinada pelas mentiras da mídia burguesa-conservadora, que há 500 anos dá suporte à elite reacion…

– Não tá passando frio aí, né, menino?

– Quê?!

– Frio! Você tá bem agasalhado? Lembra que a sua bronquite volta por qualquer besteirinha! Aí lá vem você me voltar daí tossindo e com febre, igual da última vez. Ah, Frederico Augusto!

– Calma, mãe! Tá sussa aqui.

– Você não vai me dormir no chão, menino! Senão não vai ter Vick que dê jeito em você depois.

– Relaxa, mãe! Os companheiros trouxeram uns colchonetes lá do DCE.

– Sei, colchonetes… Não quero nem pensar no mofo que tá nessas porcarias! E você aí, sem seu edredom. Ai, Frederico Augusto… Pra que fazer mamãe se preocupar assim?

– Já disse pra relaxar, mãe. Nem sei se vamos dormir mesmo: temos que ficar vigilantes porque o aparelho de repressão do Estado poder a qualq…

– Como assim não vai dormir, Frederico Augusto?! Você sabe como o sono noturno é importante, né? Não me faça ir até aí te colocar na cama!

– Tá bom, mãe. Pode deixar que eu vou dormir direito.

– Acho bom! E a comida? Você não pode ficar sem comer, viu? Já vai dormir mal, passar frio… Se não comer a bronquite volta com tudo!

– Pode deixar, mãe. A gente se vira aqui.

– Hum…

– Que foi, mãe?

– Tô aqui pensando em dar uma passadinha aí…

– Aqui?! Tá maluca, mãe?! Pra quê?

– Olhar como tá esse lugar, levar uma muda de roupa limpa. Essas coisas… Sabe como é mãe, né, amorzinho?

– Já disse que tá tudo sussa, mãe. Não pode vir aqui, não.

– Como assim, não posso?!

– Er… Eu quis dizer que não precisa. Tá tudo bem, mesmo! Pode acreditar.

– E você vai ficar com essa mesma roupa?! Deixa pelo menos eu levar uma limpa.

– Não precisa! Tá limpinha.

– Sei… Conheço bem esses seus amigos e a bagunça que vocês fazem quando se juntam pra ouvir música ruim e falar sobre aquele tal de Marques.

– Marx, mamãe! O nome dele é Marx!

– Que seja. Não é ele que põe comida na mesa e paga suas roupas. Ah, meu Deus! Fico só imaginando a cara da tia Carmen, quando souber que você tava nesse pardieiro com a blusa caríssima que ela trouxe pra você de Londres. Que tristeza, Frederico Augusto!

– Ela nem precisa saber, mãe. Por isso eu coloquei capuz e óculos: pra disfarçar. Assim ninguém da família sofrerá repressão por parte do braço armado do gov…

– Capuz e óculos?! Ah, Frederico Augusto! Faça-me o favor, né? Com coisa que aquela sua cara pálida engana alguém. Já parece até que piorou da bronquite… Você se agasalha direito aí, senão vai ver o que é repressão quando chegar em casa e eu contar isso pro seu pai!

– Pô, mãe! Não precisa falar nada pro pai, né?

– É, acho bom ficar com medo, mesmo! Seu pai não é um desses PMs bonzinhos, que só fazem cordão de isolamento na frente de vocês. Se ele sabe que você tá metido nessa zona… Ah, Frederico Augusto… Eu fico até com pena de você, menino.

– Ô, mãe. Alivia aí… Diz pro pai que eu fui pra casa de praia do Rodrigo Antônio, vai.

– Hum…

– Por favor, mãezinha!

– Ah, tá bom. Mas você me obedece e se cuida direito aí, viu?

– Pode deixar.

– Te amo, filhinho! Ah, e nada de se agarrar com essas sirigaitas daí, tá? Só me falta ser avó do filho de uma remelentinha que só sabe falar no tal de Marques.

– Marx, mãe!

– Que seja! Não vai ser ele que vai pagar as soft thouchs e o Mucilon do bebê depois. Você toma juízo nessa cabeça, Frederico Augusto!

– Tá, mãe.

– Dorme com Deus, meu filho.

– Amém.

– Qualquer coisa, liga pra mãe, tá?

– Tá bom.

– Um beijo.

– Outro. Ah… Mãe?!

– Que foi?

– É que… Aqui não tem Toddynho.

_____

O texto acima é uma obra de ficção. A realidade, dependesse de mim, seria assim:

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9 ideias sobre “Revolucionariozinho da mamãe!

  1. Pingback: Textículos #8 « Construindo pensamentos

  2. marta

    Faz tempo que não rio tanto kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Frederico Augusto precisa mesmo é de LIVROS!!!!!!!!!!!!!!

    Resposta

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