Francisco

O conclave terminado na última quarta-feira decidiu que o então cardeal Jorge Mario Bergoglio deverá guiar a Santa Madre igreja, como seu Sumo Pontífice. Surgiu, então, diante de uma multidão de fiéis aglomerados na praça de São Pedro, o Papa Francisco.

Desde então, muito se especulou sobre a eleição do primeiro Papa sulamericano e sobre se a escolha seria boa, ou não. Adianto que não me atrevo a gostar ou desgostar de um Papa. Quem sou eu, não é mesmo? A mim cabe apenas aceitar, e respeitar o sucessor de Pedro, reconhecendo-o como líder máximo da minha igreja.

Quanto ao país de origem de Francisco, devo dizer que a nacionalidade do novo Papa não é o que mais merece destaque, a meu ver. Há outras nuances no homem escolhido pelos cardeais que merecem algumas observações, porque cercadas de simbolismos os mais diversos.

A “surpreendente” escolha

Bergoglio foi uma surpresa para grande parte do mundo, é verdade. Mas não parece ser lícito dizer que tenha sido um “azarão” no conclave que o elegeu. De fato, há tempos indiscrições dão conta de que já em 2005 o argentino foi muito bem votado – não a ponto de ameaçar a eleição de Ratzinger, porém.

Parece bastante lógico que quem era uma boa opção em 2005, continue sê-lo oito anos depois. Pessoalmente, não o incluí entre os “favoritos” por conta da idade: costuma-se alternar papados curtos e papados mais longos, o que me fez acreditar na eleição de um cardeal um tanto mais jovem.

A escolha de Bergoglio, hoje com 76 anos (fará 77 ainda em 2013), porém, pode apontar para outra coisa: o desejo da igreja de papados mais breves. Dificilmente o Santo Padre poderá governar por quase 30 anos, como fez João Paulo II (eleito aos 58 anos). Tudo, evidente, mera especulação minha…

O nome escolhido e os primeiros gestos públicos

Ao se nomear como o primeiro Papa Francisco da história, o sinal transmitido pelo Santo Padre é de uma importância assombrosa. Bergoglio não apenas homenageia o “óbvio” São Francisco de Assis – Il povrerello (o pobrezinho) -, como também São Francisco Xavier, um dos maiores nomes da ordem dos Jesuítas, de onde vem o novo Papa.

Esse nome, por demais forte simbolicamente, parece parte de um conjunto de atos que Francisco vem adotando desde o primeiro momento como líder da igreja católica, sempre no intuito de externar o máximo de simplicidade e de humildade possível. É o que se depreende, por exemplo, do fato de ele decidir pagar a conta do hotel em que ficou hospedado; da decisão de ir à Basilica di Santa Maria Maggiore, orar, antes de se ocupar das vestes papais; e, por fim, do fato de pedir que bispos e padres argentinos façam caridade com o dinheiro que usariam para ir à Roma vê-lo.

Mais que tudo isso, porém, entrará para a história o Sumo Pontífice, diante da multidão de católicos que o recebia em festa, pedindo para que o povo o abençoasse. Um silêncio longo e marcante, durante o qual o líder da igreja curvou-se diante do seu povo, pedindo orações antes de ele próprio dar a bênção.

Mas e as posições conservadoras?

Muitos questionaram, tão logo se divulgou quem fora escolhido na Capela Sistina, as posições conservadoras de Bergoglio acerca de temas como casamento gay e aborto. Eu juro que não entendo quem se surpreende com isso… Queriam o quê?! Do ponto de vista do aborto, a questão é indiscutível! Trata-se de dogma; de “cláusula pétrea”. Do ponto de vista do casamento gay, o que esperam? Que a igreja católica realize matrimônios de pessoas do mesmo sexo? Acho que há uma confusão nas coisas; nas reivindicações postas… Explico.

O movimento gay (ou mesmo a sociedade como um todo) deve exigir que: 1) o Estado garanta direitos civis iguais a todos, sem distinção; 2) a igreja (qualquer igreja!) não interfira nas questões de Estado; 3) o Estado não se envolva nas questões de igreja. Só isso!

Ora, o Papa fala ao povo dele. E ninguém é obrigado a ser católico, não é mesmo? A igreja não pode impedir que o Estado regule as uniões civis de homossexuais, mas pode perfeitamente externar sua opinião sobre o assunto. Liberdade de expressão, amigos. Todos podemos opinar sobre o que quer que seja.

O mesmo vale para o aborto: o Estado quer legalizar a prática? Que o faça! A igreja e os católicos podem perfeitamente se dizer contrários e, valendo-se dos mecanismos da sociedade democrática (da qual fazem parte), defender seu ponto de vista. Lembro, uma vez mais, que só precisa se importar com o que pensa o Papa, quem o reconhece como líder religioso. Quem gosta de repetir que “a igreja católica está ultrapassada”, ou que “ser Papa não quer dizer nada”, não precisa se preocupar com o que Francisco pensa. Mas não pode pretender calá-lo! Queiram ou não, os católicos são parte da sociedade e podem, como quaisquer outros, externar suas opiniões.

A decadência do catolicismo

Muitos dizem que essa insistência da igreja católica em manter posições ditas conservadoras e antiquadas a está condenando ao fim. Não deixa de ser curioso notar que profetiza-se a extinção da Santa Madre há coisa de uns dois mil ano, e até agora ela segue aí…

Tão decadente e pouco importante é a igreja de Cristo, que durante duas semanas só se falou dela nos principais meios de comunicação do mundo. Aqui, a principal rede de televisão cobriu in loco a escolha do sucessor de Pedro. Na internet não se falava sobre outro assunto… Imagino como deveria ser na época em que a igreja estava no auge, não é mesmo?

Não, eu não pretendo negar que há problemas (alguns gravíssimos!) que devem ser enfrentados. É evidente que os há! A igreja é a portadora da verdade revelada pelo Filho de Deus, mas é conduzida por homens. E homens são pecadores, sujeitos às mais diversas falhas…

O meu ponto é: não me parece ser o mais lógico se preocupar com os alarmes vindos de pessoas para as quais seria um bem se amanhã o catolicismo simplesmente deixasse de existir. Em outras palavras, eu não quero saber qual a solução que um Jean Wyllys tem para a igreja; ou o que Tom Zé e Hector Babenco acham que o Papa deveria fazer para “modernizar” a Santa Sé. Não! Para esses, suponho que o ideal fosse um Papa a favor do aborto, do casamento gay, que trocasse o evangelho pelo Manifesto Comunista e – por que não? – que fosse ateu.

Pessoas e entidades as mais diversas (Marx, URSS…) já anunciaram que o catolicismo estava com os dias contados. Quase todas já ruíram, enquanto a Barca de Jesus segue navegando – ainda que enfrentando mares tormentosos.

Ruptura?

Mas se há problemas (e os há aos montes!) a resolver na igreja, teremos uma ruptura de paradigmas? Não, não teremos. Francisco não é – ao contrário do que boa parte tenta demonstrar – um anti-Bento XVI. Pelo contrário: ouso dizer que o Papa Emérito não apenas aprovou a escolha, como esperava por ela.

Como Ratzinger (ainda que sem a mesma proeminência intelectual), Bergoglio também sempre foi um exímio estudioso; um intelectual de preparo inquestionável. Nunca é demais lembrar que se trata de um Jesuíta, uma ordem conhecida por seu apreço intelectual e por sua farta produção de conhecimento.

A principal característica do papado de Francisco, a meu aviso, será o desejo de emular São Francisco Xavier: unir a missão pastoral de evangelizar o mundo, ao atrelamento doutrinário mais puro. Lembremos que Bergoglio, quando arcebispo de Buenos Aires, se opôs frontalmente a coisas como a Teologia da Libertação. Ele não discorda que cuidar dos pobres de Deus seja um dever cristão, mas não acha – ainda bem! – que isso deva ser feito colocando-se Marx ao centro de tudo, no lugar de Jesus.

Descarto qualquer ruptura com a chamada linha teológica de Ratzinger – que, atrevo-me a apostar, seguirá sendo o farol intelectual da igreja enquanto viver. Todas as coisas já ditas e escritas por Francisco, permitem concluir que ele será radical quanto à defesa da doutrina, como sempre foi seu antecessor (e os antecessores deles). E é muito fácil de entender por qual motivo as coisas serão assim, basta lembrar do que ensinou Chesterton.

Segundo ele, a melhor forma de manter um poste branco sempre branco não é trocá-lo toda vez que ele estiver sujo (revolucionar), mas pintá-lo um pouco de branco todos os dias (conservando-o). É evidente que a essência católica é de conservação, afinal – repito! – a ela cabe cuidar da verdade que lhe foi revelada pelo Deus encarnado.

A certeza de que Francisco não fará concessões de ordem moral e teológica, porém, não afasta a idéia – passada por ele mesmo neste pouco tempo sobre o trono de Pedro – de que poderemos ter um papado mais pastoral e missionário. E aqui – e somente aqui – noto alguma importância na origem geográfica do novo Papa: a idéia pode ser mostrar o desejo de desapegar-se da burocracia da Cúria Romana e olhar mais para o mundo como um todo. Algo ótimo, por sinal!

—–

P.S.: Não, nem comentei as “denúncias” de que o Papa Francisco teria colaborado com a ditadura argentina. Por ora, não há nada além do jornalismo que “ouviu dizer”… É o mesmo tipo de jornalismo que chamou Ratzinger de nazista, lembram? Aguardo que alguma evidência concreta, além de um político kirchnerista qualquer, seja apresentada. Até lá, prefiro acreditar no sucessor de Pedro (eu acredito na encarnação do Filho de Deus, acreditar no Papa é a menor das minhas “esquisitices”).

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