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Artigo recomendado: Discurso de Bento XVI no parlamento alemão

Fiquei muito feliz ao ler ontem, lá na Reaçonaria, um texto de 2011 que, confesso, nem lembrava mais: um discurso feito pelo hoje Papa emérito, Bento XVI, no parlamento alemão. A profundidade intelectual de Ratzinger – não apenas nos temas afeitos à teologia – se revela, uma vez mais, de forma desconcertante. Transcrevo abaixo um pequeno trecho, exortando-os a ler a íntegra, lá na Reaçonaria.

Na base desta minha responsabilidade internacional, quero propor-vos algumas considerações sobre os fundamentos do Estado liberal de direito.

(…)

«Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de uma grande banda de salteadores?» – sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1). Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são um fútil espantalho. Experimentamos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu espezinhar o direito, de tal modo que o Estado se tornara o instrumento para a destruição do direito: tornara-se uma banda de salteadores muito bem organizada, que podia ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político. Num momento histórico em que o homem adquiriu um poder até agora impensável, esta tarefa torna-se particularmente urgente. O homem é capaz de destruir o mundo. Pode manipular-se a si mesmo. Pode, por assim dizer, criar seres humanos e excluir outros seres humanos de serem homens. Como reconhecemos o que é justo? Como podemos distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro direito e o direito apenas aparente? O pedido de Salomão permanece a questão decisiva perante a qual se encontram também hoje o homem político e a política.

O trono vacante

O então Santo Padre, Papa Bento XVI, decidiu renunciar ao trono de Pedro e encerrar seus dias como “apenas mais um peregrino em oração”. Deixou, assim, o posto de líder maior dos católicos, de Vigário de Cristo na Terra, para “subir o monte” e se encontrar com o Altíssimo.

Sim, essas colocações soam estranhas para os que não professam a fé católica. Para estes, o Papa é apenas uma figura sem importância religiosa – no máximo aceito como chefe-de-Estado. Para os católicos (e neles me incluo), porém, se trata de um líder espiritual. Ou ao menos deveria ser assim…

O agora Papa Emérito Bento XVI renunciou e logo imprensa e opinião pública partiram para aquilo que mais gostam – e que mais vende jornais: as teorias da conspiração. Foram as pressões externas; foram as pressões internas; foi a corrupção; foi o colapso da fé cristã; foram os escândalos; foi obra de seitas infiltradas… E eis que num repente todos falavam dessa tão “desimportante e ultrapassada” instituição chamada Igreja Católica.

“Mas por que ele renunciou, afinal?” Ah, não tenho a menor idéia. Mas vou além: não tenho a audácia de tentar adivinhar o que se passa na cabeça, no coração e na alma do sucessor de Pedro. E aqui repousa um importante reflexo da fé: a mim basta saber que a escolha dele foi a melhor escolha. Não cabe a mim julgar. Ou melhor, quem sou eu para julgar? Não me atrevo… Meu coração está em paz.

Dito isso, é impossível negar que onde há seres humanos, há relações políticas. É evidente que a Santa Sé e a Cúria Romana têm problemas sérios e disputas profundas, e que essas coisas influenciaram tanto a rotina do então Papa Bento XVI, como influenciarão o conclave que hoje se iniciou. O que não me impede de acreditar – e isso é próprio da minha fé! – que a escolha dos cardeais será guiada, primordialmente, pelos interesses cristãos. Se não acreditar nisso, qual o ponto de seguir fiel?

Aliás, por falar na escolha dos cardeais, não faltam hoje “preferidos” na imprensa. Todo país tem os seus (no mais das vezes o cardeal que de lá é originário). Eu? De novo me recolho à minha pequenez e não ouso ter um “favorito”. Tenho lá meus palpites, mas não me atrevo a dizer que esse ou aquele cardeal seriam melhores escolhas. Como poderia?! A mim cabe aceitar e respeitar o eleito, sabendo que ele carrega sobre os ombros o peso de uma missão que não é nada simples.

O principal, porém, é saber que a escolha feita no Vaticano não será orientada pela vontade dos sommeliers de conclave que surgiram nas últimas semanas, muitos dos quais apresentando todas as soluções para aqueles que eles acreditam ser os problemas da igreja. E lá vão os clichês sendo levados para passear: “É hora de um Papa negro!”; “É hora de um Papa progressista!”; “Chegou o momento de um Papa capaz de fazer reformas.” Em breve veremos alguém na Globo pedindo por um “Papa ateu”… Todos esses sábios conhecem os segredos para salvar a Santa Madre, que, segundo eles, caminhará para a extinção, caso suas idéias não sejam aceitas.

Nenhuma novidade… É assim há milênios e a igreja católica segue aí, existindo. Aliás, se mutios dos “especialistas” fossem ouvidos, ouso dizer que ela caminharia mais rapidamente para o seu fim. Eles não querem uma igreja melhor, mas uma igreja que empunhe suas bandeiras militantes. Eu passo! Prefiro uma igreja que continue preocupada mais com a defesa de seus valores, do que em agradar a militância moderna.

A igreja não está no mundo para ser popular ou simpática aos olhos do consenso de momento. Está para defender a verdade que lhe foi revelada, da qual é portadora. E, sim: isso só faz sentido para quem nela acredita e decide professar a fé católica. Assim sendo, por que dar ouvidos a quem com ela não se importa, e que não lamentaria nada caso ela amanhã deixasse de existir?