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No rumo errado

Segundo pesquisa do instituto Ipsos, quase seis em cada dez brasileiros acham que o país está no rumo errado. Esse tipo de pesquisa costuma medir genericamente o sentimento geral e o humor dos cidadãos entrevistados e, sempre que aponta uma curva crescente de pessimismo, os governos da vez costumam ligar o sinal de alerta.

Já comentei aqui que pesquisas de intenção de voto a essa altura não são (ou não deveriam ser) determinantes. O essencial é conseguir ler o eleitorado para prever aquilo que ele vai querer no ano eleitoral – e conseguir, dessa forma, entregar um “produto” que tenha apelo.

Pois bem, que o sentimento do brasileiro médio com relação ao governo do PT não é mais aquele de outrora, todos já percebemos. Há espaço para apresentar um discurso de mudança sem soar como sabotador daquilo que o cidadão comum considera como “conquistas sociais” da gestão petista. Contudo, é indispensável que se consiga articular um discurso capaz de, primeiro, captar a atenção do eleitor e, segundo, ganhar-lhe o coração.

As balizas para que se possa colocar na TV uma proposta de país diferente da do PT estão aí, aos olhos de todos: economia saindo dos trilhos, pessimismo quanto ao futuro, ausência de um ícone personalista, além do desgaste natural decorrente de uma década no poder. Mas não se ganha eleição por gravidade, esperando em berço esplêndido que os eleitores insatisfeitos fluam para um candidato de oposição: é preciso saber passar a mensagem certa.

Saberá a oposição fazer isso, ou estará até as vésperas do pleito mais ocupada em disputar o comando interno de um partido, do que o comando da nação?

E agora, José?

Aliados de José Serra dizem que o ex-governador esperava as primeiras pesquisas com seu nome entre os presidenciáveis para se decidir se sairá ou não do PSDB para concorrer em 2014. A pesquisa Datafolha ofereceu mais dúvidas que respostas. Na sondagem, dois fatores nos quais Serra apostava não se verificaram: o recall por ter disputado duas eleições presidenciais e uma vantagem sobre Aécio Neves que lhe desse algum discurso para disputar internamente a candidatura.

Outro fator importante que incentiva Serra a disputar a terceira candidatura presidencial é ser visto como alternativa a Dilma Rousseff na gestão econômica. Mas isso também não se confirmou no Datafolha. Só 11% dos entrevistados apontam o tucano nesse quesito. Dilma tem 12%.

Pesquisas internas que o marqueteiro João Santana mostrou a Dilma já indicavam uma recuperação de 8 pontos na aprovação ao governo (foram 6 no Datafolha), que teria subido ao patamar de 30%. A equipe próxima à presidente comemorou os resultados.

A pesquisa de intenções de voto confirmou dado que já aparecera na de avaliação de Dilma: persiste seu desgaste nas metrópoles com mais de 500 mil eleitores. Nessas cidades, que concentraram os protestos de junho, Marina Silva lidera ou empata com Dilma, a depender do cenário.

Outro dado que chamou a atenção de petistas foi a baixa adesão a Dilma na pesquisa espontânea. Ela manteve os 16% de intenção de voto quando o eleitor é questionado sem ter uma lista prévia. A presidente chegou a pontuar 35% na espontânea, no auge de sua popularidade, em março.

Fonte: Painel, da Folha de São Paulo.

Ok, essa leitura que, segundo a jornalista Vera Magalhães, Serra fez da pesquisa Datafolha é a mesma que qualquer um que olhasse os números com alguma boa vontade faria. De fato, o tão falado recall de Serra está espantosamente (para ele) baixo – mais baixo até que o de Marina, que em 2010 ficou atrás do tucano e, diferente dele, não disputou uma eleição em 2012. Além disso, a vantagem que Serra naturalmente consegue sobre Aécio Neves é de praticamente uma margem de erro. Se os números mostram que que o mineiro ainda não decolou, também mostram que Serra dificilmente tem argumentos fortes para se impor como alternativa dentro do ninho tucano (falei um pouco sobre isso aqui, já).

Os números do Datafolha, que mostram ter parado, por enquanto, a desidratação de Dilma, também indicam que a presidente é, sim, uma adversário possível de ser enfrentada e batida. Basta querer olhar os números tendo como horizonte derrotar o PT, não travar uma batalha fratricida (mais uma…).

Apenas 12% aprovam Dilma para conduzir a economia; nas grandes cidades, a presidente perde para Aécio em MG e para Marina no RJ; no geral, só 16% citam a petista na pesquisa espontânea. As bases para levar o eleitor a escolher uma via de mudança estão aí, ao alcance dos olhos. O cenário atual coloca Marina como a candidata até aqui capaz de capitalizar esse sentimento, coisa que, pessoalmente, considero terrível. Marina é um PT pintado de verdade, que não me desperta a menor confiança.

Cabe ao PSDB, se pretende mesmo apear o PT do poder, saber se organizar e definir suas prioridades. Enquanto o foco forem as disputas internas de espaço e poder, ficará difícil organizar uma linha de ação e de discurso capaz de chegar ao eleitor médio (aquele que, como já repeti várias vezes aqui, vê novela, BBB e, no domingo da eleição, enche as urnas). Espaço para construir uma candidatura competitiva há. Mas é preciso não apenas entender que não se pode continuar esticando a corda internamente, à espera de mais uma pesquisa. E mais outra… E outra… E depois outra… Quantas pesquisas serão necessárias para que se entenda, de uma vez, aquilo que já ficou claro depois de tantas derrotas para o PT?