A desprivatização dos nossos filhos.

Li ontem que uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou, em caráter definitivo, a tal “Lei da palmada”. O diploma legal ainda não tem validade, mas, apesar disso, acho que todas as famílias brasileiras já têm motivos mais que suficientes para ficar alarmadas: o Estado está desprivatizando os nossos filhos.

Desde logo, permitam que eu deixe claro um ponto: não! Eu não estou advogando que palmadas são a melhor forma de educar os filhos. Não defendo que os pais devam seguir este ou aquele método na hora de ditar as lições que acharem devidas às suas crianças. O que defendo é que cada núcleo familiar tenha a liberdade de escolher seus caminhos, sem que o braço forte de um Estado paquidérmico ouse arrombar as portas dos nossos lares, vilipendiando nossas individualidades.

A “Lei da palmada”, segundo seus próprios idealizadores, não foi pensada para punir aqueles pais que, de quando em vez, sentam um civilizador tabefe em indisciplinadas nádegas infantis. Nada disso! De acordo com suas excelências, a idéia seria “coibir os excessos”; “combater a violência desmedida, que descamba para agressão física grave”. Pois bem, se é assim por que diabos criar outra lei, se já temos um Código Penal em plena vigência?

Não… A sanha policialesca do Estado brasileiro, ávido por cercear cada vez mais as liberdades individuais, decidiu entrar em nossas casas e ditar regras de como proceder diante diante de nossas crianças. Para os burocratas, o pai que desfere uma palmada no filho deve ser tratado como infrator, mas um jovem de 16 anos que sequestra, estupra e mata alguém deve ser considerado “vítima da sociedade” e receber medida sócio-educativa. É esse lixo moral que norteia a classe política brasileira hoje (com honrosas exceções).

Pessoalmente, acho que uma palmada bem aplicada, na hora certa, é um ato civilizador. Isso nunca matou nem traumatizou ninguém, e não faz sentido algum que passe a ser considerado risco pelo poder público. Notem bem: estou me referindo “àquela” palmadinha, sabem? Sim, vocês entenderam o que quero dizer… E sabem que isso é muito diferente de violência ou espancamento.

A violência – a verdadeira violência – contra crianças e adolescentes deve ser combatida por todos os cidadãos e pelo Estado. Meu conselho é que os braços legais do poder público se organizem para coibir os crimes reais, em vez de desperdiçar tempo se intromendo na vida das famílias honestas e decentes. Em nome de combater os celerados que abusam fisicamente dos próprios filhos, escolhe-se o caminho mais fácil: invadir a vida privada e tolher liberdades.

Comete-se, com a “Lei da palmada”, o mesmo erro de raciocínio cometido com o desarmamento: o Estado desiste de combater os bandidos armados que assaltam e matam, e, para “reduzir os números da violência”, desarma as pessoas de bem. Uma vez mais, atacam-se as liberdades individuais de gente direita, porque há alguns bandidos que se valem delas para cometer crimes. É o caminho errado!

Isso para não falar na ineficácia prática da parada, afinal o pai violento e criminoso que confunde autoridade com o direito de espancar, não apenas continuará agredindo seus filhos, como os agredirá ainda mais. Sim, a tal “Lei da palmada” acabará tendo o efeito inverso e fazendo com que filhos de pais verdadeiramente violentos sofram mais! É fácil deduzir isso: além da “surra-padrão”, as coitadas das crianças levarão uma segunda, se o cara for denunciado. Que é “pra aprender a ficar calado”. Dado o padrão comportamental desses machos-neandertais brasileiros, alguém duvida?

Dito isso, quero me referir a algo que já afirmei alhures: não pretendo sugerir que dar umas palmadas seja a melhor forma de educar os filhos. Longe disso! Acho que cada método (dentre os praticados dentro da civilidade, claro) é válido e os pais são livres para escolher o que seguir. Conheço pessoas de bem que preferem jamais se valer de palmadas; conheço as que são partidárias de castigos; há as que escolhem não fazer nada, pois preferem que os pequenos descubram sozinhos seus limites. Meu ponto, é: cada núcleo familiar é dotado de sua história e de suas particularidades. Cada pessoa é norteada por determinados valores e deve poder se deixar guiar por eles (sempre observados – repise-se! – os padrões básicos de civilidade), sem que um bando de burocratas se atrevam a derrubar as portas das casas para ditar regras.

“Remixando” Fernando Pessoa, digo apenas que minha pátria é o indivíduo livre. Minha bandeira é a defesa radical na supremacia dos núcleos familiares, sempre que o assunto versar sobre valores éticos e morais. O Estado já é grande e incompetende demais fazendo o pouco que se dispõe a fazer com a indecente quantidade de dinheiro que arranca dos cidadãos. Não podemos aceitar – nem permitir – que estendam ainda mais seus tentáculos sobre nós, tolhendo-nos a liberdade de escolher como lidar com nossos próprios filhos, o que significaria acabar com aquilo que nos faz seres humanos.

Um amontoado de políticos a quem eu não confiaria sequer minha bicicleta, está se achando no direito de dizer como devo educar meu filho. Reuniram-se e resolveram desprivatizar nossas crianças, estatizando-as em seguida. Isso é inaceitável! Não se pode confiar num país que entrega à sua burocracia estatal o mister de estabelecer diretrizes de comportamento moral, sob pena de destroçar a essência do próprio regime de liberdades democráticas: o indivíduo. E condescender com isso é mais grave que qualquer palmada civilizadora, corretamente aplicada no momento oportuno.

Anúncios

3 ideias sobre “A desprivatização dos nossos filhos.

  1. Thiago - RJ

    Yashá, só uma sugestão:

    no trecho em que você menciona o Código Penal, inclua o ECA. Na prática, é a lei de referência, não no que tange à punição criminal do pai violento, mas às questões cíveis, como perda de poder familiar, acompanhamento psicológico para a criança etc etc.

    Eu só queria que me explicassem como essa lei vai “pegar” os caras que cometem “violência desmedida, que descamba para agressão física grave”, se estes já os fazem sob a vigência do ECA, que é muito mais severo. Por que esta lei terá sucesso onde o ECA falhou e continua falhando? Qual a lógica? Será que o problema está no marco legal, no direito positivado?

    Será que a questão não é muito mais complexa e não deveríamos começar por tentar implementar, na prática, as leis que já existem?

    Conta outra. Isso é só o Estado trying to pick my lock, de novo. No limite, isso aí tem DNA bem facista; no facismo, a sociedade (soma de cada indivíduo, não uma coletivização abstrata sem rosto) é absorvida e se dilui num ente de razão. Se o matiz é de direita, estamos falando do Estado, que absorve até os partidos; se de esquerda, estamos falando do Partido, único, que absorve até o Estado.

    E, se você olhar bem – especialmente para a origem do Projeto de Lei – dá para descobrir o matiz. Sempre eles…

    PS: se você pensar, é o mesmo raciocínio (errado, penso) da “Lei Seca”. O problema não é a proporção de álcool no sangue; é a (in)existência de fiscalização de que há alcool no sangue. É o policial que aceita uns trocados para deixar passar. É a ausência dos próprios policiais.

    Realmente, em muitas áreas do Rio de Janeiro (não em todas), ninguém mais bebe e dirige. Há fiscalização severa. Se esta houvesse antes, quando o limite era maior, será que as pessoas beberiam? Óbvio que não. E agora, com a lei atual, será que as pessoas continuam bebendo e dirigindo onde se sabe que não há fiscalização? Onde nunca há? Enchem a cara como sempre e como nunca! E ainda usam a internet para se evadir, se for preciso. E ainda molham a mão dos agentes públicos, que aceitam, se for fora do guarda-chuva de visibilidade midiática da “Operação Lei Seca”.

    É a mesma coisa. Muitos homicídios? Vamos continuar não patrulhando, não investigando, e aumentar a pena-base para 400 anos. Aham, senta lá…

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s