Chegou a eleição.

Hoje começa aquele período deprimente da propaganda obrigatória na TV, durante o qual somos obrigados a pagar por algo que não queremos ver. Mas e daí? Quem se interessa pelo que realmente querem os indivíduos? Seguramente não o Estado brasileiro, cada vez mais se sentindo a Super Nanny da sociedade: eles sabem o que é melhor pra nós, eles sabem como devemos nos comportar, o que devemos falar, que roupas devemos vestir e como devemos gastar nosso dinheiro. Dane-se a vontade dos cidadãos: o importante é “conscientizar”, “politizar” e “garantir o equilíbrio do pleito”. E depois perguntam o porquê da minha descrença na política nacional…

A política brasileira não é mais suja que a de outros países. É inerente ao jogo político essa lama, essa coisa abjeta e arrastada… A particularidade que me faz odiar a nossa Festa da Democracia™ é a forma como são conduzidos os processos políticos. A desenvoltura com que órgãos que deveriam garantir as liberdades individuais avançam sobre os cidadãos durante o período eleitoral, restringindo o direito que estes têm de se expressar, me deixa enojado!

No mundo civilizado, o cidadão precisa ser conquistado; precisa ser convencido a participar do processo político-eleitoral. Aqui, não. Aqui, parece-me, trabalham a fim de cada vez mais diminuir a margem de ação das pessoas. O objetivo último do Estado deixou de ser a garantia do pleno exercício de todas as liberdades individuais, para ser a busca por essa coisa abstrata denominada “equilíbrio do pleito”.

Pouco a pouco, o Estado avançou sobre os cidadãos e foi limitando as ações individuais. Hoje há normas sobre como indivíduos livres devem pintar os muros de suas próprias casas (!), sobre como devem adesivar seus carros (!!), ou, ainda, sobre como devem se vestir para ir votar (!!!). Peço desculpas, mas não consigo me empolgar minimamente com um processo revestido de tamanhas – como chamarei? – peculiaridades.

Há várias eleições meu principal voto tem sido o “branco”. Culpa da escassez de opções minimamente aceitáveis e da descrença numa realidade democrática que considero cada vez menos… democrática. A outra opção seria não votar, mas aí surge outro absurdo tipicamente brasileiro: a multa. Sim, aqui o cidadão que decide usar a liberdade de não jogar o jogo político, é punido pecuniariamente pelo Estado. Isso já diz muito sobre o quão imatura é a nossa noção de democracia.

Não existe meia liberdade. Democracia pressupõe, dentre outras coisas, o direito de não querer participar da “festa”. Ou, ainda, o direito de “votar mal”; ou “votar errado”. É preciso que o agigantado Estado brasileiro entenda isso e deixe que o protagonista soberano passe a ser o indivíduo, não a burocracia paquidérmica da máquina pública. O personagem principal do processo democrático é o cidadão em si mesmo, não a urna eletrônica ou as leis e resoluções. Enquanto isso não for aceito, continuaremos a ter essa coisa pegajosa, que tenta desesperadamente prender as pessoas por meio de uma obrigatoriedade de voto que não tem nada de civilizada.

Perdoem-me, mas não consigo me animar com semelhante “festa”…

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Ainda sobre democracia e processo eleitoral brasileiro, escrevi um looooongo texto em setembro de 2010 sobre alguns pontos que considero preocupantes. Tá aqui, pros que quiserem ler.

E aqui tem um sobre o porquê de eu ser contra a Lei da Ficha Limpa. Sim, vocês leram certo! 😉

 

 

 

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3 ideias sobre “Chegou a eleição.

  1. rogermaxrjsRangel

    Olá meu querido, mediante sua exposição o que mais soa em nossa mente é aquele velho, fadado e roto clichê:
    “Temos o governo que merecemos”…

    Pode até soar como válvula de escape, mas é só impressão… As verdades contidas em seu texto nos causa uma certa angústia que peito amigo algum, colo de mamãe ou cafuné da esposa venha nos remeter a outro estado senão a frustração, porém não devemos parar, mas prosseguir nossa vida até o quanto e onde pudermos ir… Na verdade não creio num governo humano que venha suprir nossas necessidades como ser social e democrático, portanto só nos restam engolir sapos, lagartos e escorpiões…
    Parabéns por sua publicação, um grande abraço e tenha uma excelente semana meu amigo.

    Resposta
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