Pesquisas confirmam crescimento de Marina. Mas o que ela quer para o país? Alguém sabe?

Estado certas as pesquisas recentes (e não acho que estejam erradas mais do que tanto), o principal objetivo de 2014 já foi atingido: Dilma e os petistas podem começar a empacotar seus pertences porque é certo que dia 1º de janeiro de 2015 não estarão mais ocupando as dependências do Palácio do Planalto.

Depois do Ibope, o Datafolha também mostra um impactante crescimento da candidatura de Marina Silva, que já aparece empatada com Dilma no primeiro turno e à frente dela no segundo. O que eu acho? Acho o mesmo de sempre: faltando mais de um mês para a eleição, pesquisa não vale tanto pelos números de intenção de voto, mas por mostrarem tendências. E a tendência que parece emergir dos levantamentos é a de que Marina tomou parte do voto anti-PT que estava com Aécio, sendo vista como uma espécie de “voto útil” para vencer Dilma. Isso quer dizer que acabou a eleição? Não, longe disso.

Desde que aconteceu a tragédia que vitimou Eduardo Campos, Marina só deixou de estar positivamente na mídia na última quarta-feira, durante a entrevista ao Jornal Nacional. E, ainda assim, não é que ela tenha sido um desastre: mostrou que carrega muitas contradições e que, além de vender sonhos, tem, por enquanto, pouca coisa concreta a apresentar. Mas não esteve nem perto de sofrer um nocaute. Só nesta semana Marina começou a ser confrontada politicamente, como é justo que seja. Ainda temos quarenta dias de campanha pela frente só no primeiro turno e há que se ver como ela reagirá sendo cobrada com mais ênfase – afinal é a nova favorita.

Como venho dizendo, ainda acho fora de lugar falar em “furacão Marina”. Ela tem, agora, o mesmo que tinha em junho de 2013, no auge dos protestos. É a partir de agora que deve ser analisada a curva de Marina nas pesquisas: vai continuar crescendo, canibalizando também o balaio de votos de Dilma? Ou pára num patamar na casa dos 35%? Se crescer ainda mais, poderemos, então, falar em “fenômeno” e “furacão”. Por quanto isso me parece mais wishfull thinking de certo jornalismo brasileiro, órfão de sonhos mais à esquerda.

Mas afinal, o que quer para o país a candidata Marina Silva? Como seria o governo dela, que fala em todas as entrevistas que vai se livrar da tal “velha política” (o que quer que isso signifique), ao mesmo tempo em que afirmar querer governar com “os melhores quadros” – inclusive de PT e PSDB, partidos que ela já disse na TV estarem esgotados? São essas incógnitas que, a meu ver, ainda não estão nem perto de ser esclarecidas e que me fazem não embarcar na “onda” criada em torno do nome de Marina.

Eu tenho, não escondo, uma preferência pela candidatura de Aécio. As razões estão aí, no arquivo do blog: Aécio é o único candidato que, sempre que pode falar à nação, trata de forma objetiva dos problemas do país e apresenta propostas concretas para solucioná-los. Além disso, ele tem currículo na política: sei o que ele fez em Minas, como governador e, por isso, sei que posso acreditar quando ele fala que sabe como sanear o Brasil. Dilma… Bem… É esse desastre que todos conhecemos. E Marina, como falei antes, não se ocupa de responder concretamente o que lhe é perguntado.

Marina entendeu que foi um contexto de comoção que a colocou em evidência e que isso lembrou a todos o desejo de mudança externado há mais de um ano em todas as pesquisas. Bastou juntar A e B para que se desse a lógica: tendo mais recall, sendo conhecida de 100% do eleitorado e cavalgando o sentimento de emoção (poucos povos são mais emocionais que o brasileiro), Marina rapidamente encarnou o sentimento de mudança. Some-se a isso o fato de a outra alternativa, Aécio, ainda não ser totalmente conhecida e, assim como Dilma, ter sido abalroado pela reviravolta eleitoral causada pela morte de Eduardo Campos. Admitamos: nenhuma estratégia de campanha poderia ter se preparado para algo assim.

O problema, a meu ver, é que esse – como direi? – “misticismo” que há em torno de Marina (e que ela própria alimenta com entusiasmo) não apenas não me convence, como também me preocupa bastante. Essa coisa de sacar da manga a carta da origem humilde sempre que confrontada é algo que Lula sempre fez e… Bem… Digamos que ele acabou com os melhores colaboradores presos.

Marina procura, de forma esperta, permanecer no terreno abstrato dos sonhos. Ela sabe que o povo é emocional e se esforça para manter a campanha nesse terreno. Alguém pergunta por que ela deve ser escolhida e ela fala em “nova política” e “superar o atraso”. Depois perguntam com quem ela governaria e ela cita os “melhores de todos os partidos”, sem explica como conseguirá convencê-los a embarcar na sua arca da salvação. É como se respostas objetivas não fossem exigíveis de Marina simplesmente porque ela representa algo mais etéreo, que paira acima dos problemas mundanos decorrentes da nossa política tradicional.

Política tradicional, aliás, é outro termo que Marina adora citar pejorativamente, prometendo também escantear isso. E aí meu ceticismo só aumenta, principalmente quando se vê que a vida política de Marina é uma das coisas mais tradicionais que há: começou sindicalista, fez parte do PT, criou um nicho político próprio em sua terra (terei a boa vontade de não chamar de curral eleitoral) e compôs, no governo Lula, com gente como Sarney e Maluf. O que poderia haver de mais tradicional do que isso?

Sou um conservador, nunca escondi isso. Como tal, busco certezas, não aventuras. E rejeito qualquer discurso salvacionista que não tenha saído da boca de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se Marina é portadora de alguma verdade mística que lhe foi revelada entre os seringais da Amazônia, que a compartilhe conosco nas entrevistas, debates e no horário eleitoral. Que explique como sua “nova política” vai, na prática, solucionar o problema dos 50 mil assassinatos por ano, as filas no SUS e o tráfico de drogas. Só falar em mudar tudo sem explicar como, apenas mostrando aquele olhar profundo fixado no horizonte (como Obama fazia, lembram?), desculpem, é pouco para mim.

Como dito alhures, o jogo ainda não está jogado. A única certeza é que Dilma acabou e que qualquer um que for com ela ao segundo turno vai vencer, seja Marina, Aécio ou o Pastor Everaldo. Depois de uma semana dando um show técnico no horário eleitoral, o PT não conseguiu derrubar a rejeição à presidente nem melhorar a avaliação do governo significativamente. A era PT está próxima do fim, isso é fato. E, exatamente por isso, não se pode dizer que a eleição acabou, ou alguém acredita que o PT, dono da maior máquina eleitoral que este país já viu, vai vender barato a derrota? Marina pode se preparar porque a artilharia petista vai virar toda pra ela e eles são implacáveis.

Aécio, que vinha conduzindo a melhor campanha possível, foi sem dúvida fortemente atingido pela reviravolta. Sigo achando ele a melhor opção e votarei convicto nele. Vou além: é possível que se recupere nas pesquisas, principalmente depois de alguns ajustes no tom e no ritmo da campanha. Não que seja fácil: se atacar demais Marina corre o risco de ajudá-la a crescer e se atacar só o PT alimenta o discurso marineiro de que há uma “polarização nociva entre tucanos e petistas. Algum polimento nas campanhas estaduais, por exemplo, podem ajudar a mudar o quadro, já que o PSDB e seus aliados estão muito bem posicionados em São Paulo, Paraná, Bahia, Rio Grande do Sul e Goiás. São estados grandes, onde Aécio ainda não atingiu o potencial que poderia ter. Não é um trabalho simples construir um discurso assim, mas é possível fazê-lo, principalmente insistindo em mostrar que qualquer mudança pode não ser mudança alguma.

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