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Quem manda no futebol?

Enquanto você olhava pro lado: outro gol da Alemanha.

A final da “Copa das Copas” viu um espetacular jogo entre Alemanha e Argentina. No Maracanã, em território brasileiro, a maioria esmagadora dos nativos torceu pelos europeus, afinal não se podia acetar uma conquista do maior rival em casa, certo? Bom, nem tanto…

Muitos declararam preferir uma vitória da Argentina. Alguns por serem fãs de Messi, outros por preferirem evitar o tetra e, por conseguinte, a aproximação da Alemanha e, outros ainda, para que “o título ficasse na América Latina”. Esses últimos são os espécimes que me despertaram mais curiosidade antropológica.

Essa turma, agarrada às suas raízes continentais tal qual piolhos no couro cabeludo, advogava a tese segundo a qual o futebol latinoamericano é superior ao europeu e, por isso, mereceria mais o título. A primeira Copa foi aqui no continente! O primeiro campeão é daqui! O maior campeão de todos também! Ora, como questionar que a América Latina comanda em matéria de futebol? Bem, com fatos. Vamos olhar o que dizem os números:

  • Foram realizados 10 mundiais de clubes (daqueles com a chancela da Fifa, que a galerinha tanto adora) até o momento e o placar de títulos aponta: Europa 6 x 4 Américas. Com um dado a mais: nenhum time europeu sofreu um mazembaço™, como os brasileiros Inter e Atlético Mineiro.
  • Se considerarmos as Copas Intercontinentais também (acho justo que sejam consideradas), o continente americano vence por 22 a 21. Juntando as duas modalidades, portanto, segue à frente a Europa.
  • Em Copas do Mundo o tetra da Alemanha ampliou a vantagem européia para 11 a 9.

“Ah, mas só a frieza dos números não conta. Deve-se levar em conta a qualidade técnica.” Concordo! E, justamente por isso, acho um tanto quanto bocó alguém se recusar a reconhecer que já faz algum tempo que o futebol praticado na Europa (seja pelos clubes, seja pelas seleções) é bem melhor que aquele visto por aqui, nessas várzeas de campeonatos estaduais, nacionais e libertadores.

As últimas três Copas (estamos falando de uma geração já) ficaram com seleções da Europa e em duas delas as finais foram entre europeus. Em todas elas a seleção campeã se caracterizou pela supremacia de um jogo coletivo mais forte, que soube fazer frente a quem se escorava “apenas” em talentos individuais.

Grande elenco!

Grande elenco!

A superioridade do futebol europeu frente ao latinoamericano fica ainda mais evidente quando se considera que, tirando o Brasil, sobram só quatro títulos no continente, o mais recente deles conquistado pela Argentina, em 1986, graças a um gol de mão.

O que se tem de concreto, portanto, é que o Brasil, este sim, é, pelo conjunto de sua história, pela quantidade de suas conquistas e pelo peso de sua camisa, o país de mais destaque no futebol, basta ver que ele tem sozinho mais títulos de Copa que os outros dois vizinhos campeões juntos!

Hoje, porém, é evidente que o “país do futebol” não é mais referência nem dita mais os rumos do esporte, tanto do ponto de vista técnico, quanto do tático. Com exceção – vá lá… – de Neymar, qual outro jogador da seleção teria vaga inconteste na Alemanha campeã? E olha que, a meu ver, até o Neymar teria que batalhar e muito por espaço…

O futebol aqui parou. Não soube evoluir e insistiu em apostar todas as suas fichas no talento individual de seus craques. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas quando se chega a uma safra como a atual, absurdamente pobre de talentos, a vaca vai pro brejo.

Não há vergonha alguma em reconhecer que o futebol europeu é que dita os rumos do esporte atualmente (apesar de que… bem… o brasileiro médio não admite isso de jeito nenhum!). E nem quero dizer, com isso, que o tal técnico estrangeiro seja necessariamente a solução. Até acho que poderia contribuir, mas o ponto fundamental é outro: refletir sobre que tipo de futebol se quer praticar no Brasil.

Se acham que está bom um zagueiro dando chutões pra frente na esperança que a bola chegue ao Neymar e ele resolva, ok. Podem continuar praticando esse esporte que se assemelha um pouco a futebol. Se, porém, querem jogar futebol de verdade (como aquilo que a Alemanha jogou no Mineirão), o caminho deve ser outro.

O maior problema em aceitar que não se é mais protagonista e que é preciso tempo para recriar talentos é o imediatismo do brasileiro. No “país do futebol” ninguém vai aceitar um técnico que apresente um projeto onde a Copa de 2018, por exemplo, seja apenas um estágio e o time não entre pra ganhar, porque afinal “aqui é Brasil, porra! Cinco estrelas no peito!!!!”

Por outro lado, tentem projetar a seleção de 2018: a base vem dessa de 2014 mesmo. E quem será o lateral-direito? Quem será o goleiro? Quem será, enfim, o 9 do Brasil, posição órfã desde a aposentadoria de Ronaldo?

gap entre Europa e América Latina, no futebol, aumentou muito nos últimos anos, em boa parte, por conta da estagnação do Brasil, que é quem carrega o continente nas costas. Basta ver qual não seria a superioridade européia sem os mais recentes títulos da seleção (ambos vencidos já com times que jogaram fundamentalmente escorados em talentos individuais, menos que em grandes equipes de qualidade coletiva).

Ou se olha para quem é melhor atualmente, em busca de aprender um pouco de gestão profissional, capacidade tática e inovação técnica, ou se vai ficar como o Muricy, sugerindo que Guardiola não é isso tudo porque “nunca ganhou um brasileirão”. Por favor, escolham ser inteligente, não fazer papel de trouxas.

“A estatização do futebol”: excelente editorial do Estadão.

Muito, mas muito bom o editorial do Estadão do último sábado:

Ficaria melhor na Dilma Bolada – a falsa página da presidente nas redes sociais – do que na CNN, onde apareceu na quinta-feira, o que provavelmente foi o mais tosco chutão da chefe do governo nestes três anos e meio no Planalto. Numa entrevista gravada no dia seguinte à catástrofe do Mineirão, ao defender uma “renovação” do futebol brasileiro, Dilma disse que “o Brasil não pode mais continuar exportando jogador”. E, para deixar claro que o “não pode” seria uma proibição pura e simples, ela emendou de bico: “Um país, com essa paixão pelo futebol, tem todo o direito de ter seus jogadores aqui e não tê-los exportados”.

Em um surto provocado por uma mistura tóxica de oportunismo – para que o pó da derrota em campo não se deposite sobre o projeto da reeleição – e conhecido vezo autoritário, Dilma falou como quem quer cassar o direito constitucional dos brasileiros de ir e vir, dentro ou para além das fronteiras nacionais, como se o Brasil fosse uma Cuba ou Coreia do Norte. Para justificar a enormidade, deu uma pisada na bola de envergonhar um perna de pau. “Exportar jogador”, caraminholou, “significa não ter a maior atração para os estádios ficarem cheios.” Revelou involuntariamente, portanto, saber muito bem que boa parte ou o grosso dos US$ 4 bilhões despejados na construção e reforma das arenas da Copa serviu apenas para legar ao País uma manada de elefantes brancos.

A íntegra está aqui.

Brasil venceu na estréia e só Dilma saiu mais triste que os croatas.

Mas isso aí não é pênalti nem em coletivo lá nas Laranjeiras, né?!

Pois é, está tendo Copa do Mundo. O Brasil ganhou por 3 a 1 na estréia e a torcida, que não tem nenhuma preocupação além de comemorar (no que está correta), não quer saber de discutir pênalti e gol anulado.

Pessoalmente, fiquei surpreso com um Brasil excessivamente tenso e pouco organizado em campo. Na Copa das Confederações o time se apresentou melhor que ontem, onde insegurança e pouca objetividade estiveram evidentes.

Achei que Julio Cesar “bateu roupa” na maioria das bolas que defendeu. A lateral direita foi uma avenida aberto para os adversários (por lá saiu o gol da Croácia, inclusive). No meio só Oscar funcionou e, para minha surpresa, muito mais como segundo volante do que como meia puro (ele defendeu, recompôs, saiu pro jogo, apareceu no ataque…). De positivo pro time acho que há dois pontos: 1) Neymar está em forma; 2) Felipão tem um bom controle do grupo, tanto que voltaram pro segundo tempo visivelmente menos carregados de pressão.

Agora, convenhamos: o juizão deu uma colaborada que não foi pequena, heim? O pênalti sobre Fred nem precisa ser comentado, afinal ninguém discute que foi inventado. Além desse episódio em particular, me chamou a atenção que o árbitro estava – como se diz na gíria – “apitando só para um lado”. O gol de empate da Croácia foi ridiculamente anulado e o Neymar, com boa vontade, teria levado o vermelho naquele lance da cotovelada em Modric. Enfim, houve interferência da arbitragem no resultado, isso é inegável. Mas, como dito, a torcida não tem nada com o assunto.

Não entro na maluquice de falar em complô para favorecer o Brasil ou em Copa comprada. Acho que pode ter sido simplesmente um pouco de subserviência involuntária do juiz, mesmo. Principalmente porque ele também deve ter sentido uma enorme pressão ao apitar a estréia em casa de uma das seleções tidas como favoritas para a vitória final.

Mais triste que a Croácia, ontem, só Dilma e os petistas. A presidente, que resolveu dar as caras no estádio alguns dias depois de mentir descaradamente em cadeia de rádio e TV, ouviu sonoras vaias e até uns xingamentos. Abaixo um dos tantos vídeos que mostram o Itaquerão sendo – como direi? – pouco amável com ela:

Conclusões depois da estréia? Tenho duas: primeiro, o Brasil precisa melhorar bastante se quiser ganhar o título. Jogar como jogou ontem contra um time grande (e esse confronto deve acontecer já nas oitavas, contra Espanha ou Holanda) é certeza de eliminação – e não tem juiz que salve. Em segundo lugar, está bastante claro que já deu pra Dilma e pro PT. O Brasil pegou gosto em vaiar a presidente, que pode começar a se preparar para a aposentadoria, como sugeriu Aécio Neves.