O processo de algorezação de FHC.

“Ei, tucaninho! Não vai falar sobre a sabatina do FHC?” Ai, gente… Assim vocês me matam…

Eu queria muito saber por que tanta gente acha que sou tucano… Ter votado declaradamente em Serra, na eleição passada, não pode ser determinante pra isso, afinal a outra opção era uma ex-terrorista! Esse povo não lê o que escrevo, antes de fazer críticas?! Vou repetir mais uma vez: não sou tucano! Por uma razão bem simples e objetiva: o PSDB é muito de esquerda pro meu gosto. Sério!

A sabatina de FHC? Confesso que não vi. Sei o que seria perguntado e quais seriam as respostas. FHC não falou nenhuma novidade, a despeito da empolgação que certo jornalismo simpático ao progressismo demonstrou. Não foi a primeira (nem será a última) vez que o ex-presidente se declarou publicamente simpático à idéia de flexibilizar as leis que hoje proíbem o aborto e a comercialização de drogas.

Dizer o quê? São as opiniões dele e ele pode tê-las. O fato de FHC defender algumas bandeiras que eu não defendo, não me fará deixar de reconhecer as grandes virtudes de sua gestão. Sou mesmo um sujeito ortodoxo, vejam que coisa: continuarei aplaudindo o que acho bom, e criticando o que acho ruim. Simples assim.

É evidente que não me obrigo a mudar de opinião sobre legalização do aborto e das drogas (duas coisas que rejeito e combato fortemente), apenas porque FHC se disse simpático. Façam-me o favor, né? Não penso aquilo que penso pagando pedágio mental para o que pensa esse ou aquele político.  Devo satisfação apenas à minha consciência; aos meus valores éticos e morais. Para quem não sabe, há gente muito próxima a mim – da família, mesmo – com quem guardo divergências ainda mais abissais. E daí? É do jogo!

A única coisa que lamento em todo esse processo de algorezação de FHC é a evidente (e embaraçosa) tentativa desesperada de ganhar a simpatia dos intelectuais progressistas. Explico: tal como Al Gore agarrou-se ao aquecimento global, nos EUA, para ganhar simpatia dos liberais americanos e não desaparecer da mídia, FHC tenta desesperadamente ganhar um lugar no coração dos pensadores da esquerda brasileira – se me permitem o oximoro…

E faz todo sentido do mundo, afinal apenas estúpidos e desonestos intelectualmente se atrevem a dizer que o ex-presidente é neoliberal, liberal, direitista ou coisas do tipo. FHC é um social-democrata dos mais clássicos e as ações dele durante os oito anos de mandato deixam isso claro. E, como todo social-democrata, FHC é um esquerdista. Sim, é isso mesmo! O fato de que no Brasil há radicalóides como PCO e PSTU, para os quais ainda há espaço para uma revolução armada, não basta para tornar de direita a esquerda mais moderada.

A verdade, é que FHC nunca engoliu ser esculhambado pela elite intelectual universitária brasileira – dominada pelo pensamento esquerdista. Agora, no final de sua carreira política, tenta “limpar sua barra” com eles, na esperança de ganhar algum destaque positivo nas aulas e nos livros que produzem. Eu juro que compreendo essa vontade do ex-presidente, mesmo achando-a uma tolice.

O mais trágico, porém, é ver a linha argumentativa que FHC, um homem cuja inteligência não pode ser negada, vem apresentando. É aí que a coisa fica mesmo deprimente…

FHC defende a legalização do aborto porque “é uma questão de saúde pública” e “hoje as mulheres ricas fazem”. Sei, então o objetivo é fazer justiça social em cima da morte de bebês?! Sei lá, me parece uma linha de pensamento muito primária… Respeito intelectualmente muito mais os libertários, para os quais o aborto deve ser livre porque qualquer direito é menor que o direito à liberdade de escolha.

Quando fala sobre a legalização das drogas, FHC simplifica ainda mais um tema muito complexo: “do jeito que está não está bom”. Bem, trata-se de uma bobagem, afinal nós não temos o outro lado para construir uma comparação. Em outras palavras, como dizer que o sistema atual de repressão não é eficiente, se não temos os dados da “não-repressão”, para construir uma base argumentativa? É simplesmente uma redução simplória a um lugar-comum, que não apresenta solução prática nenhuma. Seria como dizer que morrem muitas pessoas em acidentes automobilísticos, logo é hora de tentar algo novo. Do jeito atual, não está bom. E vamoquevamo trabalhar pra viabilizar o teletransporte!

Eu, sinceramente, esperava um final de carreira um pouco mais digno para alguém com a história de FHC. Mas, como dito, a busca dele por um lugarzinho no coração da intelectualidade progressista (e por uma cançãozinha do Chico Buarque…) é compreensível. O sujeito é de esquerda, ora essa! Natural que pretenda ser reconhecido como tal. Só não esperem que eu aplauda isso, simplesmente por reconhecer os evidentes méritos que ele teve durante sua gestão.

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5 ideias sobre “O processo de algorezação de FHC.

  1. Janaina

    Será que o José Serra terá um fim de carreira mais digno que o FHC? ou um reinício como vereador de São Paulo? rs

    Resposta

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