Qual é a nova política de Marina?

Marina no PSB de Eduardo Campos. Sem dúvida uma notícia que mexe bastante no cenário eleitoral, mesmo sendo ainda cedo para saber de que forma isso vai impactar a eleição. Ela vai concorrer em primeira pessoa? Será vice dele? Senadora? Não disputará nada? Não é possível, agora, cravar o que fará a ex-ministra de Lula (e os entendidos de política que estão proferindo certezas na imprensa são os mesmos que, como nós, não esperavam pela filiação dela no PSB…).

Eu me permito o ceticismo de não acreditar em desprendimento quando se trata de política: se Marina queria apenas apoiar Eduardo Campos depois de, numa epifania qualquer, ter descoberto que o projeto do pernambucano era melhor que o dela, a filiação não era necessária. Bastava declarar apoio e pronto. Certeza que ele aceitaria feliz da vida.

Não… Ela se filiou porque quer concorrer. A questão que fica é a qual cargo. Meu chute – claro! – é que mantém intactas as pretensões de disputar a Presidência e escolheu, justamente por isso, o partido do candidato que aparece com menor intenção de voto nas pesquisas. Imaginem a pressão que o lobby sonhático fará em prol de uma renúncia de Eduardo Campos.

Mas isso tudo, como dito antes, são especulações acerca do que está por vir. Eu queria analisar um pouco o que há de concreto e essa, admito, não é uma tarefa fácil quando se fala de Marina Silva: o discurso dela pode ser muitas coisas, mas concreto não é.

Se vamos falar do que Marina Silva representa, nada melhor do que dar espaço às palavras dela. Vejam abaixo o que ela falou ao jornal O Globo, depois de se filiar ao PSB (os destaques são meus):

Ao lado do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, Marina Silva e aliados anunciaram, na tarde deste sábado, a filiação de integrantes da Rede Sustentabilidade ao PSB. Marina deixou claro o apoio à candidatura de Campos à Presidência da República, mas não confirmou se vai compor a chapa na condição de vice. Quando perguntada se apoiava o nome do governador, ela respondeu com outra indagação:

— Você tem alguma dúvida em relação a isso? – disse ela.

Após um longo suspense, Marina surpreendeu o mundo político e assinou sua filiação à sigla de Campos. Cercados por militantes, os dois fizeram juntos o anúncio da aliança, em Brasília. O acordo é de que Marina será vice de Campos em 2014, mas os dois evitaram oficializar a chapa.

— Não sou uma militante do PSB, sou militante da Rede Sustentabilidade, e a Rede ainda não fez essa discussão de se vai ter vice ou não vai ter vice. O PSB já fez sua discussão e tem um candidato.

Marina destacou que tanto a possibilidade de migrar para uma pequena sigla apenas para ser candidata à presidência quanto simplesmente abdicar da disputa e permanecer construindo a Rede seriam atitudes previsíveis:

— A minha decisão foi de não ficar carimbada como aquela que tentou criar um partido e foi abatida na pista e foi atrás de uma sigla de aluguel, ou como aquela que, querendo ser Madre Teresa de Calcutá da política, se resignou no manto e disse para o Brasil que está aí com esse atraso na política que pode fazer a gente perder as conquistas que a duras penas ganhamos, eu vou ficar resguardada de tudo isso. A decisão foi de assumir posição, e a posição é programática não é pragmática. O mundo e o melhor de mim estou depositando aqui no projeto por um Brasil que queremos.

Antes de responder a perguntas da imprensa, Marina discursou e agradeceu a oportunidade dada por Campos para a filiação de integrantes da Rede. Ela disse que o seu partido é a primeira legenda clandestina desde a redemocratização. A ex-senadora reiterou a tese de que a rejeição do registro de sua legenda não foi uma derrota. E afirmou que a História julgará se o ato será uma vitória ou uma derrota. Marina disse ainda que a aliança entre Rede e PSB vai “sepultar de vez a Velha República”.

— Nós somos o primeiro partido clandestino criado em plena democracia. Quero agradecer ao PSB por ter dado chancela política e moral — disse ela, em evento no Hotel Nacional, em Brasília.

— A vitória ou a derrota só são medidos na História. Apressa-se quem acha que uma derrota se dá numa canetada. Se não é possível um novo caminho, há que se aprender uma nova maneira de caminhar — discursou, sendo aplaudida em seguida.

Logo depois do discurso de Marina falou Eduardo Campos. Discursando como candidato à Presidência, ele afirmou ser de uma família de perseguido político e disse que a política atual abandonou o povo, num ataque indireto ao governo do PT.

Os brasileiros querem um Brasil melhor, mais limpo, querem derrotar a velha política. Esse país quer respeito e decência na vida pública. A política abandonou o povo, a vida das pessoas. Falta na política brasileira o sonho de transformar esse país… Nossa inquietação com o que virou a vida pública nos conduziu até aqui — disse ele.

— É um ato de reforma da política brasileira. Momento que nós fizemos o que não deixavam a gente fazer. Esse dia será lembrado daqui a 20, 30, 40 anos. Só quem não pensa de forma convencional poderia enxergar (a união entre Eduardo e Marina). (…)

Esse messianismo, vocês me desculpem, nunca representou nada de bom. Ao longo da história, todos os totalitarismos conhecidos começaram com alguém prometendo união em torno de “sonhos”, com o fim de “derrotar a velha política”. Mussolini fez isso na Itália. Mais recentemente, Berlusconi notabilizou-se por recorrer à mesma retórica – com direito a falar que a entrada dele na política, em 1994, seria lembrada pelas futuras gerações como o princípio da mudança.

A tática de demonizar a política apresentando-se como um “outsider” portador de uma espécie de verdade redentora não me seduz. Na verdade, costuma disparar em mim um alarme: nada de bom costuma surgir quando alguém se vale dos instrumentos do jogo democrático para pregar contra a… democracia!

No mais, qual seria essa “velha política” a ser sepultada pela união Marina-Eduardo? Deduzo que se opõem ao atual governo, do PT, liderado por Dilma. Em sendo assim, porém, como explicar que o PSB de Campos esteve, até outro dia, na base governista do governo petista – na qual está desde 2002, aliás? E Marina? A “velha política” que ela parece desprezar agora é a mesma da qual ela fez parte na condição de ministra do governo Lula? Afinal, falei lembrar que Marina continuou como ministra do governo petista mesmo depois de estourado o mensalão

Enfim, não me convence… A mesma política que hoje ela condena, como forma de se promover politicamente e tentar surfar na onda de insatisfações que surgiu no país, era a política da qual ela fazia parte como integrante do governo petista – ao lado de Sarney, Renan Calheiros, Maluf e companhia…

Hoje, Marina se propõe a fazer algo “novo”, rompendo com o que há de “tradicional”. Pois bem, ela e Eduardo querem mesmo acabar com o ciclo do PT? Há uma – e apenas uma – forma de fazer isso de verdade: unindo as oposições. Farão o único movimento possível para que suas palavras mudancistas tenham credibilidade, ou estão apenas preocupados em valorizar o passe, na hora de negociar apoio num eventual segundo turno? Meu ceticismo me leva a crer que a segunda opção é a verdadeira. Espero estar errado…

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