Abandono

Farei aqui neste post apenas uma breve compilação de alguns trechos do que li nessa matéria, que trata da transposição do rio São Francisco. Aliás, da transposição, não! Porque ela nunca aconteceu de verdade. A matéria fala do abandono de seres humanos, deixados para morrer de fome e sede no meio da pior seca dos últimos tempos. Vejam:

“O jumento sou eu”

Já há pelo menos dois anos que o aposentado Severino Pereira de Lima, 68, reclama de dores nas pernas e na coluna que o acompanham na lida da roça dia após dia. O problema de saúde, talvez, pudesse ser amenizado se ele mesmo não precisasse puxar uma carroça pesada por cinco quilômetros para buscar água para a família. Com a simplicidade de quem sempre viveu na zona rural de Pernambuco, Severino se define como “um homem que virou jumento”. Ele abriu mão do animal por não ter condição de dar de comer e de beber ao bicho.

Seca e morte de animais

Pela primeira vez, diz o homem, foi preciso comprar água para dar às 400 cabeças de bode que ainda resistem por ali. Não fosse isso, os animais começariam a passar sede.

“Paguei R$ 180 por 2.000 litros. E ganho salário mínimo, moço. As criações são uma ajuda”, conta. Para beber, há a água do caminhão-pipa da prefeitura. O rosto duro, marcado pelo tempo e pelo trabalho, cede lugar a uma feição chorosa. As lágrimas começam a rolar. Manoel está com os nervos à flor da pele.

A luta pela água

Em algumas residências, já quase não há mais água para beber e cozinhar. No meio de uma vegetação densa e seca e camuflada pela poeira de uma estradinha, está a casa de pau-a-pique – ou taipa, como dizem por lá – de Maria do Carmo Lima, conhecida como dona Mocinha, que já nem se lembra mais da própria idade, e da nora dela, Josefa Justino Paes, 58. A pobreza ali era evidente e, para não morrerem de sede, as duas mulheres buscam água salobra de um poço usando baldes sobre a cabeça.

“A cabeça fica doída, mas é assim mesmo, meu filho”, diz dona Mocinha, com uma voz mirrada, fraquinha, difícil até de ser escutada. A situação anda tão difícil que Josefa se apega à fé para acreditar em um futuro menos doído. “Apelo para meu ‘padim’ Cícero. E para Jesus e Maria também, meu filho”, conta ela, com os poucos dentes que lhe restam e uma dicção embolada. Dentro da pequena casa, imagens de Jesus Cristo se proliferavam.

“Não sei o que acontece e por que o governo federal é tão desorganizado”

No dia em que a reportagem visitou o trecho da transposição, não havia sequer um operário trabalhando. Cabras e bodes vagavam pelo canal e o utilizavam como uma passagem entre os dois lados da obra.

Enquanto a transposição não é concluída, o secretário de Administração de Custódia, Cristiano Teixeira Dantas, não economiza nas críticas ao governo federal. “Poderíamos estar sendo muito beneficiados se tudo já estivesse pronto. Não sei o que acontece e por que o governo federal é tão desorganizado. As obras aqui em nossa cidade estão paralisadas, abandonadas há três anos. Isso gera ainda desemprego e uma série de outros problemas. Nossa vida poderia estar bem melhor”, reclama o secretário.

A matéria em vídeo pode ser vista abaixo:

E a íntegra da reportagem está aqui. É assombrosa a forma como o governo federal trata essas pessoas: como se fossem cidadãos de segunda categoria. Não é gente que quer esmola, nem ser sustentada por um programa governamental: é gente trabalhadora que só precisa ter as condições mínimas para crescer e construir seu próprio futuro.

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Uma ideia sobre “Abandono

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