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Frustrado

Meu filho está numa fase em que não consegue ficar quieto mais de dois minutos. Pula pela casa toda, escala todo e qualquer objeto – e toda e qualquer pessoa. Não mais anda: apenas corre.

O que desencadeou isso foi a paixão dele pelo Buzz Lightyear, do desenho Toy Story. Ele imita tudo que o personagem faz, desde o laser que sai ameaçadoramente do braço, até o desejo de voar (!!!) pela casa. E tome menino gritando “Ao infinito e além!” e pulando so sofá, da cama, das cadeiras… E – claro! – alternando pousos perfeitos com as inevitáveis quedas. Muitas quedas…

E lá vamos nós, pais desesperados, correr pra geladeira em busca daqueles mágicos cubos de gelo, a fim de amenizar a dor das pancadas e evitar o sugimento dos famosos galos. E aproveitamos aqueles poucos momentos de quietude para elencar as clássicas razões pelas quais ele deveria “ficar mais comportado”, “parar de pular das coisas” e “ser mais quietinho”. Evidente que trinta segundos depois de iniciado o sermão ele já se revira todo, tentando fugir do colo paterno e louco pra “voar de novo”. E não adianta argumentar logicamente, claro:

– Meu filho, você não é o Buzz. Você é um menino.

– EU SOU BUZZ LAITITO [Sim, o inglês dele ainda é precário…] E POSSO VOAR POR ESTE QUARTO TODO!

Acreditem: é bem complicado trazer à razão uma criança que quer voar

O jeito é ficar repetindo o tempo todo pra ele ter cuidado, não subir mais aí, descer já de lá… Tudo isso com aquela sensação de que nada vai adiantar, afinal ele é um “patrulheiro espacial”. Maldita Pixar!

Até que, na hora de descer do carro, ele fala: “Me segura, papai. Eu quero voar!” Então eu vislumbro a oportunidade de atuar como pai, me encho de razão adulta e digo: “Não, meu filho. Você não pode voar. Você vem aqui no colo do papai, como um menino. Você não é o Buzz!”

E ele fecha os olhos, entristece o semblante e se deixa pegar, vencido.

– Você tá triste, meu bem? – Eu pergunto.

– Não. frustrado.

Sim, ele disse mesmo isso! Com três (TRÊS!) anos recém completados – idade em que ainda lhe é permitido ignorar a lógica de coisas aborrecidas como a Lei da Gravidade -, ele estava lá, “frustrado” porque eu não deixei ele voar.

E você se descobre subitamente confuso: serei um pai atento e cuidadoso, por evitar que ele se coloque em perigo? Ou um adulto sem coração, que proíbe um menino de voar?

Ficamos combinados assim, então: pular e “voar” pro colo do papai, pode. Melhor flexibilizar um pouco essas regras, do que ter em casa uma pessoínha de três anos lidando com os fantasmas da frustração…

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P.S.1: Esse negócio de ser pai não é fácil!

P.S.2: Ninguém disse que seria fácil…

P.S.3: Onde raios ele aprendeu a palavra “frustrado”? E, o que é mais intrigante: onde aprendeu o significado dela?!

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Operação “hora de dormir”.

– Lucas! Hora do banho, meu filho.

– Qué vê Go-Go. [o desenho “Go, Diego. Go!”, do Nick Jr.]

– Não. Tá tarde, já. Banho e dormir.

– QUÉ VÊ GO-GO!

– Se você for logo pro banho, bonzinho, papai deixa você ver um pouco antes de dormir.

– Num qué banho.

– Não importa. Tem que tomar banho. E se não for bonzinho, não tem Go-Go.

– NUM QUÉ BANHO!

– Quer ficar de castigo?

– Não.

– Quer uma palmada?

– Babém não.

– Então vai logo pro banho!

[10 minutos depois…]

– Meu filho! Hora de sair do banho, anda.

– Num qué.

– Mas tá tarde, e você tem que dormir.

– NUM QUÉ!

– Anda logo, Lucas! Quer ver Go-Go ainda? Tem que sair A-GO-RA!

[20 minutos depois…]

– Vamos pra cama, meu filho? Tá bom de desenho, já.

– Mais um pôco.

– Não! Chega! Já tá muito tarde.

– QUÉ MAIS GO-GO!

– SÓ QUE NÃO TEM MAIS GO-GO! E SE DER TRABALHO VAI FICAR DE CASTIGO, SEM VER DESENHO!

– Qué a mamãe…

– Vamos pra cama que a mamãe vai lá também, te colocar pra dormir.

– Num qué dormi.

– Mas tem que dormir.

– NÃO!

– SIM! Tem que dormir porque amanhã tem escola.

– NUM QUÉ ESCOLA!

– VA-MOS, LU-CAS!!!

[15 minutos, uma historinha e umas três músicas depois…]

– Boa noite, filho. Papai te ama.

[Tasco uma beijoca e saio do quarto. Mas a porta nem fechou, quando…]

– Paaapaaai!

– Quê?

– Fica aqui na porta.

– Tá, papai fica aqui um pouco.

[Encosto a porta e não fico lá perto, claro. 5 minutos depois…]

– Paaapaaai!

– TÁ TARDE, MEU FILHO! DORME!

– PAAAPAAAIÊÊÊ!

[Vou até o quarto dele, com cara de bravo…]

– Quê?

– Qué água.

[Aff… O velho truque de pedir água. Não acredito! Mas vamoquevamo…]

– Tá aqui. Cuidado pra não engasgar.

[Bebe como se tivesse acabado de atravessar um deserto.]

– Qué mais.

[Ai, meu Jesus Cristinho…]

– Aqui. Bebe devagar.

[Bebe só mais um gole, o pilantrinha.]

– Já?!

– Já.

– Pronto, boa noite.

– Papai!

– Quê?

– Qué livro.

– Você já leu historinha hoje. Agora é hora de dormir.

– Num qué dormi!

– LU-CAS! JÁ CHEGA, MEU FILHO! DEITA E DORME!

– NUM QUÉ DORMI!

– NÃO INTERESSA! PAPAI E MAMÃE JÁ DISSERAM PRA VOCÊ DORMIR. AGORA DORME!

[Saio do quarto e deixo ele lá, cantando TODAS as músicas que ele sabe. É uma manifestação pacífica – o único tipo que aceitamos em casa. 15 minutos depois…]

– Paaapaaai! Paaaaapaaaaai! PAAAPAAAIÊÊÊÊ! PAAAAAAPAAAAAAIÊÊÊÊÊÊÊ!

[Me dirijo para o quarto do terrorista com passos pesados, para que ele já vá percebendo toda a minha fúria.]

– QUÊ?!

[Ele tá deitado entre o cachorro e o coelho de pelúcia, me olhando com a cara falsa mais boazinha do mundo.]

– Me cobre.

[POR QUE ELES PRECISAM SER TÃO FOFOS?!]

– Pronto, agora dorme. Boa noite. Papai te ama.

[Saio e falo pra esposa linda, com aquele ar de quem venceu uma guerra: “Agora acho que ele dorme mesmo.” Mas… OH, WAIT! Mais de uma hora e meia pra fazê-lo ficar quieto na cama depois de dada a primeira ordem. Aff… Difícil encarar isso como uma vitória…]

Meu pequeno vândalo.

Quando eu era mais novo (beeem mais novo), tínhamos lá em casa uma televisão em preto-e-branco tão pré-histórica, mas tão pré-histórica, que pra mudar de canal era preciso girar um botão (sei lá se o nome é mesmo esse, mas parecia um botão…) que fazia um horrível “tec-tec-tec” a cada canal sintonizado. OH, WAIT! Sintonizado, não! A cada canal mudado. Porque sintonizar é outra coisa… Aliás, além de trocar de canal era preciso girar outra baguaça que afinava a sintonização.

Taí um retrato perfeitamente fiel daquela TV paleozóica.

Aí eu sigo a vida, estudo, arrumo um emprego decente caso com uma mulher linda e rica e consigo, finalmente, realizar o sonho de ter uma TV responsa. Aliás, TV responsa é pouco! Compramos um telão super-hiper-mega-ultra fodástico, que só não vou descrever em detalhes para não causar inveja mortal a todos vocês e levá-los a cometer suicídio imediatamente.

Eis uma "imagem meramente ilustrativa" da TV atual.

Diante dessa evolução putaquepariusticamente grande que experimentei ao longo da minha vida, imaginem o susto monstruoso que senti ao ver a tela da televisão TODA RABISCADA pela arte (algo entre o pós-moderno e o rupestre) do meu filho, um pequeno vândalo que se valeu da inimputabilidade penal (tem apenas pouco mais de dois anos) para perpetrar seu delito sórdido e premeditado.

Experimentei aquela confusão estranha de sentidos que mistura o inabalável amor de pai àquela repentina vontade de pegar-o-moleque-e-colocar-no-pelourinho. Mas o que fez a bílis subir até a garganta foi mesmo a cara cínica do pivete, numa expressão que teria feito até Maluf se sentir indignado.

Foi mais ou menos assim que o pilantrinha me encarou.

Ah, meus amigos… Tudo o que veio em seguida está pouco claro na minha cabeça ainda agora, turvado que foi pela ira diante dessa cara-de-político-de-Brasília. Só sei que briguei feio com ele. Tão feio, que o moleque deve ter ficado sinceramente assustado, diante do meu rosto transfigurado – eu falava da posição de pai, mas ele parecia encarar um psicopata.

A situação era parecida com essa...

... mas ele parecia estar vendo isso...

... por isso cara do moleque tava assim (basta só trocar o sofá riscado, pela TV).

Eu não queria repetir aquelas mesmas coisa que todos estamos cansados de ouvir e saber, mas aí percebi que ser pai nada mais é do que encarnar todos os clichês do mundo. Aquela coisa do amor mais pleno, sincero e desprendido que pode haver, capaz de relegar todo o resto a segundo plano.

No meio daquela fúria, enquanto despejava na frente dele toda a “gravidade” do ato criminoso, me pegava repetindo, lá no fundo, que, afinal de contas, era uma TV”… Mas comassim, só, Yashá?! Era a minha TV! Aquela que sempre quis, e que finalmente comprei! E agora ela tava lá, vandalizada por aqueles treze quilos de inconsequência. “Pois é, ainda bem que ele não derrubou a TV em cima dele. Já pensou o perigo?!” Ah, sai daqui, consciência paterna! Deixa eu ficar brabo de verdade com ele! A vítima é a TV, oras!

Mas não adianta… No final das contas, a ira é sempre subjugada pelas ordens daquela voz que vem lá do fundo dizendo que a gente não pode exagerar na dose, afinal – e a triste realidade é essa mesmo – é uma TV. O meu trabalho, no fim das contas, é proteger e amar ele. Mais que isso: é fazê-lo sentir sempre a certeza de que em mim ele terá refúgio, não tormenta.

Sim, tudo um monte de clichês, eu sei. Mas não tem jeito: divagar sobre as nuances da paternidade nada mais é do que levar os clichês para passear. Isso vale para tudo, desde quando você se pega repetindo um “papai avisou que você ia cair”; ou um “papai sempre sabe o que é melhor pra você”; chegando no sempre presente – e exaustivamente repetido – “você tem que obedecer mais o papai”.

Vocês não precisam se preocupar e especular sobre o final da história. Basta saber que a integridade física do vândalo foi poupada. No fim das contas, descobri que ele usou giz-de-cera pra executar seu ilícito cuidadosamente premeditado (ele esperou não ter ninguém na sala pra atacar!), o que facilitou o processo de limpeza e permitiu que a TV ficasse como nova outra vez. Bastou, assim, um castigo duro e exemplar:

Imagem "meramente ilustrativa" do vândalo durante seu castigo.

Mas não vou dar uma de Jack Bauer e posar de frio: pouco depois imediatamente já  tava morrendo de vontade de brincar com ele, de beijar ele, de apertar ele.

Sim, eu sei que eles se aproveitam da sua fofura inata pra amolecer nossos corações. Mas, fazer o quê? O trabalho deles é crescer descobrindo os limites do mundo, enquanto o nosso é amá-los incondicionalmente, mostrando onde o estão tais limites – com algumas “palmadas civilizadoras” de vez em quando, claro…

—–

P.S.1: Depois de alguns minutos cumprindo o castigo acima ilustrado, a pena privativa de liberdade foi convertida em restritiva de direitos: uma semana sem os desenhos animados da TV por assinatura.

P.S.2: Ele provavelmente apelará à “Suprema Corte Familiar”, implorando uma ulterior redução da pena. Serei inflexível! Mas se a mãe dele for favorável ao pleito, terei que me render a quem, de fato, manda na casa.