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João Pereira Coutinho: as idéias conservadoras

João Pereira Coutinho concedeu uma bela entrevista ao jornalista Gabriel Garcia, publicada no Blog do Noblat. Ele fala sobre o novo livro que está lançando (“As idéias conservadoras”) e sobre o caos do sistema político-partidário brasileiro. Abaixo transcrevo alguns trechos:

Por que um livro sobre as ideias conservadoras?

O conservadorismo é apenas uma ideologia moderna, como o liberalismo ou o socialismo, e o objetivo do livro era apresentar essa ideologia, sem proselitismos, para dissipar caricaturas ou equívocos.

Há espaço na política para conservadores? O que seria um conservador?

Qualquer sociedade democrática e pluralista tem que ter espaço para vozes dissonantes. Só ditaduras procuram silenciar o adversário. Um conservador, por exemplo, é alguém que entende a política como um serviço prestado ao público e não como uma forma de nos servirmos dos recursos públicos. É alguém que entende seriamente a importância de reformar – a economia, a legislação trabalhista, a fiscalização -, de forma a tornar o seu país mais competitivo e, consequentemente, mais justo. Porque só pode existir justiça social se existe criação sustentada de riqueza.

Como o conservadorismo trata questões como união gay e aborto?

Depende. Existem conservadorismos, no plural, e cada um pode tratar desses assuntos de maneira diversa. Se perguntarem a um conservador de tendência mais libertária o que ele pensa a respeito dessas matérias, ele dirá que a união gay e o aborto são assuntos individuais, onde o Estado não mete a pata. Um neoconservador, pelo contrário, dirá que a defesa dos valores morais é tão ou mais importante do que quaisquer outros porque são os valores morais que sustentam uma sociedade.

Na recente eleição brasileira, houve um intenso debate sobre direita e esquerda, liberais e socialistas. Por que os políticos com pensamento de livre mercado são demonizados, são vistos como ditadores?

Porque o mercado assusta mentalidades concentracionárias. O que é o mercado, afinal? É um espaço de livre troca, não apenas de produtos ou capitais – mas também de ideias. Por isso as ditaduras tendem a abolir o livre mercado. Porque elas sabem que, circulando ideias, isso representa um perigo para a manutenção do poder autocrático.

Como o senhor vê o Congresso brasileiro, representado por cerca de 30 partidos políticos?

Como um sintoma de arcaísmo. Já escrevi aplaudindo um texto de Sérgio Dávila onde ele defendia, com lucidez e coragem, o bipartidarismo. Basta olhar para as democracias mais avançadas do mundo e contar o número de partidos com representação parlamentar. Não encontra nenhum caso com 30 partidos.

Como o senhor encara o sistema de coalizão no presidencialismo, que geralmente une partidos tão diferentes ideologicamente?

Como um convite para o atavismo reformista e para a corrupção.

Como funciona em democracias mais maduras?

Em democracias maduras, há partidos que ganham eleições; que podem eventualmente fazer coligações com um ou dois parceiros menores de forma a constituir governo; e que no fim do mandato são julgados por isso. A tradição “gelatinosa” do Brasil é uma originalidade – e um desastre.

(…)

No mundo, a população depende tanto de programas de transferência de renda como ocorre aqui no Brasil?

Desconfio que não seja possível comparar a pobreza europeia à pobreza brasileira. Agora, o modelo de bem-estar social europeu, que emergiu depois da Segunda Guerra Mundial, está a atravessar uma crise de existência por vários motivos. A Europa não cresce como na segunda metade do século XX. A população está a envelhecer e os encargos sociais são enormes. Os governos foram alargando os benefícios sociais quase até ao delírio. São lições importantes para o Brasil. É necessário evitar extremos de pobreza e algumas conquistas sociais são preciosas. Mas o Estado não pode ser a “babysitter” dos seus cidadãos em todos os aspectos da existência.

(…)

O brasileiro foi às ruas em meados do ano passado manifestar contra os péssimos serviços públicos. O europeu tem mais hábito de protestar. Como o senhor vê essas manifestações?

Não há a mesma tradição de protestos. Muitos europeus ficaram espantados com as manifestações brasileiras, mas é óbvio que as manifestações fazem parte do DNA da democracia brasileira. De resto, é positivo que a classe média queira mais e melhor – na saúde, na luta contra a corrupção, no ensino. O que não é positivo é esperar essas melhorias do mesmo poder político que levou ao Brasil ao impasse em que se encontra agora.

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Muito timidamente, a Folha fala sobre a máquina petista de moer reputações.

Tenho falado quase sempre (vejam dois exemplos aqui e aqui) sobre a máquina de moer reputações montada a serviço do petismo, que opera na internet. Sem constrangimento algum de chafurdar na lama, esse aparato de mídia eletrônica é acionado sempre que se faz necessário atacar qualquer um que ouse se colocar como barreira aos interesses do partido – ainda que se trate de um ministro do STF, fazendo cumprir a Constituição Federal.

Os ataques contra o ministro Joaquim Barbosa, relator da ação penal 470, conhecida como “processo do mensalão”, não são novos. Há anos os – como os chamarei? – militantes virtuais da causa petista o tratam como uma escória. Por quê? Porque chamou de quadrilha a cúpula do PT, condenada na suprema corte brasileira por tomar de assalto o Estado e colocá-lo de joelhos, submetendo-o aos interesses espúrios de um projeto de poder.

Eles não aceitam isso. Pior: acham uma afronta daquele que deveria ser grato a Lula – e ao PT – por ter sido “o primeiro negro” a chegar ao STF. O mais recente ataque a Joaquim Barbosa, sempre usando um viés vergonhosamente preconceituoso, foi desferido pelo “Blog da Dilma”, autoproclamado o maior portal da presidente na internet. Abaixo a imagem lá publicada (e reproduzida, hoje, pela Folha):

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Transcrevo abaixo um trecho da matéria da Folha, que traz também as declarações dos responsáveis pelo “Blog da Dilma” sobre o caso. Aconselho todos a segurarem o vômito (os negritos são meus):

Um site que promove a presidente Dilma Rousseff na internet desde 2008 virou fonte de constrangimento para o Palácio do Planalto nos últimos dias, ao associar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, à imagem de um macaco.

A associação foi feita há uma semana pelo Blog da Dilma para ilustrar um artigo do ex-deputado federal pelo PT Luiz Eduardo Greenhalgh sobre o julgamento do mensalão. A ilustração era composta por um macaco sorridente em primeiro plano, Barbosa ao fundo e uma legenda: “Ainda vai Barbosinha? kkkkk”.

O episódio foi criticado nas redes sociais por pessoas que consideraram a associação racista com Barbosa, que é negro. Após cinco dias no ar, a imagem foi substituída por uma foto do próprio Greenhalgh e o site divulgou um texto intitulado “Racismo não”.

(…) O governo procurou ficar longe da confusão. “O único blog vinculado com a presidenta Dilma ou com a Presidência da República é o Blog do Planalto, administrado pela Secretaria de Imprensa da Secom”, disse o porta-voz da Presidência da República, Thomas Traumann.

(…) Criado em 2008, antes da eleição da presidente, o Blog da Dilma reproduz artigos e vídeos publicados antes em outros sites. Ele se intitula “o maior portal da Dilma Rousseff na internet”, tem perfil no Facebook, canal no YouTube e conta no Twitter para divulgar textos sempre elogiosos à presidente.

O funcionário público Daniel Bezerra, editor responsável do blog, disse que a substituição da foto foi uma medida tomada para “acabar logo com a polêmica”. “Não foi racismo. Utilizamos esse banner do macaquinho há muito tempo. É uma piada. Em Fortaleza, onde moro, macaco é sinônimo de alegria, afirmou à Folha. (…)

Notem que se está no melhor dos mundos para o Palácio do Planalto: há uma legião (como os demônios!) na internet operando as engrenagens da máquina de destroçar reputações alheias, mas ao PT basta dizer que o blog não é oficial. Entendo…

Ora, se não é oficial e não conta com o aval do governo, por que está no ar desde 2008 usando o nome e a imagem da presidente? O Planalto já questionou isso, para que ~terceiros~ não continuem associando Dilma a postagens tão abjetas? Claro que não! Afinal, como dito alhures, esse tipo de gente acaba ajudando o PT, ainda que de modo oblíquo.

O governo poderia, por exemplo, ter acionado a Secretaria de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, que, quero crer, poderia adotar alguma providência diante de tão vergonhoso episódio. Não o fez, claro. Eu, porém, tomei a liberdade de relatar o episódio na fan page que a Seppir mantém no Facebook (cliquem na imagem para ampliar):

Secretaria racial joaquim barbosa

“Ah, mas não vai dar em nada.” Pode ser que não dê. Mas a máquina de mentiras e destruição de reputações do petismo só será destruída de uma vez por todas se atos abjetos como este não forem tratados como “piada”. Aceitar a desculpa de que “em Fortaleza macaco é sinônimo de alegria” é condescender com a barbárie de quem esperava subserviência do primeiro negro a chegar no STF, apenas por ser ele um… negro!

Emergência democrática.

Outro dia, debatendo a eleição paulistana, usei a expressão “emergência democrática” pra justificar minha posição de preferir qualquer um, menos Celso Russomanno. A razão é simples: há momentos em que as preferências pessoais (político-ideológicas) devem forçosamente ficar em segundo plano, pois algo mais importante se propõe ao eleitor: salvaguardar os alicerces do sistema democrático.

Isso não é inédito – pelo contrário! A história da política mundial é a história de fazer, algumas vezes, escolhas de emergência; escolhas definidas pela conjuntura do momento. Revisitemos alguns exemplos:

1985: a eleição de Tancredo.

Naquela eleição, não cabia debater que candidato teria sido o melhor. Ou virar a cara teimosamente – como fez o PT -, negando-se a participar de qualquer coisa que não fosse uma escolha popular direta e soberana. Naquela eleição havia coisas mais urgentes a fazer; havia uma “emergência democrática” chamando: eleger o único candidato que representava um clarão de liberdade que conduziria o país para fora das trevas totalitárias. A escolha, muito antes de ser pró-Tancredo, era contra Maluf e o que ele representava. Podia-se não concordar com Tancredo, Sarney e demais políticos envolvidos no “acordão”. O que não se podia era, em sã consciência, deixar de votar nele.

2000: a eleição de Marta.

O segundo turno daquela eleição municipal, em São Paulo, foi entre Maluf e Marta. O candidato do PSDB e do governador Mário Covas (um jovem Geraldo Alckmin) ficara pelo caminho, ainda no 1º turno. Mais uma vez, não havia escolha a ser feita, pois só havia uma escolha possível: era imperativo derrotar Maluf. Covas entendeu, os tucanos entenderam, os paulistanos entenderam. Marta venceu e, desde o primeiro dia de mandato, sofreu oposição do mesmo PSDB que a ajudara na eleição. Tudo muito normal e lógico: passada a “emergência democrática”, as coisas voltaram ao normal.

2001: a eleição de Prodi (premiê italiano).

Naquele ano, Romano Prodi construiu a maior coligação partidária da história italiana e, ouso dizer, mundial. Dezenas de partidos (da esquerda mais radical e anti-globalização, aos egressos da Democracia Cristã) se uniram em torno da única urgência existente: derrotar Berlusconi. Políticos que não conseguiriam elencar nenhuma afinidade ideológica perceberam a “emergência democrática” e deixaram para depois as divergências: era imperativo deter o bufão italiano. E ele foi detido.

2006: a eleição pro Senado no Amapá.

Depois de anos ocupando uma vaga de senador pelo Amapá, José Sarney disputou novamente a eleição, pra prorrogar o mandato. Além dele, havia uma outra candidatura que rapidamente pareceu eleitoralmente viável e capaz de acabar com a “era Sarney” no Amapá. Eu não lembro de nenhuma proposta/promessa dela; eu não lembro do jingle; eu não lembro de nenhum ato de campanha (mesmo porque não fui a nenhum)… E eu não lembro dessas coisas porque nada disso interessava. O que interessava era a “emergência democrática”: havia que se derrotar Sarney. Pouco importava se era via candidatura do PSB, do PCdoB, do PT, do PCO, do PSTU… As questões político-ideológicas deveriam ficar para depois. Então, não se percebeu a urgência da situação e Sarney venceu…

Esses são só alguns exemplos que lembrei aqui, rapidamente. Sou um conservador, nunca escondi isso… E, como tal, entendo que os valores e as liberdades próprias do sistema democrático estão acima de qualquer preferência partidária ou ideológica. Eu não votaria jamais no desastre só pra derrotar um adversário político, pois não se deve recorrer aos mecanismos democráticos para violar a própria democracia.

Mas eu não faço política partidária… É lógico que quem a faz entende mais do assunto do que eu…

Mais um triste exemplo de ataque às liberdades, em nome do “equilíbrio do pleito”.

Ontem, o Supremo Tribunal Federal reconheceu oficialmente que o mensalão foi compra de votos, não caixa dois. Eu repito, porque o evento merece o devido registro histórico: a Suprema Corte brasileira disse com todas as letras que houve compra de votos no Congresso Nacional, meticulosamente organizada por um grupo político.

Também ontem, a 12ª Zona Eleitoral da Bahia, atendendo um pedido da coligação encabeçada pelo PT, decidiu que o candidato do DEM à Prefeitura de Salvador, ACM Neto, está proibido de mencionar o julgamento do mensalão.

O que temos é mais um triste exemplo de como os órgãos teoricamente encarregados de garantir os fundamentos democráticos, em nome dessa abstração denominada “equilíbrio do pleito”, solapam as bases do sistema de liberdades individuais. A justiça eleitoral da Bahia simplesmente determinou que fatos públicos e notórios, agora, inclusive, reconhecidos pela Suprema Corte, fossem EXCLUÍDOS dos programas eleitorais.

A idéia é evitar que se faça “exploração política” do julgamento, com o fim de “influenciar o eleitor”. Por quê? Sim, por quê?! A essência de todo processo político é influenciar o eleitor, inclusive mostrando a ele que o STF está condenando por corrupção políticos ligados ao governo do PT. Isso vai “influenciar”? Ótimo! Por que proteger políticos de fatos?! Que princípio democrático é esse, capaz de justificar a censura de informações verídicas (ou a justiça eleitoral baiana acha que o julgamento no STF é falso?), para não “desequilibrar o pleito”?

É ridículo! É abominável! O Brasil, não contente em flertar com o fascismo, deitou-se com ele na cama.

 

 

 

Que festa?

Vai se aproximando a Festa da Democracia™ e o meu desânimo diante do processo democrático brasileiro é cada vez maior. Há algo de muito errado num sistema que tolhe liberdades e garantias individuais à luz do dia, corroendo por dentro os alicerces da própria democracia.

escrevi várias vezes sobre minha descrença diante do sistema democrático brasileiro, cada vez mais contaminado por regras esdrúxulas. Os órgãos que foram criados pelos representantes do povo para garantir o exercício democrático, têm se dedicado a policiar o Twitter, a tirar do ar o Facebook, a suspender o YouTube… Ou algo importantíssimo me escapa, ou perdeu-se a noção do que seja, de fato, importante.

Por favor, não se enganem! A idéia aqui não é defender as redes sociais. Longe disso… Os exemplos acima servem apenas para ilustrar aquilo que considero o símbolo de uma mentalidade antidemocrática que, perigosamente, avança contra o sistema de liberdades individuais que deveria proteger.

Esse ranço contra as redes sociais – em particular – e a internet – em geral -, denota, a meu ver, a sede desmedida de provar a própria superioridade. É a geração que viu surgir a proibição dos muros pintados, dos chaveiros, dos broches, dos bonés e das camisetas. Agora, confrontados com o mundo libertário ao extremo do ambiente virtual, não aceitam ver sua autoridade ignorada.

Correndo o risco de me repetir, digo que acho assustador que o aparelho do Estado possa, em nome de coisas abstratas como o chamado “equilíbrio do pleito”, cercear garantias e liberdades individuais concretas. Em outras palavras, acho incompreensível que um burocrata diga como alguém deve pintar o muro de sua própria casa; ou como e quando pode adesivar seu carro; ou, ainda, com que roupa pode se apresentar na seção eleitoral.

Não há perífrases em tais casos: a máquina pública se organiza para limitar e tolher os indivíduos. Em benefício da democracia? Não! A democracia, aqui entendida em sua essência mais básica, só é exaltada quando o cidadão exerce de forma plena suas liberdades.

É deprimente o ponto a que se chegou no Brasil: no período das eleições, aquele em que deveríamos viver o máximo do processo democrático, experimentamos, inclusive, censura prévia. Ou, ainda, uma sorte de censura sazonal: assuntos que seriam livremente debatidos em fevereiro ou março, tornam-se proibidos durante a época eleitoral para não “influenciar eleitores” nem “desequilibrar o pleito”. Há algo de muito errado quando até mesmo fatos incrontroversos e com registro histórico tornam-se proibidos ao grande público, a fim de salvaguardar candidatos. Quem não lembra de 2010, quando dizer que Dilma já defendeu (e defendeu mesmo!) o aborto virou “propaganda negativa”?

A preocupação do Estado e de seus órgãos deixa, em alguns casos, de ser a garantia da liberdade individual, para ser o controle e o policiamento de tal liberdade; deixa de ser a defesa da verdade, para ser o “equilíbrio do pleito”. E daí se para equilibrá-lo é preciso esconder fatos e limitar a liberdade de expressão? Isso não parece preocupar boa parte das mentes envolvidas no processo, que se curvam a um pensamento, creio eu, ultrapassado.

De que outra forma definir a mente de quem, por conta de um (unzinho só!) texto publicado em um (unzinho só!) perfil do Facebook, ordena que todo o país (!) fique sem acessar aquela rede social? O aparelho judiciário do Estado, naquele caso, de forma deliberada, tolheu direitos de todos, a fim de punir um. E tudo isso se fez em nome da… Democracia!

De novo: não se trata de defender a internet ou o acesso a uma rede social! Se trata de valores e princípios. “Quem é fiel nas pequenas coisas, também é fiel nas grandes coisas; quem é injusto nas pequenas coisas, também é injusto nas grandes coisas”, se lê no evangelho de Lucas (16:10).

Quem subverte liberdades e garantias individuais está sendo tirano e antidemocrático, pouco importa o alvo da tirania. A questão de fundo é sempre a mesma: cada vez mais acha-se normal alijar o cidadão (o indivíduo) do processo democrático, limitando-o e diminuindo-o em sua individualidade, até o ponto de torná-lo um autômato ocupado apenas e tão-somente em sair de casa, apertar alguns botões e pronto.

Escolheu-se tratar como “festa” algo sério e importante como a democracia e, assim, acabou-se por desencadear um processo que, de forma lenta e gradual, vai abalando os alicerces do próprio sistema de liberdades individuais sobre o qual se erigiu o Ocidente. E, não! Eu não estou sendo exageradamente catastrofista. Basta ver como o autoproclamado sucesso do processo eleitoral brasileiro parece inebriar a todos: falam até mesmo em “ensinar democracia” para nações que… Bem… Poderiam dar aula de qualquer coisa ao Brasil.

Certa vez, ouvi de um “entendido no assunto” que enquanto o Brasil “dá show de eleição, os Estados Unidos ainda votam em papel”. A afirmação revela a ignorância gigantesca própria de quem mergulha no sucesso criado por si e para si mesmo. Não sei quais motivos levam os americanos, criadores de alguns dos produtos tecnológicos mais avançados do mundo, a não se inclinar perante a superioridade da urna eletrônica brasileira. Mas sei que lá, em pleno século XXI, o Estado não se acha no direito de dizer como uma pessoa deve se vestir para ir votar – e viria abaixo se ousasse dizer.

O Brasil da “Festa da Democracia” é o país preocupado em impedir que pessoas livres pintem os muros de suas casas; é o país que se acha no direito de ordenar que redes sociais sejam suspensas (como fazem a China, o Irã e a Venezuela, só para citar alguns exemplos gloriosos…); é o país que reeditou a censura prévia; é o país que inventou a censura sazonal. Desafio qualquer um a me apontar algum resquício de democracia em semelhante ambiente… O Brasil da “Festa da Democracia” é, enfim, uma espécie de Neymar: canta para si mesmo e para sua própria torcida suas glórias; jura que é o melhor de todos. E o mundo, tal como no futebol, olha de soslaio e sorri, divertido. São muito simpáticos esses brasileiros, se achando tão importantes.

Parabéns, Obama!

Pela primeira vez na história, um Presidente americano se declarou abertamente favorável ao reconhecimento do casamento gay. Vou repetir, porque (infelizmente…) parece que o mundo não notou a exata dimensão da coisa: o imperador supremo do mundo livre (sim, esqueçam o recalque antiamericano: os EUA são os garantidores do “mundo ocidental”) falou publicamente que uma importante parcela da população merece ter reconhecida a garantia civil de constituir uma família perante o Estado e a sociedade. Não se enganem: é uma grande conquista! Não para a “comunidade gay”, mas para qualquer um que defenda o sistema de liberdades individuais.

“Sim, mas se dizer favorável é uma coisa, promover a legalização é outra.”, falaram alguns aqui no Brasil. É verdade. Mas há que se ter em mente a particularidade da democracia americana, onde cabe a cada estado da federação decidir suas leia acerca disso (o casamento gay já é legalizado em vários, assim como segue propibido em outros tantos). É evidente, pois, que Obama não vai se meter a encrencar com os que forem contrários, afinal lá a autonomia dos estados-membros são realmente respeitadas.

A declaração de Obama foi cuidadosamente estudada do ponto de vista político-eleitoral, não tenho dúvida. Aliás, me surpreenderia se não fosse: tudo que um político diz é (ou deveria ser…) sempre cuidadosamente estudado previamente. Como Obama já provou ser um craque do marketing político, não tenho dúvidas de que ele vai tirar dividendos positivos dessa declaração. Vai desagradar os conservadores (principalmente os ligados às igrejas tradicionalistas e os do sul redneck), mas, se pararmos pra pensar bem, esse é um nicho onde ele já não entraria mesmo de qualquer forma. Muito mais inteligente, então, tentar agradar os mais liberais, que vinham, inclusive, demonstrando algum desencanto com ele. Ele não apenas “conquista novamente” o voto dos liberals, como garante que essa turma vá às ruas na hora da campanha. O eleitor mais importante é o da própria base, costuma-se dizer… Afinal, é ele que vai panfletar, bater de porta-em-porta, lotar os comícios. É ele que vai, enfim, ganhar outros votos.

Os moderados/independentes, via de regra, não tão nem aí pra isso. Decidem com base no bolso e na conjuntura do momento. É essa fatia que vai ser “convencida” pela propaganda, pelos debates, pela imprensa e… pelas militâncias!

“Mas e os republicanos desiludidos que poderiam votar nele?” Olha… Tem que ver direito isso aí. Ninguém duvida que há muitos republicanos aborrecidos e descrentes diante dos péssimos candidatos apresentados pelo GOP nestas primárias, mas daí a votar no Obama?! Acho bem mais plausível pensar que estariam dispostos a ficar em casa e não votar em ninguém… Se forem eleitores libertários, não vão se assustar com a fala do Obama, afinal não se opõem (em tese) ao casamento gay. Se forem conservadores, já não iam votar no Obama de qualquer jeito.

Em verdade, ouso dizer que ele arrisca roubar uns votos importantes da turma pró-Ron Paul, depois dessa. Sem falar na galerinha que é republicana e gay, né? Mais fácil essa turma votar no Obama, do que no Romney, que, um dia depois da declaração do Presidente, foi a público dizer que é contra as uniões homossexuais.

Aliás, ainda há quem duvide da reeleição do Obama? Com esses adversários, ele nem precisa fazer campanha… Vejam que Romney, um cara que já não é nenhuma simpatia em pessoa, teve a ~sacada genial~ de ir à TV pedir desculpas por ter praticado bullying contra um ex-colega só porque este era… gay! Notem o timming sensacional do cara, amigos!

Não bastasse os Republicanos falando de proibir os filmes pornôs (!) e colonizar a lua (!!), ainda me vem o principal candidato deles e, um dia depois do negão simpático dizer que era a favor do casamento gay, vai à TV e conta que agrediu um colega homossexual. Desse jeito Obama só precisa continuar cantando, pra ser reeleito…

Estudantes da USP têm chance histórica de derrubar seu próprio muro de Berlim.

De hoje até quinta-feira, os estudantes da USP irão às urnas para escolher a nova direção do DCE. Não pensem que exagero quando digo que se trata do evento político mais importante desta semana: os estudantes de uma das maiores e mais tradicionais universidades do Brasil têm a chance real de derrubar seu próprio muro de Berlim.

Como é costumeiro em universidades públicas brasileiras, o processo eleitoral na USP também é dominado pelos mais variados movimentos de esquerda e extrema-esquerda. Há chapa do PSOL, do PSTU, do PCO, do PT… E há a chapa Reação, única que não se encontra subordinada a nenhum – eu repito: nenhum! – aparelho partidário.

Os adversários, temendo aquilo que pode ser uma derrota histórica, acusam a Reação de ser “de direita”. Bobagem! Recorrem ao velho método de apontar o direitismo de todo aquele que não beija a cruz do esquerdismo mais rançoso e bolorento. Desprovidos de argumentos intelectuais básicos, partem para os ataques pessoais aos adversários.

Os integrantes da Reação são “apenas” estudantes. São jovens que trabalham e estudam. E, mais importante, têm orgulho disso! Gente que não tem tempo para brincar de revolução socialista com o dinheiro da mesada dos pais, porque precisa cuidar de ganhar a vida. Gente que vai à universidade com o fim último de ganhar e produzir conhecimento, a fim de contribuir para o desenvolvimento intelectual do país.

São jovens assim que, cansados de ficar reféns dos interesses político-eleitorais de um punhado de partidos ideologicamente atrasados, decidiu que era hora de… reagir!

Dos integrantes da Reação, conheço apenas o Flávio Morgenstern (e, ainda assim, só da internet). É um cara brilhante, de uma inteligência ímpar. Gostaria (mesmo!) de conhecer melhor os outros corajosos estudantes que tiveram a coragem de criar a Reação e enfrentar o monopólio esquerdista que ainda impera na USP. São pessoas valorosas e honradas, que merecem a admiração e a torcida de todas as pessoas de bem.

Não se enganem: não se trata de mais uma eleiçãozinha universitária. A USP viverá algo realmente histórico esta semana – e com ela toda a política brasileira. As pesquisas (todas!) apontam vitória da Reação, mas é preciso estar alerta… As máquinas partidárias que se alimentam desses jovens esquerdistas universitários não vai aceitar democraticamente uma eventual derrota. E a história está aí para mostrar que essa gente não mede esforços quando o assunto é solapar as liberdades, não é mesmo?

Espero apenas que cada estudante de verdade da USP vá votar e escolha com sabedoria. De um lado há uma chapa de estudantes, preocupada com os problemas reais da universidade. Do outro há grupelhos radicais querendo implantar o socialismo…

Chegou a hora da REAÇÃO!

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– Blog da chapa Reação: http://reacaousp.wordpress.com/

– Panfletos irônicos criados pela chapa pra zoar a campanha do medo comandada pelos grupos de extrema-esquerda: aqui, aqui e aqui.