O caso de Eloá e a inversão de valores morais.

O drama vivenciado por todo o país a partir das imagens feitas da porta do edifício em que residia a menina Eloá, em Santo Andre, tem uma infinidade de espectos e desdobramentos. A sociedade e o Estado devem, por exemplo, discutir pela enésima vez o treinamento e o aparelhamento de nossa polícia procurando entender que motivos levam o aparelho de segurança pública a falhar de forma tão clamorosa. Isso é o esperado. É o óbvio. Mas há outros pontos a serem encarados tão ou mais importantes.

A falha determinante do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) foi permitir que Nayara, depois de libertada pelo seqüestrador, retornasse ao local da crise. Nunca na história se viu a polícia devolvendo um refém ao bandido. Isso é escandaloso, vexatório e indesculpável. Há que ser apurado tal procedimento a fim de encontrar os culpados pela decisão criminosa e responsabilizá-los nos termos da lei.

De outra parte, não consigo ver falhas da polícia no que tange à invasão da casa de Eloá, ou à abordagem feita para conter o seqüestrador, depois. Não sou policial, mas suponho que a decisão de entrar em um ambiente hostil onde há um bandido armado e duas reféns não seja nada fácil, pelo contrário. A equipe encarregada deve ter se debruçado horas sobre as possibilidades a fim de encontrar a melhor solução e, ao que consta, concluiu que o caminho adequado seria o da invasão. Quanto à abordagem feita para dominar Lindemberg, devo dizer que tentei, mas não logrei encontrar os tão denunciados excessos da força policial. As imagens deixam claro que o seqüestrador não estava rendido e inerte quando de sua prisão, mas resistente e agressivo. Ora, como podemos – a sociedade e a imprensa – julgar de que forma o aparelho de segurança do Estado deveria conter e imobilizar o sujeito no meio de uma situação de crise? Não podemos.

A planta da casa da menina Eloá deixa evidente que qualquer tentativa de invasão seria difícil e arriscada. Não se estava falando de uma casa ampla de um andar e com “n” cômodos. O que havia ali era um apartamento pequeno e inteiramente sob controle do elemento hostil. Entrar ali e prender Lindemberg sem disparar um tiro e ferir ninguém, convenhamos, era tarefa das mais improváveis. É óbvio que com treinamento mais específico e recursos logísticos mais apurados a polícia talvez tivesse conseguido evitar a morte de Eloá, indiscutível fim trágico do episódio. Mas isso é lugar comum próprio de quem prefere repetir o que é elementar a fim de escapar do que é importante. Mais treinamento e mais equipamentos são sempre bem vindos. E isso no Brasil, na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Também é errada a posição de certa mídia nacional – coadjuvada pelos especialistas da desgraça alheia – que vem indagar sobre o porquê de não se ter usado um atirador de elite para eliminar Lindemberg. Não parece difícil defender tal hipótese agora que os fatos já se consumaram da pior maneira possível, isto é, com a morte de um refém. Todavia, queremos mesmo crer que a opinião pública não se assanharia para cobrar a polícia, caso tivessem optado pela morte do “jovem Lindemberg”? Aquele mesmo que, ainda hoje, é tratado apenas como um romântico extremista sem antecedentes e vítima de sua própria paixão. Não me iludo. O pensamento politicamente correto trataria de enfatizar apenas que a polícia brasileira, “violenta, brutal e, quiçá, despreparada”, decidiu tirar a vida de um “garoto”. Isso para não dizer o que aconteceria se, por um erro de cálculo, a bala fatal viesse a errar o alvo. O mundo desabaria sobre a cabeça de todos os envolvidos na operação.

Tudo o que vai acima serve para mostrar que os teóricos do “SE” estarão sempre certos, não importa o que aconteça. Grande parte da opinião pública brasileira não está interessada em analisar os fatos de forma lúcida e técnica, prefere dar asas à especulação barata que serve apenas para desinformar a sociedade acerca do que é real. Por exemplo: pouca gente sabe que essa mesma polícia do caso Eloá – a “despreparada, violenta e incompetende” – é a melhor do Brasil. Sim, isso mesmo, do Brasil! E não me refiro apenas ao GATE, mas ao aparelho de segurança do Estado como um todo. Em São Paulo mate-se proporcionalmente muito menos gente do que em qualquer outro estado do Brasil. A polícia de elite paulista atuou em uma infinidade de situações de crise, inclusive com reféns, tendo sucesso na esmagadora maioria das vezes. O problema é que isso não vira notícia. O que vira são “os ônibus 174” e “os seqüestros de Eloás”.

Há, no meu entender, dois pontos fundamentais que estão sendo deixados excessivamente à margem das discussões sobre o caso trágico de Santo André: 1) O pensamento politicamente correto que prima por vitimizar os bandidos por meio de uma sociologia rastaqüera, que atribui todo crime às desigualdades sociais; e 2) Os valores deturpados e questionáveis de uma grande parcela da sociedade brasileira, em especial dos mais jovens.

Há uma certa dificuldade, uma espécie de bloqueio ideológico quase que imperceptível, que parece proibir a opinião pública – com raras e honrosas exceções – de dizer o óbvio: o principal culpado da tragédia de Santo André tem nome: Lindemberg. Em vez de apontar isso, já se tentou encontrar uma infinidade de teorias que levem a uma direção diferente. Culpou-se a polícia, o PSDB e o governador José Serra, as desigualdades sociais do país e até mesmo as tais “elites que governam o Brasil há mais de 500 anos…” Tal pensamento sustenta a idéia pedestre de que Lindemberg não seria um bandido por si só, mas um produto do meio desigual em que sempre viveu. Quem acompanhou os dias terríveis de cativeiro foi confrontado com pareceres emitidos por um sem número de estudiosos, todos sustentando que seria imprescindível analisar que fatores conjunturais teriam levado o jovem a cometer o crime que era transmitido ao vivo. A idéia é sempre criar um álibi para o bandido, atriuindo os crimes a uma falha que possa ser imputada a toda a sociedade. Às favas com essa conversa! Eu não sou obrigado a carregar qualquer culpa pelos atos criminosos do bandido Lindemberg!

Considero que há um questionamento ainda mais importante a ser feito: que valores familiares e morais permitem que se ache normal o relacionamento amoroso entre uma menina de 15 anos e um homem de 22? Vou além: Eloá e Lindemberg namoraram durante três anos, antes do rompimento. Isso quer dizer que a menina tinha apenas 12 anos, ou seja, era uma criança! Apesar disso, começou e manteve um romance com um homem de 19. Estamos falando de pessoas com idéias, desejos e necessidades completamente diferentes. Claro que o relacionamento, de per si, não estava fadado ao fracasso. Mas temos de convir que não havia ali bons auspícios…

Sim, serei um tanto antiquado, mas não considero normal e aceitável que uma criança mantenha um relacionamento amoroso com um homem. Se isso é ser ortodoxo e conservador, não há problema: eu sou. E, como bom ortodoxo, chamo assassino de assassino. Justificar o crime com uma sociologia terceiro-mundista que abraça a retórica da operssão social é, na melhor das hipóteses, errado. Na pior, contribui para que novos Lindembergs surjam e cometam crimes sob o manto das justificativas deontológicas para o mal óbvio e indiscutível.

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P.S.: Este texto foi originalmente publicado em 20 de outubro de 2008 (sim, mais de três anos atrás!), mas creio que continue muito atual.

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10 ideias sobre “O caso de Eloá e a inversão de valores morais.

  1. Marcus

    >Estou ficando cada vez mais fã dos seus textos, amigo. Tenho algumas divergências importantes sobre alguns temas mais polêmicos, mas isso é normal e perfeitamente sadio.O seu texto sobre o episódio de Santo André é disparado um dos melhores que eu já li sobre o assunto. É impressionante a facilidade com que você simplesmente fala algumas coisas diretas que nos escapam normalmente.O episódio foi mesmo uma tristeza. A volta da Nayara ao cativeiro é imperdoável. Mas não se pode insistir em tratar o bandido como uma vítima. Isso é só simplificação barata, como você falou.Parabéns.

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  2. Catarina

    >Também fico incomodada com o descaso da mídia com relação ao relacionamento entre Eloá e Lndemberg. Imaginem, um namoro entre um cara de 19 e uma menina de 12! Não sou especialista em lei, mas acho que isso é até crime.É preciso encarar os fatos: o namoro está por trás de tudo. É a causa primeira de toda a loucura que aconteceu depois.

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  3. Clovis Lemes

    >Cara, do jeito que a coisa anda, daqui a pouco a polícia toda estará atrás das grades e os “coitados” dos bandidos estarão soltos e tranquilos pelas ruas, catando crianças…O pior disso são as perguntas que não se calam: Onde estavam os pais nisso? Porque deixaram isso acontecer? Ou será que o bandido obrigou-os a deixar a criança namorar esse bandido por tanto tempo? Morei muito tempo na America do Norte e lá, adulto que molesta criança vai pro pau (e os pais, se permitiram, vão junto!). Ah…mas aqui é Brasil, somos românticos, pacifistas, tolerantes, para não dizer outras coisas que o Jabor disse nesse artigo, que levou o Lula e os demais PTelhos tirarem ele do ar: http://www.candex.us/portuguese/salvenossaraca.html

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  4. Augusto César

    >Clovis, acho que o texto do link é falso. Não sei se o Jabor escreveu mesmo aquilo não. Concordo com você e com os demais quanto aos valores. É mesmo absurdo que o relacionamento viciado entre uma criança e um homem seja tratado como algo secundário.

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  5. Catarina

    >Ótimo o texto do Yashá. Perfeito. A sociedade precisa rever suas posições para enterrar essa nova psicologia que tolera todo tipo de desvirtuamento de valores.

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    1. Thiago - RJ

      Deve ser fácil refutá-lo, então, certo? Coragem, valente “anônimo”! Dizer que as razões resvalam para o clichê não é exatamente apresentar contrarrazões.

      Yashá: ótimo texto. Essa sociologice barata tem método…

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  6. Leticia

    Ótimo texto, Yashá! Certas pressões sociais são tantas e em tantas direções que até a polícia recua (desde o caso do ônibus 174) e agora considera ideal uma situação – mesmo extrema – em que ninguém saia ferido. Dá supercerto, mas só na maioria dos casos. Mas as exceções existem.

    Se a polícia tivesse optado por estourar a cabeça do Lindemberg, seria mais um item na capivara de “violência” que forças sociais e políticas vêm colecionando da polícia paulista. Se tivesse logrado êxito, não iria nem para a tevê.

    E você chamou atenção para o ambiente social. Eu acrescento agora, passado o tempo, entrevista com o pai da garota arrotando afetividades, clamores por justiça e tal. (O cara é um matador!) Fecha-se aí o ciclo lógico de como se pensa em muitas áreas sociais brasileiras.

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  7. Lucho

    É sempre em ano eleitoral que a imprensa revive esses “grandes dramas pessoais que comoveram a nação”.

    Já repararam?

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