Eles não se conformam

Dilma esteve ontem em Minas Gerais. Além de falar que respeita muito o ET de Varginha (sério!), a presidente também achou por bem analisar as manifestações populares que tomaram o país ao longo do mês de junho:

A presidente Dilma Rousseff avaliou ontem que as manifestações populares que ganharam as ruas nos últimos meses contribuíram para acelerar a tramitação de propostas relevantes para o país. A petista destacou, como exemplo, o projeto que está atualmente na Câmara dos Deputados que destina recursos dos royalties de petróleo para a área da Educação e da Saúde. Segundo ela, os protestos vieram “para o bem” e chegou a hora do Brasil “avançar a passos rápidos”.

– A gente avança se tiver recursos suficientes para apostar na Educação e isso vai passar por esses recursos (dos royalties). Por isso que estamos em um momento especial. Algumas coisas, às vezes, vêm para o bem – afirmou a presidente, que participou de inauguração do Campus de Varginha da Universidade Federal de Alfenas.

Dilma confirma, com isso, que não entendeu nada do que se passou no país. As inúmeras idéias mirabolantes do governo petista para “acalmar a população” já davam uma idéia do quão perdida estava a turma lá no Planalto. Já foi a vez da constituinte exclusiva (arquivada), do plebiscito para reforma política (arquivado), de aumentar em dois anos o curso de medicina (arquivado), do programa “mais médicos” (até o momento, um fiasco). A votação mais emblemática acontecida depois de iniciados os protestos acabou com um resultado contrário aos interesses do governo petista: a derrubada da PEC 37. Qual será a próxima saída genial que o PT encontrará para “responder ao sentimento das ruas”?

A fala de Dilma dá a entender que os projetos de interesse do governo petista estariam indo adiante graças à mobilização popular. Besteira! A agenda do povo que foi às ruas em nada coincide com a agenda do grupo político que detém o poder. Mas será mesmo que a presidente e todos os seus assessores não perceberam isso ainda?

Ora, claro que perceberam! Eles podem não saber o que fazer para reverter a queda da popularidade de Dilma e retomar as rédeas da agenda política brasileira, mas já entenderam há tempo que essa indignação nacional não lhes é favorável em nada. Quando o povo se revolta, não importa o motivo: o governo estabelecido sempre é prejudicado.

A questão é que o PT, em particular, e as esquerdas, em geral, estão aterrorizados e não conseguem esquecer as ruas tomadas de gente. Isso porque é a primeira vez desde a redemocratização que uma grande mobilização social não se fez com as rédeas do movimento estando nas mãos do PT – ou de seus braços na dita sociedade civil: MST, UNE e CUT.

Não pretendo com isso dizer que o sentimento de revolta será objetivamente positivo do ponto de vista do amadurecimento democrático, ou mesmo benéfico para as oposições. É difícil traçar um diagnóstico 100% correto de uma onda de protestos sem liderança estabelecida e sem uma pauta claramente definida. De certo modo, também tenho um pouco de medo, pois o viés apartidário pode facilmente ser usurpado por alguém disposto a fazer o discurso antipolítico (e esse é um prato cheio pra dona Marina Silva…), coisa que me soa sempre perigosa.

Dito isso, pode-se concluir do cenário atual duas coisas muito claras para qualquer bom observador: 1) o PT não detém mais o domínio da indignação popular, inclusive por ter se tornado alvo de boa parte dela; 2) presidente nenhum com menos de 40% de avaliação positiva pode esperar uma campanha à reeleição tranquila. É motivo mais que suficiente pro PT estar, pela primeira vez desde 2002, fora de sua zona de conforto. E a fala de Dilma ontem, em Minas Gerais, apenas mostra o quanto isso é verdadeiro.

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