Emergência democrática.

Outro dia, debatendo a eleição paulistana, usei a expressão “emergência democrática” pra justificar minha posição de preferir qualquer um, menos Celso Russomanno. A razão é simples: há momentos em que as preferências pessoais (político-ideológicas) devem forçosamente ficar em segundo plano, pois algo mais importante se propõe ao eleitor: salvaguardar os alicerces do sistema democrático.

Isso não é inédito – pelo contrário! A história da política mundial é a história de fazer, algumas vezes, escolhas de emergência; escolhas definidas pela conjuntura do momento. Revisitemos alguns exemplos:

1985: a eleição de Tancredo.

Naquela eleição, não cabia debater que candidato teria sido o melhor. Ou virar a cara teimosamente – como fez o PT -, negando-se a participar de qualquer coisa que não fosse uma escolha popular direta e soberana. Naquela eleição havia coisas mais urgentes a fazer; havia uma “emergência democrática” chamando: eleger o único candidato que representava um clarão de liberdade que conduziria o país para fora das trevas totalitárias. A escolha, muito antes de ser pró-Tancredo, era contra Maluf e o que ele representava. Podia-se não concordar com Tancredo, Sarney e demais políticos envolvidos no “acordão”. O que não se podia era, em sã consciência, deixar de votar nele.

2000: a eleição de Marta.

O segundo turno daquela eleição municipal, em São Paulo, foi entre Maluf e Marta. O candidato do PSDB e do governador Mário Covas (um jovem Geraldo Alckmin) ficara pelo caminho, ainda no 1º turno. Mais uma vez, não havia escolha a ser feita, pois só havia uma escolha possível: era imperativo derrotar Maluf. Covas entendeu, os tucanos entenderam, os paulistanos entenderam. Marta venceu e, desde o primeiro dia de mandato, sofreu oposição do mesmo PSDB que a ajudara na eleição. Tudo muito normal e lógico: passada a “emergência democrática”, as coisas voltaram ao normal.

2001: a eleição de Prodi (premiê italiano).

Naquele ano, Romano Prodi construiu a maior coligação partidária da história italiana e, ouso dizer, mundial. Dezenas de partidos (da esquerda mais radical e anti-globalização, aos egressos da Democracia Cristã) se uniram em torno da única urgência existente: derrotar Berlusconi. Políticos que não conseguiriam elencar nenhuma afinidade ideológica perceberam a “emergência democrática” e deixaram para depois as divergências: era imperativo deter o bufão italiano. E ele foi detido.

2006: a eleição pro Senado no Amapá.

Depois de anos ocupando uma vaga de senador pelo Amapá, José Sarney disputou novamente a eleição, pra prorrogar o mandato. Além dele, havia uma outra candidatura que rapidamente pareceu eleitoralmente viável e capaz de acabar com a “era Sarney” no Amapá. Eu não lembro de nenhuma proposta/promessa dela; eu não lembro do jingle; eu não lembro de nenhum ato de campanha (mesmo porque não fui a nenhum)… E eu não lembro dessas coisas porque nada disso interessava. O que interessava era a “emergência democrática”: havia que se derrotar Sarney. Pouco importava se era via candidatura do PSB, do PCdoB, do PT, do PCO, do PSTU… As questões político-ideológicas deveriam ficar para depois. Então, não se percebeu a urgência da situação e Sarney venceu…

Esses são só alguns exemplos que lembrei aqui, rapidamente. Sou um conservador, nunca escondi isso… E, como tal, entendo que os valores e as liberdades próprias do sistema democrático estão acima de qualquer preferência partidária ou ideológica. Eu não votaria jamais no desastre só pra derrotar um adversário político, pois não se deve recorrer aos mecanismos democráticos para violar a própria democracia.

Mas eu não faço política partidária… É lógico que quem a faz entende mais do assunto do que eu…

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5 ideias sobre “Emergência democrática.

    1. yashagallazzi Autor do post

      O 3º maior orçamento do país (fora a importância política!) nas mãos da IURD e do EDIR MACEDO?! O que falta pra ser catástrofe?

      Resposta
    1. yashagallazzi Autor do post

      Ué, porque teve boa parte dos votos da periferia. O que importa é que não foi adiante.

      Resposta
  1. Franco Pontes

    A “emergência democrática” maior é prevalecer o princípio da igualdade e garantir que o Amapá tenha 3 senadores, algo que nunca ocorreu em Brasília!

    Resposta

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