O PT sabia, já em 2003, que o problema da saúde não era falta de médicos.

Fazer proselitismo barato nunca foi problema pro PT, não é mesmo? Desde Lula é assim: todo discurso é “nunca antes na história deste país”, criando uma realidade de ficção onde a saúde pública, vejam vocês, estaria beirando a perfeição. Como os fatos, porém, mostram hospitais cada vez mais abandonados, é preciso encontrar um culpado para receber a culpa – e ser alvo da revolta popular: os médicos brasileiros, esses “mauricinhos” e “patricinhas” gananciosos, que condenam à morte os pobres ao se recusarem a trabalhar no interior do Brasil. A verdade, porém, é outra. Vejam trecho de notícia publicada no Blog do Josias (íntegra aqui):

Em janeiro 2010, o SUS oferecia em seus estabelecimentos 361 mil leitos hospitalares. No último mês de julho, os hospitais públicos dispunham de 348.303 leitos. Extraídos de um banco de dados do próprio Ministério da Saúde, esses números revelam que a clientela do sistema público de saúde perdeu 12.697 camas em três anos e meio.

As informações foram reunidas pelo Conselho Federal de Medicina e repassadas à Procuradoria-Geral da República nesta terça-feira. A entidade médica mantém um acordo de cooperação técnica com o Ministério Público Federal. Propôs a constituição de um grupo de trabalho para averiguar as causas do fenômeno.

De acordo com o conselho de medicina, as especialidades que mais perderam leitos foram psiquiatria, com redução de 7.449 vagas, e pediatria, com queda de 5.992 acomodações. Em números absolutos, as regiões Sudeste e Nordeste perderam mais leitos. No topo do ranking, o Rio de Janeiro perdeu 4.621. Minas perdeu 1.443. São Paulo, 1.315. No Maranhão, sumiram 1.113 leitos.

O conselho diz ter tomado o ano de 2010 como marco inicial para o estudo porque o governo informara que os números de períodos anteriores poderiam estar desatualizados na base de dados do Ministério da Saúde.

As informações completas, repassadas pelo Conselho Federal de Medicina à Procuradoria-Geral da República, podem ser acessadas aqui. Percebam que trazer mais médicos não faria leitos brotarem magicamente do chão dos hospitais. A falta de investimento em infraestrutura mostra-se, assim, a principal chaga do sistema de público de saúde brasileiro (aquele mesmo que Lula recomendou a Obama…). E não é só a falta de leitos o problema. Vejam trecho de uma matéria feita pela Folha com profissionais selecionados já no programa Mais Médicos (íntegra aqui):

A carreira de Nailton Galdino de Oliveira, 34, no programa Mais Médicos, bandeira de Dilma Rousseff (PT) para levar atendimento de saúde ao interior e às periferias, durou menos de 48 horas e exatos 55 atendimentos.

Alegando estar impressionado com a estrutura precária da unidade em Camaragibe (região metropolitana do Recife), onde atuou por dois dias, pediu desligamento.

“É uma aberração: teto caindo, muito mofo e infiltração, uma parede que dá choque, sem ventilação no consultório, sala de vacina em local inapropriado, falta de medicamentos“, afirmou.

(…) A Folha encontrou exemplos espalhados pelo país, com justificativas variadas alegadas pelos profissionais –incluindo falta de infraestrutura, planos profissionais e pessoais e desconhecimento de algumas condições.

Na prática, as desistências de brasileiros devem reforçar a dependência do programa por profissionais estrangeiros.

Um balanço da segunda rodada do Mais Médicos mostra baixa adesão de novos interessados na bolsa de R$ 10 mil por mês. Houve só 3.016 inscrições –mais de metade de formados no exterior.

Enquanto isso, a demanda por médicos ultrapassou 16 mil –menos de 10% foi suprida na primeira etapa.

O ministro Alexandre Padilha (Saúde) disse que, após a nova fase, deve pensar “outras estratégias” para atrair mais médicos. Ele comparou as baixas às dificuldades cotidianas de contratação.

“As secretarias estão vivendo o drama que toda vez vivem quando fazem um concurso público”, afirmou.

(…) Em Vitória da Conquista (BA), dos cinco médicos que deveriam ter começado, três já desistiram. Na região metropolitana de Campinas, dos 13 selecionados, 5 pediram para sair. Na capital paulista, 1 de 6 voltou atrás.

Em Salvador, 5 dos 32 convocados já abandonaram, assim como 11 dos 26 profissionais previstos em Fortaleza. No Recife, 2 desistências foram confirmadas de um total de 12 médicos selecionados.

(…) A baiana Clarissa Oliveira, 27, disse que recuou devido “à falta de estrutura” da unidade em que trabalharia na periferia da capital baiana. (…)

Ora, então vai ficando claro, mais rápido que o esperado pelo marketing petista, que idéias mirabolantes para levar médicos às áreas mais carentes do país (inclusive importando profissionais estrangeiros ignorando seus direitos sociais e trabalhistas) não é suficiente para resolver as mazelas que afligem a saúde pública nacional.

O Mais Médicos não fará com que salas de cirurgia de última geração se materializem nos hospitais, nem garantirá que amanhã teremos remédios básicos onde hoje há mofo. Como vai ficando cada vez mais claro, trata-se apenas de uma medida eleitoreira, cujo objetivo é permitir que João Santana coloque no horário eleitoral pessoas de jaleco abraçando e sendo abraçadas por inocentes úteis.

“Ah, mas o programa é apenas emergencial”, dirá o DCE da internet, sempre pronto a defender o governo petista. Não deixa de ser engraçada a desenvoltura com que uma gestão que está no poder há uma década usa a palavra “emergencial”… Eles não entendem que com isso admitem a própria incompetência: se depois de 10 anos de governo ainda são necessárias medidas de emergência, significa que o planejamento estruturante (ele alguma vez existiu?!) foi um lixo!

O mais ridículo, porém, é que nem os petistas acreditam nisso – só repetem esse mantra da medida emergencial para enganar os trouxas na internet. O próprio PT sabia, já em 2003, que o problema da saúde pública no Brasil não era a falta de médicos. O blogueiro Rodrigo Constantino publicou um post sobre o projeto de lei 65/2003, do deputado petista Arlino Chinaglia. O que ele diz? Bem, vejam abaixo apenas alguns trechos da justificativa apresentada (íntegra aqui):

O primeiro objetivo deste Projeto de Lei é o de proteger a população do País contra a gravíssima ameaça resultante de cursos de Medicina de má qualidade, no Brasil ou no exterior.

O segundo objetivo é o de proteger os médicos brasileiros formados em instituições de bom nível, ainda a grande maioria, do aviltamento das suas condições de trabalho – contra a invasão do mercado de trabalho por diplomados em Medicina, sem adequada condição de exercê-la.

O Brasil já tem uma relação de médicos por habitante acima do índice recomendado por instituições internacionais que é de 12 médicos para 10.000 habitantes. Essa proporção deverá continuar crescendo com rapidez, uma vez que o aumento da população de médicos – que tem se mantido constante – é maior do que a taxa de crescimento do total da população ( que tem decrescido ).

(…) O Projeto de Lei estabelece, ainda, que o Poder Executivo deverá definir normas para controle de entrada de profissionais de outros países no mercado brasileiro. É de extrema importância que seja tomada tal medida, em vista da globalização da economia e especialmente da integração de nossa nação no Mercosul. O intercâmbio científico, cultural, econômico e social é uma realidade que devemos impulsionar, e para que isso ocorra em benefício de nossas populações, cada poder nacional deve ter regras democráticasNo exercício da medicina é necessário que os cursos feitos no exterior sejam validados como dispõe o art. 4º do presente projeto de Lei.

Eis aí… Em 2003 (há dez anos!) o PT já sabia que não é a falta de médicos que faz a saúde pública brasileira ser o lixo que é. Falta, como se viu nas declarações de médicos mostradas anteriormente, estrutura de qualidade e condições de trabalho minimamente. Se os hospitais localizados nas áreas mais carentes do país forem um lixo caindo aos pedaços, não adianta trazer mais médicos – sejam eles brasileiros ou estrangeiros: eles não aprenderam na faculdade de medicina a fazer mágica para criar remédios.

O governo brasileiro sabe que esse programa não vai resolver porcaria nenhuma, nem mesmo os chamados problemas emergenciais. O que eles querem é apenas pautar a imprensa, conduzir a agenda da discussão político ao seu bel prazer e produzir peças publicitárias pro horário eleitoral obrigatório do ano que vem.

Para o PT, a campanha eleitoral já começou – como venho repetindo quase que diariamente aqui. Resta mostrar que os fatos são muito diferentes das criações mirabolantes saídas da máquina de propaganda deles.

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