Somos racistas.

Ao contrário do que disse Ali Kamel, no seu famoso odiado livro, somos racistas. Tanto o somos, que comemoramos quando a Suprema Corte nacional julgou constitucional um sistema que cria diferenças de tratamento, estabelece direitos e concede benefícios tendo como base a “raça” (aqui entendida apenas como cor da pele).

Sou contra as cotas raciais porque… bem… não sou racista. Não acho que um cidadão deva ser tratado pior que outro em razão da quantidade de melanina que traz em seu corpo, mas também não acho que mereça tratamento especial em por conta dela.

O argumento (o velho argumento…) é aquele de sempre: “No passado, os negros foram vítimas de injustiça/violência/discriminação…” A lógica é assustadoramente antidemocrática: porque A maltratou B no passado, o filho de B pode, no presente, gozar de benefícios que podem mesmo chegar a prejudicar o filho de A. Procura-se fazer justiça por meio de injustiça mais descarada. Notem, por exemplo, que um favelado branco simplesmente não faz jus à proteção social decorrente das cotas… Não importa o quão injusta a vida tenha sido com ele: não tem a quantidade “X” de melanina na pele, dane-se!

Pessoalmente, rejeito qualquer tipo de cota. São remendos institucionais que não resolvem os problemas de base. Mas as cotas raciais conseguem ser tão absurdas, que aquelas sociais chegam mesmo a me parecer simpáticas… Sem dúvida é mais justo oferecer benefícios a quem se encontra sócio-economicamente mais desfavorecido – independentemente da cor de sua pele -, do que escolher um grupo baseado na história de seus antepassados.

E há ainda o problema de como se dá, na prática, a seleção dos “cotistas”… Há casos como o da UNB, por exemplo, onde existem comissões criadas para determinar quem merece ser considerado negro (!) e receber o benefício. Se trocarmos o termo “negro” pelo “ariano”, poderemos nos sentir na Alemanha de Hitler…

Apenas um povo muito racista poderia se orgulhar de militar por um sistema de cotas raciais, ignorando que as mazelas sócio-políticas lá da base, que deixam o Brasil com um dos piores sistemas educacionais do mundo civilizado, continuarão persistindo para sempre; que a garantia de entrar num número reservado de vagas é tão ou mais humilhante para os negros de hoje, do que a obrigação de usar pó-de-arroz no rosto, há séculos atrás; que o remendo legal feito agora, ao arrepio da constituição, não garante de as crianças brancas e negras recebam desde pequenas as mesmas oportunidades e caminhem juntas, mas servem apenas para aumentar o abismo que as separa.

O surpreendente, porém, é que essa idéia das cotas raciais não é coisa da “elite branca”, querendo apenas um paliativo para manter quietos os negros discriminados. É uma bandeira de luta do movimento negro, que considera uma conquista digna de comemoração o fato de ganhar lugar nas universidades, mas não ganhar o direito de ser tratado de forma realmente igualitária, recebendo desde o início da vida as mesmas oportunidades.

As cotas raciais deveriam envergonhar a sociedade, não receber aplausos dela.

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3 ideias sobre “Somos racistas.

  1. Eduardo Araújo

    Exatamente!

    O difícil é um esquerdista – normalmente, um imbecil com grande déficit intelectual – compreender que decisões de qualquer espécie tomadas com base em “raça” são racistas. Em se tratando da “raça negra”, o caso brasileiro é de um mal-disfarçado racismo de sinal trocado.

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  2. Anônimo

    Sou negro, não tão preto, todavia concordo totalmente com suas palavras. Estou de pleno acordo.

    Resposta

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