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Monteiro Lobato

Não é sem alguma surpresa que leio sobre uma audiência pública(!), feita pelo STF (!!), para debater a existência de conteúdo racista na obra de Monteiro Lobato (!!!). Eu repito: a Suprema Corte nacional decidiu reunir algumas ~~entidades da sociedade civil~~ (o que quer que signifique isso…) para discutir o conteúdo de uma obra literária. O Brasil só não é mais patético por falta de espaço

Pessoas de bem, preocupadas em combater o racismo, exterminam a obra ímpia de Monteiro Lobato.

O absurdo envolvendo essa iniciativa é tão gritante, que as teratológicas interpretações dadas aos escritos de Lobato chegam mesmo a ficar em segundo plano. O simples fato de aceitarem discutir o assunto em uma audiência pública já é assustador por demais. No meu mundo ideal, o STF aplicaria uma descompostura pública nos envolvidos, diria que há questões jurídicas importantes a serem analisadas e recomendaria os livros de Lobato a todos.

Mas não pensem que os responsáveis por essa estrovenga querem censurar Lobato. Que nada! O que pedem é que os livros dele não sejam adotados nas escolas. Ou, no caso de serem adotados, que isso ocorra sob supervisão, depois de treinamento específico aos professores. Só isso!

Acham que a obra de Lobato “incentiva o bullying” e sugerem que os professores “não estão habilitados a contextualizar os livros de modo a esclarecer o momento histórico em que foram escritos”. A solução? Tirem os livros! Brilhante como só o glorioso Estado brasileiro poderia ser…

Imagino que os próximos pontos da pauta serão: a) banir “Romeu e Julieta”, pois pode incentivar as crianças a desobedecerem os pais e – pasmem! – a cometer suicídio; b) processar e punir Vinícius de Moraes pela música “Garota de Ipanema”, por subliminarmente incentivar a pedofilia.

O Brasil, um dos países menos cultos do mundo dito civilizado, em vez de incentivar seus jovens a enfiar a cara nos livros e debater, inclusive, as impressões e interpretações que decorrem da leitura, prefere reunir suas mentes mais iluminadas para debater se livros devem ser lidos.

O ridículo deste país não conhece limites…

Órfão de livros.

Eu não lembro bem com que idade peguei de vez o gosto pela leitura, mas lembro bem qual foi o livro que me arrebatou então: Se houver amanhã, de Sidney Sheldon. Li aquele “tijolo” em uma semana. E daí não parei mais.

Já li alguns dos chamados clássicos. Ainda bem menos do que eu gostaria deveria. By the way, o número ideal de clássicos que uma pessoa deve ler é n+1, onde “n” é o total de livros clássicos já lido pelo sujeito.

Li também livros “menos importantes”, mas igualmente muito importantes… Aprendi que O senhor dos anéis é o Pelé da literatura de fantasia, e que os demais só podem brigar pelo segundo lugar. Descobri que depois de ler Orgulho e preconceito, de Jane Austen, nenhuma outra história de romance parece boa o bastante.

Fui atormentado pela dúvida sobre a suposta traição de Capitu, em Dom Casmurro, na primeira vez em que li essa magistral obra de Machado de Assis. E tive a certeza daquela traição ao reler o mesmo livro, anos depois. Que outra interpretação poderá me ocorrer quando o (re)reler uma outra vez?

Depois, ao ler Memórias póstumas de Brás Cubas, fui surpreendido ao descobrir que a obra prima de Machado não tinha sido a narração da tragédia de Bentinho. Por incrível que pudesse parecer, ele ainda tinha como melhorar. Que gênio!

Li O brejal dos Guajas e Saraminda, para poder criticar com autoridade o “Sarney enquanto escritor”. E pude confirmar que ele escreve pior que Bruna Surfistinha – que, por sua vez, é uma puta escritora!

Também passaram pelas minhas mãos Estorvo e Budapeste, do intocável Chico Buarque. E devo dizer que ele, como escritor, é um ótimo letrista… O começo daquele segundo livro é emblemático: “Fui dar em Budapeste…” FOI DAR AONDE?! Perdoem minha ortodoxia, mas nenhum escritor decente pode cometer tamanha cacofonia (ou terá sido um ato-falho? #HOMOFOBIANAO!).

Descobri que Graciliano Ramos é meu prosador preferido bem depois de saber que ele foi um um dedicado comunista. Eis aí a prova de que não me deixo nortear por preferências ideológicas. Angústia é um verdadeiro tratado sobre a psiqué humana que não pode passar desapercebido pelas mãos de nenhum leitor.

Aprendi que Sartre não é lá tudo isso que dizem… Não chega aos pés de um Albert Camus, por exemplo. Aliás, quanta gente overrated nesse mundo da literatura, não? José Saramago acima de qualquer outro: alguém com a – me permitam o neologismo – “pontuaçãofobia” que esse sujeito tinha deveria ser proibido de ganhar um Nobel! Leiam Ensaio sobre a cegueira. Depois vejam o filme Blind, inspirado no livro. Este é melhor que aquele. Muito melhor! Um filme melhor que o livro do qual foi originado?! I rest my case. “Mas é um estilo novo! De vanguarda!” É… Dizem isso sobre a tal banda Restart também…

Li O apanhador no campo de centeio e descobri que rebeldia adolescente não existe. É tudo uma invenção dos vários pedagogos, psicólogos e estudiosos modernos, ávidos por passar a mão na cabeça de moleques irresponsáveis e levados. Não foi essa a “mensagem” que você tirou do livro? Leia de novo! Estou com J.D. Salinger até o fim: quem escolhe fazer besteira deve assumir a responsabilidade por ela, tenha a idade que tenha.

Não posso evitar o clichê de dizer que aprendi língua portuguesa com Camões. Descobri ainda que a poesia brasileira é pobre, e seus grandes nomes se resumem a um punhado de escritores. Álvares de Azevedo, Castro Alves, Drummond, Mário Faustino… Esqueci alguns, com certeza. Mas poucos

Gastei um tempo importante lendo Marx só para descobrir que ele plagiou Hegel. Em nenhum momento a história do capitalismo que traz em si mesmo o germe de sua própria destruição me soou verdadeira, porque li também alguma coisa da Escola Austríaca. A maneira como os velhotes do norte destroçam os postulados socialistas/comunistas sem nenhuma piedade chega a ser bullying com o coitado do Marx…

Li bem menos do que deveria sobre Santo Tomás de Aquino, mas o suficiente para perceber que ciência e religião não são – nem devem ser – concorrentes (ou excludentes), coisa que ele percebeu há séculos atrás.

Descobri meu conservadorismo ao ler Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Descobri meu liberalismo ao ler As seis lições, de Mises. E aprendi com Ortega y Gasset, antes mesmo de ter uma carteira de habilitação, que “não haveria totalitarismos não fossem as massas e suas rebeliões”.

Li Crime e castigo, o tipo do livro que obriga o leitor a amadurecer. Se não vai por bem, vai por mal, porque ninguém continua “criança” depois de ler – e entender! – aquilo.

Lendo descobri que na Alemanha nazista os homossexuais eram mandados para campos de trabalhos forçados, e isso me fez concluir que Hitler não era uma boa pessoa. Depois fiquei sabendo que na Cuba pós-revolucionária acontecia o mesmo, razão por que o “mito” Che Guevara também não me pareceu nada simpático.

Soube que Luther King Jr. só via duas alternativas para uma mulher: esposa ou prostituta. Também descobri – não sem alguma surpresa – que Ghandi apoiava a submissão das mulheres frente aos homens. Isso ajudou-me a entender que não há ídolos perfeitos, pois todo homem é formado também por grandes defeitos.

Li Mussolini conclamando o povo a “estabelecer metas e, com dedicação, compromisso e afinco, lutar para atingi-las”. E aprendi que nem toda boa citação nasce de um bom sujeito.

Enfim… Li um bocadinho já. Um tanto que sem dúvida está bem acima da média nacional brasileira – que é vergonhosa e não serve de parâmetro, diga-se. Mas bem menos do que deveria. Aliás, todos sempre lemos menos do que deveríamos!

Só que estou órfão de livros. Nestes tempos sombrios em que proliferam os vários Gabrieis Chalitas, Fábios de Melos e Paulos Coelhos, é cada vez mais difícil encontrar algo decente para ler.

Inconscientemente, já reli todos os meus livros bons. Mais de uma vez! E quando decido procurar coisas novas, me deparo com essa auto-ajuda-de-resultado que tomou de assalto as livrarias do país, rebaixando ainda mais o nível literário.

E eu nem peço livros novos de qualidade. Bastaria poder encontrar os clássicos nas livrarias, mas não sobra nenhum espaço entre os milhares de Chalitas e Crepúsculos…

Quero livros novos para poder ler! E depois reler, quando forem “livros velhos”

É pedir muito?

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P.S.: Os livros que citei não são todos os que li. Nem necessariamente os preferidos. São só alguns dos que lembrei na hora. Também não estou sugerindo que todos devam ler e gostar dos livros citados. Não há mensagens subliminares aqui, meus caros. Há só texto mesmo, nada além.

Dica de leitura: Guia politicamente incorreto da história do Brasil, de Leandro Narloch.

Você é um desses típicos brasileiros orgulhosos dos grandes feitos desta pátria-amada-idolatrada-salve-salve? Gosta de se gabar pelo sucesso dos “símbolos nacionais”, tais como o carnaval e a feijoada? Bate no peito com orgulho sempre que fala em Santos Dumont, o “inventor do avião”? Então, caro amigo, você está fazendo papel de bobo!

No magistral Guia politicamente incorreto da história do Brasil, Leandro Narloch abate sem nenhuma pena cada um dos mitos em torno dos quais se erigiu a suposta grandiosidade brasileira. Não apenas abate, como também os esquarteja e expõe aos olhos do leitor.

Através de uma leitura dinâmica e arrebatadora, o leitor é forçado a encarar os fatos:

1) Zumbi não foi um herói libertador coisíssima nenhuma! Na verdade, não passava de um escravocrata de pele negra, que roubava os negros das fazenas tradicionais e os aprisionava em Palmares.

2) A feijoada não foi uma invenção dos negros trazidos ao Brasil durante a escravidão. O conceito do prato foi importado de fora – na Franca, por exemplo, o famoso cassoulet já fazia sucesso bem antes que o primeiro português colocasse os pés aqui.

3) Santos Dumont “pai da aviação”?! Na boa, basta um pouco de lógica pra desmistificar isso: experimentem dar uma boa olhada no 14 bis e digam se aquela baguaça parece – ainda que remotamente – com um avião moderno. Já os modelos criados pelos irmãos Wright não apenas voaram de verdade (coisa que o avião-pulinhos-de-galinha do brasileiro nunca vez…), como serviram de referência para a indústria aeronáutica até os dias atuais.

4) E quem considera o carnaval um ícone da cultura brasileira? Pobres diabos ignorantes… A idéia de carnaval em si também foi importada do estrangeiro. Mais que isso: a prática de fazer desfiles organizados, onde agremiações competem entre si por meio de notas dadas por jurados, também é originária de outro país. Qual? A Itália de Mussolini. Sim, o Brasil copiou a idéia essencial da sua festa mais popular do… fascismo!

5) Os europeus, capitalistas ganaciosos e exploradores, desgraçaram o continente africano durante a colonização, criando o tráfico negreiro que abastecia a escravidão. Bom, essa assertiva também é falsa! Narloch nos mostra que, quando chegaram na África, os europeus já encontraram um comércio escravagista pronto e em pleno funcionamento. “Mas como? Negros escravizando e explorando negros?!” Pois é… A lenda do homem branco malvado que subjuga o negro essencialmente bom acaba de ir pro vinagre…

Esses são apenas alguns exemplos das “verdades inconvenientes” que somos chamados a encarar no livro de Narloch, um best seller de grandíssima qualidade e que deve – ele sim! – orgulhar os brasileiros.

Guia politicamente incorreto da história do Brasil deveria ser leitura obrigatória para todos os estudantes ainda no ensino fundamental, com o fim de combater a doutrinação ideológica. Mas é evidente que nenhum professor “engajado, progressista e formador de cidadãos” terá coragem de recomendá-lo aos seus alunos. Aliás, aposto que nos mais prestigiados bunkers da intelectualidade tupiniquim (USP, UNB, et caterva.) o livro de Narloch já deve estar sendo tratado como uma cartilha fascista. E os progressistas devem estar naquela vibe do pegaessaporraequeima

Bom! Isso, a meu ver, só depõe ainda mais a favor do livro. Já vi muita gente criticando a obra de Narloch, mas nunca encontrei ninguém que pudesse apontar um único fato concreto passível de correção. Guia politicamente incorreto da história do Brasil pode ser muito questionado do ponto de vista ideológico, mas o retrato verdadeiro que ele faz da história brasileira não merece nenhum reparo.

Enfim, é impossível você não ler o livro e se sentir, imediatamente, mais inteligente. A menos que você seja uma dessas pessoas doutrinadas na “Escolinha Política Sader & Chaui”… Em tal caso, largue o livro de lado e vá decorar as cartilhas do PT, que o vestibular da FFLCH já tá chegando!

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P.S.1: ESTE NÃO FOI UM POST PATROCINADO! Mas se o Leandro Narloch ler e gostar, eu aceito uma cópia autografada do livro…

P.S.2: Maiores detalhes sobre o livro podem ser vistos no site oficial.

P.S.3: Pra quem tem Twitter, fica a dica de seguir o perfil do autor do livro: @lnarloch

P.S.4: Esta humilde resenha fica sendo minha homenagem ao Lenadro Narloch pelo seu aniversário, comemorado hoje, 7 de junho. Parabéns, mestre!

Dica de leitura: Criança 44, de Tom Rob Smith.

Ontem terminei de ler Criança 44, um livro muito bom de Tom Rob Smith. Reproduzo a sinopse, escrita na orelha da capa:

Quando o medo silencia uma nação, alguém precisa falar a verdade.

União Soviética. 1953. A mão de ferro de Stalin nunca esteve tão impiedosa, reforçada pela Segurança do Estado – polícia secreta cuja brutalidade não é segredo para ninguém. Em seu governo, o líder soviético faz o povo acreditar que o país está livre de crimes.
Mas quando o corpo de um menino é encontrado nos trilhos de uma ferrovia, Liev Demidov – herói de guerra e agente do Estado – se surpreende ao saber que a família da vítima está convencida de que a criança fora assassinada. Os superiores do oficial ordenam que ignore a suspeita, e ele é obrigado a obedecer. Mas o agente desconfia de que há algo muito estranho por trás do caso.
De uma hora para outra, Liev coloca em dúvida sua confiança nas ações e políticas do Partido. E agora, arriscando tudo, o agente se vê na obrigação de ir atrás do terrível assassino – mesmo sabendo que está prestes a se tornar um inimigo do Estado.

O livro é verdadeiramente fascinante, muito mais pela precisão com que narra aspectos históricos próprios do regime assassino comandado por Stalin, do que pela qualidade do thriller inserido em tal contexto. De fato, percebe-se com facilidade alguns “pontos soltos” na trama de ficção em torno da qual o agente Liev desenvolve seu personagem, mas esses detalhes são relegados ao segundo plano a partir do momento em que o leitor mergulha nos pormenores da União Soviética. Smith nos captura para dentro de sua trama com a mesma violência com que a polícia stalinista capturava qualquer um que não fosse considerado um “bom soviético”.

Posso dizer muito pouco do livro sem correr o risco de estragar a surpresa daqueles que ainda não o leram. A personagem principal, Liev, retrata o tradicional soldado soviético à perfeição: o idealista que acredita no Estado, no regime e na revolução; sempre disposto a cumprir todas as ordens que lhe forem dadas sem questionar. Liev não se importava em prender, perseguir, torturar e matar, afinal todas as suas vítimas eram inimigos do sistema e da revolução. Era preciso ser duro com esses párias, afinal eram uma ameaça ao Estado soviético e à sua credibilidade.

É movido pela fé inabalável nesse Estado que Liev se descobre “convencendo” um subordinado de que a morte de seu pequeno filho fora um acidente, não um delito. Pouco importam os rumores em torno do acontecido – dando conta, por exemplo, de que o menino fora encontrado nu e com o abdôme dilacerado – pois a palavra do Estado era a lei: em uma sociedade igualitária e fraterna como a soviética, não poderiam existir crimes bárbaros como aquele.

As certezas de Liev, porém, começam a desaparecer quando sua própria vida se torna alvo do aparelho de repressão soviético, uma máquina muito eficiente quando se tratava de causar terror, dor e morte. Os questionamentos do cidadão Liev só aumentam quando o investigador Liev é confrontado com outros dois corpos de crianças encontrados nas mesmas condições daquele do filho de seu subordinado. Haveria, então, um assassino à solta? Na União Soviética? Onde todos eram “iguais”? Mas e se tal igualdade, na verdade, não passasse de ilusão?

O que o livro tem de melhor é a capacidade fria e direta com que retrata a sociedade soviética subjugada por Stalin. A violência e o terror a que eram submetidos os cidadãos – homens, mulheres e crianças – é assustadora e torna impossível qualquer defesa do regime assassino. O primeiro capítulo, retratando a fome pavorosa que o governo infligiu aos moradores das fazendas coletivas é de provocar náuseas.

Para encerrar, e deixar vocês com água na boa, transcrevo abaixo algumas passagens marcantes do livro:

“As turmas tinham muitos alunos e teriam mais ainda não fosse a baixa que a guerra causara nos índices demográficos. Senão, ela conseguiria lembrar o nome de cada aluno para mostrar que se interessava por cada um, individualmente. Mas sua memória para nomes esbarrou numa inquietação peculiar: a impressão de que isso trazia uma ameaça implícita.

Se decoro seu nome, posso denunciar você.

Aquelas crianças já haviam percebido o valor do anonimato e Raissa notou que preferiam receber o mínimo de atenção pessoal. Em menos de dois meses, parou de chamá-los pelo nome e passou a apenas apontá-las.”

“- Tenho certeza de que acabarei dizendo o que você quer, mas por enquanto digo o seguinte: eu, Anatoli Tarassovich Brósdski, sou veterinário. Daqui a pouco seus arquivos vão dizer que sou espião. Você vai ter minha assinatura e minha confissão. Vai me obrigar a dar nomes de pessoas. Haverá mais prisões, mais assinaturas e mais confissões. Mas, o que quer que eu acabe dizendo a você, será mentira porque sou um veterinário.

– Não é o primeiro culpado a afirmar que é inocente.

– Você acredita mesmo que sou espião?

– Só por essa conversa, posso acusar você de subversão. Já deixou bem claro que detesta este país.

– Não detesto. Você é que detesta. Detesta o povo deste país. Senão, por que prenderia tantas pessoas?

Liev ficou impaciente.

– Sabe o que vai acontecer se você não falar?

– Até as crianças sabem o que acontece aqui dentro.

– Mas continua se recusando a confessar?

– Não vou facilitar isso para você. Se quer que eu diga que sou espião, terá de me torturar.

– Esperava não precisar disso.

– Acha que pode continuar um homem de bem? Vá pegar suas facas. Pegue o seu jogo de ferramentas. Quando estiver com as mãos cheias do meu sangue, vamos ver se você é justo.

– Só preciso de uma lista de nomes.

– Nada resiste a um fato. Por isso você tem tanto ódio aos fatos. Eles irritam. Por isso posso lhe irritar ao dizer simplesmente que eu, Anatoli Tarassovich Bródski, sou veterinário. Minha inocência lhe irrita porque você quer que eu seja culpado. Quer isso porque me prendeu.”