Dilma perde controle sobre a base aliada, sofre derrotas sucessivas no Congresso e mostra que não tem preparo algum para liderar.

Aquilo que começou como um desentendimento entre o governo Dilma e seu principal aliado no Parlamento, vai descambando para uma grave crise política, daquelas que, num sistema Parlamentarista, teria derrubado, ontem, o líder do Executivo. Dilma está vivendo uma semana negra no Congresso, experimentando derrotas sucessivas e vendo partidos até outrora fiéis ao projeto de poder petista ameaçando pular do barco às portas do processo eleitoral. Vamos recapitular alguns momentos no intuito de entender melhor o furacão que vai destruindo a base de sustentação do governo petista.

Líderes da base aliada do governo na Câmara defenderam o adiamento da votação do projeto do Marco Civil da internet enquanto os problemas de articulação política do governo não forem resolvidos. Após reunião de liderança realizada nesta terça-feira, 11, os parlamentares avaliaram que o recente impasse entre o Planalto e aliados pode causar derrotas ao governo na Casa.
Apenas o PMDB, principal partido da base e no centro do atual impasse, não participou do encontro desta terça. O receio dos aliados é que, com a base rachada, as alterações no texto defendidas pelo líder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), ganhem força e o governo seja derrotado em um tema considerado prioritário pelo Palácio do Planalto.
“O problema é de ambiente político”, resumiu o relator do Marco Civil da Internet, deputado Alessandro Molon (PT-RJ). “A pauta não é Marco Civil da Internet, a pauta é eleição”, acrescentou o deputado Luciano Castro (PR-RR), vice-líder do governo, para quem votar o projeto agora poderia resultar na aprovação do texto defendido por Eduardo Cunha. [Íntegra aqui]

Depois de comandar o boicote à votação do Marco Civil da Internet, o PMDB viu o vice-Presidente Michel Temer tentar (ao menos oficialmente…) desautorizar Eduardo Cunha, que virou uma espécie de símbolo dos “rebeldes”. Falou que ninguém era procurador do partido e que a aliança com o PT tinha tudo para continuar. Era a tentativa de abafar a revolta e recolocar tudo nos trilhos pretendidos pelo Planalto. E eis então que nos deparamos com isso:

Após três horas de reunião a portas fechadas, a bancada do PMDB da Câmara dos Deputados anunciou que atuará nas votações de forma independente ao governo e divulgou uma nota “exortando” a Executiva nacional do partido a debater a crise política e “reavaliar a qualidade da aliança com o PT”. Na reunião, recheada de críticas à atuação do vice-presidente da República, Michel Temer, os peemedebistas concordaram que votarão pela convocação do ministro da Saúde, Arthur Chioro, nas comissões onde há requerimento e que apoiarão a aprovação de um convite para que a presidente da Petrobras, Graça Foster, venha à Casa explicar as denúncias de pagamento de propina à funcionários da estatal.
Na nota, os deputados da bancada manifestaram apoio ao líder Eduardo Cunha (RJ) e ressaltaram que ele continua sendo o único interlocutor da bancada perante outras esferas. “Se ela (Dilma) quiser ouvir a bancada da Câmara, terá de falar com a bancada da Câmara”, avisou Cunha. Os peemedebistas também reafirmaram a intenção de não indicar nomes para a reforma ministerial e ainda agradeceram a posição do PMDB do Senado em não indicar os senadores Vital do Rêgo (PB) e Eunício Oliveira (CE) para os ministérios. “O Senado se recusou a indicar”, comemorou Cunha. [Íntegra aqui]

E então veio o dia de hoje. E Dilma foi obrigada a assistir impotente enquanto os “rebeldes”, junto à oposição, aprovavam a convocação de nove – eu disse nove! – ministros do governo, para dar explicações ao Parlamento sobre denúncias as mais diversas. Algumas, como a que relata um esquema de pagamento de propina na Petrobrás, são muito graves. Vejamos:

Um dia após derrotarem o Palácio do Planalto no plenário da Câmara, integrantes da base aliada impuseram um novo revés ao governo federal na manhã desta quarta-feira (12). Quatro comissões permanentes da Casa aprovaram a convocação de quatro ministros do governo Dilma Rousseff, além de convites para a presidente da Petrobras, Maria da Graça Foster, e outros cinco integrantes do primeiro escalão prestarem esclarecimentos aos parlamentares.

Os ministros convocados são Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), Aguinaldo Ribeiro (Cidades), Manoel Dias (Trabalho) e Jorge Hage (Controladoria-Geral da União). Por se tratar de convocação, eles serão obrigados a ir à Câmara em data que ainda será agendada.

Por outro lado, a dirigente da Petrobras e os ministros Arthur Chioro (Saúde), Marco Antonio Raupp (Ciência e Tecnologia), Paulo Bernardo (Comunicações), Francisco Teixeira (Integração Nacional) e Moreira Franco (Aviação Civil) não têm obrigação legal de ir ao Legislativo. Nesses seis casos, o PT conseguiu negociar a aprovação de um convite. O prazo regimental para eles irem à Câmara é de até 30 dias. (…)

As convocações e convites aos integrantes do governo são mais uma reação do chamado “blocão”, grupo de parlamentares da base aliada insatisfeito com a relação com o Executivo.

Comandadas pelo líder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), sete legendas governistas, mais o oposicionista Solidariedade, se uniram para pressionar Dilma a negociar com o parlamento. [Íntegra aqui]

“Nossa, como se os ministros fossem falar algo que os comprometesse ou comprometesse o governo.” Sim, de fato é pouco provável que as convocações dos ministros resultem em acusações formais contra Dilma e o governo. Mas sem dúvida o simbolismo político desse gesto (gente, foram nove ministros!) é algo a se ter em mente: não estamos falando mais de alguns deputados descontentes e rebelados, mas de um grupo com força política organizado e com condições reais de pressionar o governo ao qual davam sustentação até ontem.

A notícia realmente péssima para Dilma e para o PT, porém, nem foi essa. E tal fato diz muito sobre a fragilidade do Planalto no Congresso neste momento… Aquilo que vai tirar o sono de muito petista graúdo é o convite a uma outra figura que vem ganhando destaque nos noticiários ultimamente:

A profusão de más notícias para o governo Dilma Rousseff continua: na tarde desta quarta-feira, a Comissão de Segurança da Câmara aprovou o pedido de audiência com o ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Junior. Desde o ano passado, a oposição tentava levar Tuma Jr. para falar sobre seu livro Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado no Congresso, mas a base governista resistia.

Conforme revelou VEJA, Tuma Jr. afirma em seu livro que recebeu ordens enquanto esteve no cargo para “produzir e esquentar” dossiês contra adversários do governo Lula. Durante três anos, ele comandou a Secretaria Nacional de Justiça, cuja mais delicada tarefa era coordenar as equipes para rastrear e recuperar no exterior dinheiro desviado por políticos e empresários corruptos. Pela natureza de suas atividades, Tuma ouviu confidências e teve contato com alguns dos segredos mais bem guardados do país, mas também experimentou um outro lado do poder — um lado sem escrúpulos, sem lei, no qual o governo é usado para proteger os amigos e triturar aqueles que são considerados inimigos. Entre 2007 e 2010, período em que comandou a secretaria, o delegado testemunhou o funcionamento desse aparelho clandestino que usava as engrenagens oficiais do Estado para fustigar os adversários. [Íntegra aqui]

Acho que desde a ida de Roberto Jefferson à CPI do Mensalão que os petistas não tinham tanto medo de um depoimento… Notem que Tuma Jr. alega ter informações que comprometeriam diretamente o ex-Presidente Lula e sem dúvida ver algo assim exposto ao públicos às vésperas de uma campanha eleitoral não deve estar deixando o PT tranquilo.

E o horizonte para Dilma e para o PT não parece ser menos sombrio: hoje mesmo o PR, outro partido da base aliada, ameaçou abandonar o barco governista. O PSC, por sua vez, já se declarou independente do governo, o que sem dúvida não deixou feliz o PT. Para completar essa quarta-feira negra (que, vale lembrar, seguiu-se a uma não menos nebulosa terça), vejam o que disse Lula há pouco:

Ao ser questionado nos últimos dias sobre a possibilidade de entrar na disputa eleitoral deste ano, no lugar da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula deu a mesma explicação para interlocutores diferentes. “Eu estou pronto. Só não posso magoar Dilma”, disse Lula. [Íntegra aqui]

O que tudo isso nos diz, afinal? Primeiro que os partidos da base aliada do PT, se não estão efetivamente virando oposição, pode-se dizer que estão fazendo um “seguro” e tirando pelo menos um dos pés do navio governista. Segundo que Dilma é uma governante inepta, sem qualquer traquejo político, que está sendo jantada pelos deputados da própria base de sustentação (uma base que, vale lembrar, é a maior da história da República!). Isso mostra o quão despreparada é essa mulher, que só chegou ao posto maior do Executivo nacional porque Lula decidiu que queria eleger seu poste de estimação. Terceiro (e não menos importante) é que salta aos olhos a desenvoltura com que Lula (isto é, o próprio PT) coloca na rua o plano B, que é ele próprio. E aqui, há que se ler nas entrelinhas: um “Volta, Lula!” imediatamente pacificaria a base, sem dúvida. O plus é que também convenceria facilmente o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a desistir de sua candidatura (ele toparia tranquilamente a vaga de vice numa chapa encabeçada por Lula).

É aqui que chamo a atenção de todos: há uma e apenas uma candidatura verdadeiramente de oposição a esse projeto de poder que criou o mensalão, trouxe de volta a inflação e rebaixou a política externa brasileira. E essa candidatura é a do senador Aécio Neves. Aliás, é forçoso notar que essa rebeldia de alguns partidos da base não aconteceria se não houvesse uma oposição forte, com chances reais de vitória. Ela só acontece porque em Brasília já estão vendo algo que o país todo verá quando começar a propaganda na TV: o PT esgotou.

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